Organização nunca havia concedido o título a um conjunto culinário nacional tão amplo e diverso
A riqueza gastronômica da Itália acaba de ganhar um novo reconhecimento internacional. Na quarta-feira, 10, o comitê intergovernamental da UNESCO oficializou a inclusão da culinária italiana na lista de Patrimônios Culturais Imateriais da Humanidade — um marco histórico, já que é a primeira vez que a tradição culinária de um país inteiro, e não apenas um prato ou técnica específica, conquista esse selo.
A decisão foi tomada durante a reunião do Comitê Intergovernamental realizada em Nova Delhi, na Índia, que avaliou formalmente a candidatura apresentada em 2023 pelos ministérios italianos da Cultura e da Agricultura. Em novembro de 2025, um parecer técnico da agência já havia recomendado a inclusão.
Ao longo dos anos, a UNESCO já havia destacado elementos gastronômicos importantes de diversas culturas, como o washoku do Japão, o kimchi da Coreia e as tradições culinárias de Michoacán, no México. Mas nunca havia concedido o título a um conjunto culinário nacional tão amplo e diverso. Esse reconhecimento italiano também se diferencia do concedido à França em 2010, quando somente a “refeição gastronômica dos franceses” entrou na lista — um escopo muito mais específico do que o sistema culinário completo agora reconhecido na Itália.
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O reconhecimento italiano reúne uma série de práticas já valorizadas individualmente pela organização, como a dieta mediterrânea, os pizzaiolos de Nápoles, o manejo de trufas e a produção vinícola. O novo dossiê — cuja elaboração começou em 2019, sob o título Culinária Italiana: Entre Sustentabilidade e Diversidade Biocultural — se apoia nessa base para defender a cozinha italiana como um ecossistema cultural vivo, moldado por tradições, ingredientes sazonais, técnicas regionais e um profundo senso de comunidade.
A candidatura, segundo o governo, não destacou pratos icônicos como pizza, massas ou risotos, mas sim um sistema alimentar que envolve biodiversidade agrícola, rituais familiares de partilha, respeito às estações e uma forte identidade regional.
A proposta foi impulsionada por instituições que há décadas estudam e preservam a gastronomia do país, como a Academia Italiana de Culinária, a Fundação Casa Artusi e a revista La Cucina Italiana. Em vez de destacar receitas isoladas, o documento enfatiza a noção de “cozinha afetiva”: a comida que une famílias, que atravessa gerações e que expressa a diversidade das regiões italianas por meio de seus rituais, sabores e modos de preparo.
Celebração

Para André Guidon, ítalo-brasileiro e sócio-proprietário da Leggera, eleita em 2025 como a terceira melhor pizzaria do mundo pelo ranking 50 Top Pizza, o reconhecimento vai muito além das receitas. “Não é apenas um selo para receitas, mas uma salvaguarda que valida o sistema de práticas sociais, técnicas e laços comunitários da nossa gastronomia”, afirma.
Guidon vê o título como uma responsabilidade. “Ao estabelecer um padrão de referência internacional para a autenticidade, a chancela motiva chefs e produtores no exterior a buscar o conhecimento das tradições regionais genuínas e a valorizar ingredientes de origem controlada. O título nos coloca na obrigação de sermos ainda mais fiéis à nossa herança, tornando a autenticidade um diferencial de mercado”, explica.
Para ele, preservar a culinária italiana no Brasil exige manter três pilares essenciais. “O primeiro é a tradição da simplicidade, que exige que o ingrediente seja a estrela. Devemos ter foco absoluto na qualidade da matéria-prima — a farinha, o azeite, o tomate, os queijos. O segundo pilar é a técnica artesanal, onde é inegociável o rigor do ponto de cozimento al dente e a fermentação natural e lenta. Por fim, o mais importante é o ritual da condivisione, que é o ato social. Preservar o ritual de sentar-se à mesa sem pressa, onde a refeição é um momento de compartilhamento, afeto e união, é o que confere a essa cozinha afetiva a verdadeira alma do patrimônio reconhecido pela UNESCO”, destaca.

Sandro Giovannone, italiano radicado no Brasil há 30 anos e empresário à frente da Spazio Lab e da Maturameat, negócios dedicados ao Wagyu, à maturação de proteínas e à charcutaria italiana, reforça a importância do reconhecimento. “A culinária italiana é cultura antes de ser uma receita. Nós temos uma história cultural que nos leva à culinária e vice-versa”, diz.
Para Giovannone, o título da UNESCO ajuda a combater simplificações. “Quando se fala de culinária italiana, parece que se fala só e exclusivamente de massa e molho, quando, na verdade, nós temos uma história de culinária enorme. No Brasil, existe, infelizmente, um caminho de atalho, de parecer-se — culturalmente, sempre se pensou em fazer ‘tipo queijo’, ‘tipo isso ou aquilo’, para abreviar e encurtar o trajeto. Ao contrário, a culinária italiana é paciência, é estudo, é história”, afirma.
O governo italiano celebrou amplamente o anúncio. Em vídeo, a primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que o reconhecimento “honra quem somos e a nossa identidade”, ressaltando que a culinária italiana é cultura, tradição, trabalho e riqueza. Ela também destacou o papel dos italianos que vivem fora do país na preservação e disseminação dessas práticas.

Fotos: ReproduçãoGoogle
Agora, com a chancela da UNESCO, a Itália assume o compromisso de proteger e fortalecer esse patrimônio. Segundo a Convenção de 2003, o país deve catalogar e salvaguardar essas práticas culturais em colaboração com quem as mantém vivas — cozinheiros, produtores, comunidades locais e famílias.
Isso envolve incentivar pesquisas, ampliar programas de educação alimentar, apoiar museus e arquivos de memória gastronômica, além de apresentar relatórios periódicos à organização sobre as ações realizadas para transmitir esse legado às próximas gerações.
Fonte: Com informações Estadão
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