23 de Maio de 2026

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Direitos da Mulher - 23/05/2026

'Há 10 mulheres e 75 homens': Cate Blanchett expõe por que muitas mulheres acreditam que o #MeToo foi sufocado pela própria indústria que denunciou

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Foto: Reprodução/Google

O #MeToo ganhou força mundial em 2017, após dezenas de mulheres denunciarem o ex-produtor Harvey Weinstein por assédio, abuso sexual e estupro

Quase uma década após o movimento #MeToo abalar Hollywood e desencadear denúncias históricas de abuso, assédio e violência sexual na indústria do entretenimento, a atriz australiana Cate Blanchett voltou a provocar um debate desconfortável durante o Festival de Cannes: afinal, o que realmente mudou para as mulheres dentro do cinema?

 

Durante participação em um encontro mediado pelo jornalista Didier Allouch, no tradicional festival francês, Blanchett afirmou que o movimento #MeToo foi “rapidamente sufocado”, apesar de ter revelado algo muito maior do que casos isolados de violência. Segundo ela, o movimento expôs uma estrutura sistêmica de abuso e desigualdade que continua presente não apenas no cinema, mas em praticamente todos os setores da sociedade.

 

A declaração reacendeu discussões internacionais sobre machismo estrutural, silenciamento feminino e a permanência de espaços profissionais ainda dominados por homens, mesmo após anos de mobilização global.

 

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O movimento que abalou Hollywood — mas não transformou completamente suas estruturas

 

 

 

O #MeToo ganhou força mundial em 2017, após dezenas de mulheres denunciarem o ex-produtor Harvey Weinstein por assédio, abuso sexual e estupro. As denúncias desencadearam uma onda histórica de relatos envolvendo atrizes, produtoras, roteiristas, jornalistas e profissionais de diferentes áreas. Pela primeira vez, Hollywood parecia confrontar publicamente práticas que haviam sido naturalizadas durante décadas. Nomes influentes perderam contratos, carreiras foram interrompidas e grandes estúdios passaram a adotar protocolos de proteção e combate ao assédio. A indústria prometia uma transformação profunda.

 

Mas, segundo Blanchett, parte desse impulso foi interrompido antes de produzir mudanças estruturais reais. “O que o movimento revelou foi uma camada sistêmica de abuso, não apenas nesta indústria, mas em todas as indústrias. E, se você não identifica um problema, não consegue resolvê-lo”, declarou a atriz durante o evento em Cannes.

 

“Há 10 mulheres e 75 homens nos sets”

 


A fala que mais repercutiu internacionalmente foi a descrição feita pela atriz sobre o cotidiano dos bastidores cinematográficos. Blanchett afirmou que costuma observar quantas mulheres estão presentes nos sets de filmagem e percebe um desequilíbrio constante. “Há 10 mulheres e 75 homens todas as manhãs”, disse a atriz. A observação vai além dos números. Especialistas em gênero e indústria audiovisual afirmam que a composição majoritariamente masculina nos bastidores influencia diretamente:
• quais histórias são contadas;
• como personagens femininas são retratadas;
• quem ocupa cargos de liderança;
• quem recebe maiores salários;
• quem possui poder de decisão.

 

Pesquisadores da área de cinema destacam que, embora mulheres estejam presentes diante das câmeras, ainda enfrentam enormes barreiras para ocupar posições estratégicas como direção, fotografia, roteiro, produção executiva e comando técnico.

 

O problema não é apenas Hollywood

 

 


A declaração de Cate Blanchett repercutiu justamente porque reflete uma realidade global. Em diferentes setores profissionais, mulheres continuam relatando:
• menor acesso a cargos de liderança;
• desigualdade salarial;
• ambientes masculinizados;
• assédio moral e sexual;
• necessidade constante de provar competência;
• desgaste emocional provocado por espaços hostis.

 

Especialistas afirmam que o #MeToo provocou mudanças importantes na consciência coletiva, mas não foi suficiente para desmontar estruturas históricas de poder. Muitas empresas passaram a adotar discursos de diversidade sem alterar efetivamente a distribuição de poder dentro das instituições.

 

A exaustão de viver em ambientes homogêneos

 


Outro ponto destacado por Blanchett foi o desgaste provocado pela predominância masculina nos ambientes profissionais. “Você precisa estar constantemente preparada para isso”, afirmou a atriz ao comentar que determinadas piadas e comportamentos se repetem continuamente em espaços compostos quase exclusivamente por homens. A fala dialoga com um conceito cada vez mais discutido por especialistas: a fadiga de gênero. O termo descreve o esgotamento emocional enfrentado por mulheres que passam anos tentando se adaptar a ambientes construídos historicamente sob lógica masculina. Não se trata apenas de grandes episódios de violência ou discriminação explícita. Muitas vezes, o desgaste nasce da repetição diária de interrupções, deslegitimações, invisibilização profissional e comentários naturalizados. Segundo pesquisadores, ambientes homogêneos tendem a reproduzir padrões de exclusão sem perceber.

 

Cannes e o retrato da desigualdade histórica

 

 


A relação de Cate Blanchett com o debate sobre igualdade de gênero no cinema não é recente. Em 2018, quando presidiu o júri do Festival de Cannes, a atriz participou de um protesto histórico ao lado de outras 81 mulheres nas escadarias do festival. O número simbolizava as apenas 82 mulheres diretoras que haviam disputado a principal mostra competitiva do festival até aquele momento, enquanto mais de 1.500 homens já tinham participado da mesma categoria ao longo da história. Na ocasião, Blanchett afirmou que as mulheres não são minoria no mundo, mas continuam sendo tratadas como minoria dentro da indústria cinematográfica. O gesto se tornou um dos momentos mais emblemáticos da luta por igualdade no cinema internacional.

 

O que especialistas dizem sobre o “sufocamento” do #MeToo

 


Pesquisadores de gênero e cultura afirmam que movimentos sociais frequentemente enfrentam resistência quando começam a ameaçar estruturas consolidadas de poder. Segundo especialistas, o #MeToo conseguiu romper o silêncio coletivo sobre violência e abuso, mas encontrou dificuldades para avançar em mudanças permanentes porque mexeu diretamente com interesses econômicos, políticos e institucionais. Também houve reação pública contrária ao movimento nos últimos anos, incluindo discursos que tentaram minimizar denúncias, desacreditar vítimas ou tratar o tema como exagero. Ainda assim, analistas apontam que o #MeToo deixou marcas irreversíveis:

 

• ampliou o debate sobre consentimento;
• fortaleceu denúncias de abuso;
• pressionou empresas a criarem mecanismos de proteção;
• aumentou a presença feminina em debates sobre liderança e representatividade.
Mesmo assim, especialistas alertam que igualdade não se conquista apenas com visibilidade. Ela exige redistribuição real de poder.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

O Portal Mulher Amazônica entende que a fala de Cate Blanchett revela uma realidade que ultrapassa Hollywood e atinge mulheres em diferentes profissões, países e contextos sociais. O #MeToo não fracassou por falta de importância. Pelo contrário: ele expôs estruturas tão profundas de desigualdade que parte do sistema reagiu tentando silenciar, desacreditar ou enfraquecer o movimento. Quando uma atriz premiada internacionalmente afirma que ainda entra em ambientes compostos por “10 mulheres e 75 homens”, fica evidente que o problema nunca foi apenas comportamento individual. Trata-se de uma lógica histórica de poder, exclusão e invisibilização feminina.

 
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Discutir representatividade não é falar apenas sobre presença. É falar sobre quem decide, quem lidera, quem é ouvido e quem continua sendo tratado como exceção em espaços que ainda funcionam sob domínio masculino. O silêncio imposto às mulheres durante décadas começou a ser rompido. O desafio agora é impedir que ele volte a ser normalizado.

 

Fontes:
The Guardian
Variety
ONU Mulheres
 

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