Mesmo quando doença já tinha cura, crianças eram tiradas das famílias
Rita de Cássia Barbosa nunca esqueceu o dia em que sua filha nasceu. A esperança e a felicidade foram instantaneamente substituídas pelo horror quando o médico anunciou: ela não poderia sequer ver a criança. Pegá-la no colo? Amamentá-la? Nem pensar. Mas, por um breve momento de coragem e compaixão, uma enfermeira desafiou as regras e aproximou a pequena Giovana de sua mãe. "Quando eu vi minha filha... Meu Deus do céu, eu chorei muito", lembra Rita.
Naquela década de 1970, o Brasil mantinha uma política cruel: bebês nascidos de pais com hanseníase eram arrancados deles ao nascer e enviados a educandários, onde cresciam isolados, sem carinho, sem história, sem suas famílias. Rita, diagnosticada com a doença durante a gravidez, foi internada sem previsão de sair. O governo sabia que a hanseníase já tinha tratamento e que a transmissão poderia ser contida. Mas, ainda assim, escolheu o isolamento. Escolheu a separação. Escolheu o abandono.
Seis anos depois, Rita se disfarçou para ver a filha, fingindo ser outra pessoa. "Eu disse: 'Oi, Giovana, tudo bem?'. Ela me olhou e perguntou: 'Você é minha tia Ana?'. Olhei para os lados, vi que não tinha ninguém e confessei: 'Eu sou sua mãe'. Ela gritou". Mas a felicidade durou pouco. Com medo de ser descoberta e colocar a filha em risco, Rita teve que se afastar mais uma vez. O reencontro definitivo levou outros oito anos.
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Roberto dos Santos de Jesus, filho de ex-internos da Colonia de hanseníase do Hospital
Colônia de Curupaiti, localizado em Jacarepaguá (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
O trauma dessas crianças roubadas de seus pais não terminou ali. No educandário, o que deveria ser um lar se transformou em um campo de abuso. Marly Silva lembra dos castigos brutais. "Tinha 5 ou 6 anos e me faziam cuidar de 60 crianças. Se não desse conta, apanhava". As memórias de fome, de espancamentos, do terror de ser escolhido por estranhos e levado sem explicação ainda assombram muitas dessas vítimas. "Depois de ver minha mãe, eu só queria tocá-la. Por isso, me jogaram num quarto escuro, cheio de ratos e baratas. Hoje, não consigo ficar no escuro sem entrar em pânico".
Roberto dos Santos também carrega as marcas desse passado. "Fui num parque aquático e entrei no tobogã. De repente, me veio uma fobia absurda. Lembrei de quando me trancavam em caixas". A sensação de sufocamento nunca o deixou. Ao longo de seis décadas, milhares de famílias foram destruídas. Muitos filhos nunca mais viram seus pais. Outros reencontraram mães e pais já sem tempo para recuperar os anos perdidos. Hoje, a luta é pelo reconhecimento. Depois de muita pressão, o governo finalmente aprovou uma lei garantindo pensão para esses filhos arrancados de seus lares. Mas para muitos, a espera por justiça continua.
Rita de Cássia, agora conhecida como "Mãe Rita", transformou sua dor em ação, ajudando outros filhos separados a reunir documentos para reivindicar seus direitos. Para ela, a indenização não é apenas uma questão financeira, é um reconhecimento de que o Estado errou. “A separação não foi só crueldade. Foi um crime. E crimes precisam ser reparados.”
Fonte: com informações da Agência Brasil
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