Após 16 anos, premier enfrenta oposição fortalecida em pleito seguido de perto por Europa, EUA e Rússia, e que pode pôr fim à era da ?democracia iliberal?
Após 16 anos, um ícone da extrema direita global pode ser derrotado hoje, quando os húngaros vão às urnas para decidir o futuro do eurocético e pró-Rússia Viktor Orbán, de 62 anos. Se o resultado colocar um fim à “democracia iliberal” no país, abrirá caminho para uma Europa menos fragmentada por divisões geopolíticas. Mas, se Orbán se mantiver no poder, a vitória confirmará a força da onda favorável à extrema direita no mundo. Líderes europeístas torcem pela mudança.
Os confrontos da Hungria de Orbán com a União Europeia (UE) e o alinhamento do conservadorismo húngaro ao projeto americano de desmonte da ordem liberal do pós-Segunda Guerra fazem da eleição parlamentar húngara um dos pleitos mais importantes da Europa neste ano. O modelo autoritário e conservador imposto por seu partido Fidesz (União Cívica Húngara) integrou um movimento internacional de fortalecimento das extremas direitas. A italiana Giorgia Meloni, o americano Donald Trump, a francesa Marine Le Pen, o holandês Geert Wilders e o brasileiro Jair Bolsonaro se consolidaram como representantes da direita radical mundial.
Alianças internacionais
Um bloco que, quando coeso, constrói alianças de apoio. Orbán já se declarou “firmemente ao lado dos Bolsonaro” e denunciou uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente. Desta vez, quem correu para o socorro de Orbán foi Trump, que despachou para a Hungria seu vice, JD Vance, em uma tentativa de manter o líder mais longevo da Europa no poder. Vance desembarcou em Budapeste na semana passada, gesto pouco usual na diplomacia das democracias, explicitado pela declaração do vice de que “estava na Hungria para ajudar Orbán”.
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— Não se trata propriamente de uma relação institucional, mas de uma relação pessoal entre Trump e Orbán e do estabelecimento, ao longo de vários anos, de redes intelectuais ou de especialistas que participam dessa nebulosa ideologia de extrema direita — explica a professora da Sciences Po Antonela Capelle-Pogacean, que não acredita no impacto da visita. — Embora aqueça os corações dos eleitores do Fidesz, não estou convencida de que os indecisos serão mobilizados pela chegada de Vance. Na visita dias antes da eleição, Vance voltou suas armas contra a UE. Ao lado de Orbán, acusou o bloco de tentar interferir no pleito — acusação refutada pelo governo alemão, que afirmou que a visita de Vance “mostra, ou fala por si mesma, quem está interferindo em que”. Uma das aliadas de Orbán é Alice Weidel, líder do partido de extrema direita alemão Alternativa para a Alemanha (AfD).
Publicamente, líderes de países alinhados ao projeto comum europeu não se pronunciam sobre o pleito, seguindo a tradição diplomática de não interferir. Questionado pelo GLOBO sobre a expectativa da França, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores francês, Pascal Confavreux, respondeu que “existe um princípio quase sagrado na diplomacia: não se comentam as eleições do país vizinho”. — Vou respeitá-lo por um motivo simples: detestamos quando outros Estados comentam nossas próprias eleições — disse, defendendo a força da Europa frente à oposição de Orbán ao financiamento de pacotes de sanções contra a Rússia e de ajuda à Ucrânia.
Além de Trump, Orbán conta com o apoio de Vladimir Putin. Líder europeu mais próximo de Moscou, Orbán cultiva desdém pelo projeto de seus colegas que defendem a soberania ucraniana, chegando a bloquear uma medida para que fundos do bloco fossem direcionados ao país, além de ter se oposto à candidatura ucraniana de adesão à UE. Defensor do cristianismo tradicional e dos valores da família, e opositor do liberalismo e do multiculturalismo do Ocidente, Orbán tem como foco da campanha valores conservadores. O premier tenta se vender como o único capaz de defender a paz, enquanto os opositores querem guerra.

— A alegação de Orbán é basicamente a de que ele é a escolha segura, a pessoa confiável que pode proteger a Hungria de todos os tipos de crises. Mas, ao mesmo tempo, ele não está falando sobre suas políticas internas — afirma András Bíró-Nagy, cientista político húngaro e diretor do Policy Solutions. Mas áreas como economia, inflação e aumento do custo de vida podem entregar a vitória para a oposição, liderada pelo advogado Péter Magyar, de 45 anos, do partido Tisza (Respeito e Liberdade). A esperança dos opositores vem das pesquisas, que apontam vantagem para Magyar: a legenda poderia conquistar entre 138 e 143 cadeiras das 199 do atual Parlamento.
Ex-aliado de Orbán e ex-integrante de seu partido, o advogado ganhou os holofotes há dois anos, ao acusar Orbán de corrupção. Magyar promete rever a orientação pró-Moscou e anti-UE da Hungria e sua dependência energética da Rússia, além de melhorar a economia, combater a corrupção e restaurar a independência da mídia e do Judiciário — que passou por uma erosão do Estado de Direito, com a nomeação de juízes leais e o enfraquecimento da independência da Justiça. Mas sua plataforma não é progressista: o Tisza também defende valores da família e o nacionalismo. A política anti-imigração húngara deve se manter.
Recontagem de votos
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Fotos: JONATHAN ERNST / POOL / AFP
Ainda assim, para derrotar Orbán, será preciso mais do que uma maioria simples, já que o sistema eleitoral trabalha a favor do premier. Desde 2010, quando ele assumiu, o desenho dos distritos eleitorais foi refeito para favorecê-lo. Orbán ganhou as últimas eleições com enorme vantagem — consideradas livres, mas não justas, por observadores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa, que denunciaram a propaganda financiada pelo Estado e a imparcialidade da imprensa.
Também é preciso uma vantagem significativa para aprovar leis que refaçam o sistema autoritário imposto ao longo dos últimos anos, já que são necessários dois terços dos votos do Parlamento. — Se a vitória for muito apertada, poderemos ver contestações de ambos os lados, ou algo semelhante ao que aconteceu nos EUA, no Capitólio, após a derrota de Trump em 2020 — afirma Capelle-Pogacean. — Poderíamos entrar em um processo de recontagem de votos por zona eleitoral, o que poderia levar a um processo mais longo.
Fonte: com informações O Globo
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