30 de Abril de 2026

NOTÍCIAS
Meio Ambiente - 12/03/2023

Indígenas da Amazônia têm armadura contra Doença de Chagas no DNA

Compartilhar:
Foto: Reprodução

Aonde quer que fôssemos, alguma coisa queria nos matar.

A distribuição geográfica planetária da nossa espécie —o único mamífero de grande porte a colonizar todos os continentes, todas as zonas climáticas, todos os ecossistemas terrestres— não foi exatamente fácil de conseguir. Aonde quer que fôssemos, alguma coisa queria nos matar.

 

E não falo apenas de ursos-das-cavernas ou dentes-de-sabre. Os piores assassinos sempre foram os microscópicos, os que conseguiam devorar nossos ancestrais por dentro, causando todo tipo de enfermidade. Durante a maior parte do tempo, o contra-ataque também veio de dentro do organismo do Homo sapiens: variantes de DNA que surgiam ou já estavam presentes no genoma de alguns sortudos, conferindo-lhes resistência aos inimigos microscópicos.

 

Aos poucos, os que carregavam essas variantes iam tendo mais descendentes que os demais membros da população, até que sua capacidade de resistência se tornava a norma. Essa história se repetiu muitas vezes mundo afora, e parece ter sido crucial também para que os ancestrais dos indígenas brasileiros conseguissem se estabelecer na Amazônia e praticamente derrotassem o mal de Chagas, doença que ainda hoje é de difícil tratamento.

 

Veja também

 

Amazônia e Cerrado batem recorde de alertas de desmatamento

Para evitar queimadas, Ministério do Meio Ambiente declara 'emergência ambiental' em quatro regiões do Amazonas

 

Registro do Contato de 2014 da Expedição Monitoramento e Proteção dos Korubo do Coari

 

Pistas sobre esse processo estão numa pesquisa que acaba de sair no periódico especializado Science Advances. Uma equipe capitaneada por Tábita Hünemeier, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP, vasculhou o DNA de 118 indígenas não miscigenados, pertencentes a 19 etnias diferentes da Amazônia. O objetivo era identificar “assinaturas” da seleção natural no genoma —ou seja, variantes de DNA que poderiam ter aumentado as chances de sobrevivência e reprodução das pessoas que as carregam ao longo dos milênios.

 

Existem vários jeitos engenhosos de detectar a mão invisível da seleção natural agindo sobre o DNA. Um dos mais simples, empregado por Hünemeier e seus colegas, é verificar se determinada variante se tornou muito mais comum em certa população do que nas outras. Usando esse e outros métodos, a equipe identificou uma variante tipicamente amazônica —presente em mais de 80% dos indígenas da região— do gene conhecido como PPP3CA.

 

Indígenas desenvolvem resistência genética à doença de Chagas na Amazônia -

 

Esse gene contém a receita para a produção de uma molécula que está envolvida na comunicação entre as células do sistema de defesa do organismo e no processo por meio do qual o causador da doença de Chagas, o micro-organismo Trypanosoma cruzi, invade células humanas. Mais intrigante ainda, a mesma molécula também está presente nos tecidos cardíacos —e o coração é um dos órgãos que mais são danificados pelo T. cruzi.

 

Outra peça importante do quebra-cabeças: a incidência da doença é muito baixa entre os indígenas da Amazônia —embora eles vivam na região em que existe a maior variedade de espécies dos insetos que transmitem o mal de Chagas (conhecidos popularmente como “barbeiros”, já que tendem a picar o rosto das pessoas).

 

Indígenas na Amazônia evoluíram proteção contra a doença de Chagas, conclui  estudo - Saber Atualizado

Fotos: Reprodução

 

Curtiu? Siga o Portal Mulher Amazônica no FacebookTwitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram.
 

Tudo indica, portanto, que os ancestrais dos povos nativos de hoje, ao encontrar a doença, acabaram se adaptando a ela graças à presença da variante do gene em sua população. Segundo os cálculos da equipe, isso teria acontecido a partir de 7.500 anos atrás.

 

A história é intrigante —e também, em certo sentido, é só o começo. Feito um pergaminho antigo, o genoma dos primeiros brasileiros está sendo decifrado aos poucos, e ainda deve iluminar tremendamente o passado profundo do nosso continente.


Fonte: com informações da Revista Cenarium

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Email:

Mensagem:

LEIA MAIS
Fique atualizada
Cadastre-se e receba as últimas notícias da Mulher Amazônica

Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.