Bicicletadas acontecem ao longo da sexta-feira (12) em cidades brasileiras, mas também se espalham por localidades como Argentina, México, Estados Unidos e França
Uma semana após ser encontrada morta no Amazonas, a cicloviajante, palhaça, feminista e artista venezuelana Julieta Hernández, de 38 anos, inspira na sexta-feira,12/1, atos em todo país. Artistas e ciclistas estão organizando bicicletadas pelas ruas de mais de 160 cidades espalhadas pelo Brasil, por países da América Latina, América do Norte e Europa.
Além de aderência de todos os estados brasileiros e do Distrito Federal, também farão parte da bicicletada cidades da Argentina, Chile, Uruguai, México, Colômbia, Estados Unidos, Holanda, Portugal, Espanha e França. Em alguns locais, as manifestações devem acontecer ao longo do fim de semana. O perfil organizou uma agenda em que é possível conferir em quais cidades, horários e pontos de encontro os atos irão acontecer. Veja neste link.
Os protestos, organizados por administradoras do perfil do Instagram Bicicletada Julieta, têm como intuito denunciar a violência e extermínio de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+.
Veja também

Artista venezuelana desaparecida há 13 dias é encontrada morta no Amazonas
Polícia do Amazonas indicia acusados de assassinar artista venezuelana
.jpg)
No fim de dezembro, Julieta foi morta enquanto viajava de bicicleta de volta para a Venezuela, onde passaria as festas de fim de ano com a família.Ela era conhecida por suas apresentações como a palhaça Miss Jujuba, e passava de bicicleta por mais de nove estados do Nordeste e Norte do país para se apresentar. Também participava de encontros e trocar conhecimentos com outros artistas e residentes das comunidades por onde passava.
Aline Cavalcante está por trás do perfil que organiza as manifestações e é uma das responsáveis pelo ato em Aracaju, em Sergipe. Ela afirma a Marie Claire que começou a organizar o ato junto de outros cicloativistas na internet. "Não imaginei que teria tanta adesão. Começamos com um grupo de 5 pessoas, a maioria de São Paulo, onde moro, mas o pessoal de outras cidades foi chegando. Até que chegamos a 50 pessoas no grupo", conta.
Ela afirma ainda que a comunidade artística também apoiou as manifestações "de forma muito forte". "As bicicletadas por Julieta só existem desse tamanho graças aos grupos teatrais e palhaçarias locais." Os atos também estão sendo apoiados pela família de Julieta.
.jpg)
Aline não conhecia Julieta pessoalmente, mas conta que estava mobilizada no caso desde dezembro. Ela acompanhou as preocupações de pessoas que a conheciam na internet e chegou a apoiar vaquinhas para fazer buscas quando a artista estava desaparecida. "Quando li a notícia de que Julieta tinha sido encontrada do jeito que foi, aquilo me atingiu de um jeito muito avassalador. Não só pela brutalidade do crime, mas porque sou mulher, também cicloviajante", diz.
Verônica Mello, que faz parte do Circo di SóLadies | Nem SóLadies, grupo de palhaçaria feminista de São Paulo, conheceu Julieta em festivais e encontros de palhaçaria pelo Brasil. Ela participou da divulgação de informações para auxiliar nas buscas por ela."Julieta foi (ou melhor, é, porque continua viva diante de tudo isso) uma artista independente que colocou a sua arte no seu caminho junto com sua bicicleta. Entendemos que esse movimento é importante pela memória dela, que é uma pessoa que mobilizou muitas pessoas", diz a artista. "Precisamos construir outras formas, políticas públicas e ações na sociedade civil para que a gente possa mudar essa situação de violência que vivemos no Brasil."
Junto de outros coletivos de palhaçaria, o grupo criou o Coletivo Julieta Presente, que redigiu uma carta aberta em memória a artista venezuelana. Os coletivos que assinam a autoria permitem que a carta seja lida nos atos para Julieta.
(1).jpg)
Aline diz que a história de Julieta também a mobilizou a convocar as bicicletadas em grupos cicloativistas: "Era uma pessoa de uma bondade inacreditável por fazer um trabalho tão sensível pelo nosso país, uma venezuelana que também batalhou pela nossa realidade, dando sua arte e sua vida pelas nossas crianças e pela alegria no interior desse Brasil."
Segundo ela, é a primeira vez que uma bicicletada simultânea organizada no país tem um impacto e alcance tão grande, o que ela considera fruto da mobilização feita por Julieta em vida, mas também o engajamento de grupos circenses."É uma celebração da vida de Julieta com gosto amargo de derrota. Precisamos acolher todos os sentimentos agora. Elaborar essa dor e luto e continuar a luta, que é imensa", afirma Aline Cavalcante a Marie Claire. A ideia dela é fazer com que o momento de denúncia tenha um tom de homenagem e apoio para pessoas que foram impactadas com o assassinato de Julieta.
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), todas as formas de violência contra mulheres aumentaram no Brasil ao longo de 2022. Naquele ano, foram 1.437 feminicídios registrados (um aumento de 6%) e 74.930 estupros (uma média de 205 por dia).
.jpg)
Fotos: Reprodução/Google
"Infelizmente, mulheres estão fadadas a uma sociedade que não quer que sejamos felizes e livres. O tempo todo nos lembram que temos que ser submissas, e Julieta representava o oposto. Vamos continuar, porque o que aconteceu com Julieta não foi culpa dela, mas do sistema e do patriarcado. Nós, mulheres, pessoas LGBT e corpos vulnerabilizados temos que nos unir para continuar batalhando por ela."
Verônica ressalta que, além das bicicletadas, os movimentos envolvidos nos atos também buscam arrecadar doações para a família da venezuelana e para pessoas que se envolveram nas operações de busca por Julieta. Os valores podem ser enviados pelo PayPal da irmã de Julieta, Sophia (sophialarouge@gmail.com) ou via Pix para o Circo di SóLadies | Nem SóLadies (contato@circodisoladies.com.br).
"Julieta não gostaria que tivéssemos medo, mas que tivéssemos coragem e arte nas nossas ações. Esse dia marca uma luta muito importante para mulheres e todas as pessoas de corpos dissidentes. Estamos unides, unidas e unidos para poder manter a memória e a história de Julieta viva, não só hoje mas sempre", conclui Verônica.
Fonte: com informações do Portal G1
Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.