Explore a síndrome da impostora e como ela se manifesta nas mulheres, especialmente em posições de liderança ou em construção deste caminho
São seis horas da manhã. O alarme toca, viro para o lado, aperto o botão da soneca. Só mais dez minutos. Depois de levantar, uma enxurrada de pensamentos vem à mente: a mensalidade da escola do filho, a reunião com o global, o IPVA, o supermercado, o pilates, a academia, contas que chegaram. E aí, penso: antes de começar essa jornada, vou dar só uma espiadinha no Instagram. E sou invadida por outra voz: seja perfeita, você não está fazendo o bastante.
Que mulher nunca passou por isso? Sejamos francas: para além das demandas da vida adulta, passamos por uma pressão colossal para sermos bonitas, boas mães e esposas, estarmos sempre bem vestidas, com a ginástica em dia e, acima de tudo isso, com um sorriso no rosto. Não há saúde mental que resista a tanto peso nos ombros.
Se falarmos de lideranças femininas, essa carga é ainda mais reforçada: nos sentimos forçadas a provar nossos talentos diariamente, como se tivéssemos que pagar um pedágio para ocupar aquela cadeira. Certamente, essa pulga atrás da orelha - também chamada de síndrome da impostora - não aflige o público masculino. Ao menos, não da mesma maneira.
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Recentemente, assisti a um vídeo do TED, protagonizado pela Reshma Saujani, fundadora do Girls Who Code, que me deixou reflexiva. De acordo com a palestrante, homens são ensinados a serem corajosos, enquanto mulheres aprendem a ser perfeitas. Per-fei-tas! O que é perfeição? Nada mais é do que um objetivo inalcançável, afinal de contas, além de ser um conceito abstrato, ninguém no mundo alcança essa qualidade.
Para Saujani, devemos propagar a mesma dinâmica para as meninas, isto é, ensinando-as a serem corajosas. Na conversa, ela menciona que muitas profissionais de sua indústria - a programação - apertavam Ctrl + Z antes de mostrar algum trabalho. Ou seja, elas sequer se permitiam expor algo, pois consideravam que o projeto não estava perfeito ou com a qualidade supostamente apropriada para um(a) chefe conferir.
Mas não seria a construção (a ideia do “work in progress”) parte do ofício em si? Temos sempre que apresentar algo totalmente concluído e revisado à nossa equipe? O erro não faz parte do acerto? Essas são perguntas cujas respostas parecem óbvias, mas não são. E precisamos nos indagar mais e mais sobre essas questões.

Fotos: Reprodução/Google
Outro vídeo que costumo compartilhar é a série Makers que entrevistou Ginni Rometty, ex-CEO da IBM. A primeira executiva a sentar nessa cadeira - por muito tempo, referida como chairman - comenta sobre os obstáculos que enfrentou, em termos de autoimagem e aceitação, para chegar no mais alto posto de uma empresa de tecnologia (área com predominância notoriamente masculina).
Em um momento de sua carreira, seu chefe lhe ofereceu uma promoção para liderança. Prontamente, Rometty respondeu que não se sentiu pronta e, logo, precisaria de um tempo para pensar. Ao chegar à sua casa e contar o episódio ao marido, ele lhe questionou: “você acha que um homem teria respondido a esse convite da mesma forma?” No dia seguinte, Ginni foi à mesa do seu líder e disse: "Estou pronta.” E ele lhe aconselhou: não faça isso novamente.
Todas nós já passamos por isso, seja em cargos de liderança, em cadeiras de atendimento, sendo cliente, agência ou produtora. E por que, mesmo com tanto debate e informação disponível, seguimos reproduzindo esses mecanismos psicológicos? Talvez porque fomos condicionadas, desde cedo, a confundir valor com validação e competência com perfeição. Desaprender isso exige coragem diária - a mesma coragem que tantas vezes nos disseram não ser nossa característica principal. Se estamos em obras, que seja com orgulho: tijolo por tijolo, erro por erro, conquista por conquista. Afinal, não é a perfeição que nos move, mas a disposição de continuar construindo, mesmo quando uma voz interna insiste em duvidar.
Fonte: com informações UOL
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