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Política - 01/03/2022

Divergências entre Bolsonaro e Itamaraty sobre invasão russa obrigam ministros e assessores a esclarecer: vale posição da diplomacia

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Foto: Reprodução

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores, Carlos França, durante evento no Itamaraty

Saia justa é algo pela qual a diplomacia brasileira tem passado com alguma frequência desde o início da crise entre Rússia e Ucrânia. O desencontro de declarações entre o que diz o Itamaraty e o que diz o presidente da República levou auxiliares de Jair Bolsonaro a esclarecer a embaixadores estrangeiros e autoridades de outros países que, em momentos divergentes, o que vale é a posição do Ministério das Relações Exteriores, e não os discursos do presidente.

 

Por causa desses sinais trocados, dois ministros de Bolsonaro tiveram de esclarecer essa questão na segunda-feira. Em entrevista à GloboNews, o chanceler Carlos França explicou que a posição do Brasil não é de neutralidade, e sim equilíbrio.

 

Ao ser entrevistado pela Bloomberg, em Nova York, a primeira pergunta que o ministro da Economia, Paulo Guedes, teve que responder foi sobre a neutralidade pregada por Bolsonaro. Guedes afirmou que o Brasil votou duas vezes pela condenação da invasão russa na ONU.

 

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— O Brasil no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas votou duas vezes e votará novamente para condenar a invasão da Ucrânia.

 

A mensagem é que a visão do presidente é a mais importante e que ele endossa as decisões do Itamaraty. No entanto, Bolsonaro, com seu estilo informal de falar, “nem sempre emprega as palavras com precisão”.

 

No domingo, dois dias depois de o Brasil condenar os ataques russos à Ucrânia no Conselho de Segurança, Bolsonaro defendeu a neutralidade. Disse que o ideal é não tomar partido e demonstrou preocupação com o preço dos fertilizantes, produtos que têm a Rússia entre os principais fornecedores para o agronegócio brasileiro.

 

Antes disso, às vésperas da viagem de Jair Bolsonaro a Moscou, em meados deste mês, o Itamaraty se esforçou para convencer o governo ucraniano e autoridades de outros países, como os Estados Unidos, de que o encontro entre o presidente brasileiro e o líder russo Vladimir Putin tinha o objetivo de discutir a agenda bilateral. Bolsonaro chegou a ser aconselhado a não falar sobre a Ucrânia, a não ser que Putin tocasse no assunto. A primeira coisa que disse no encontro é que era solidário à Rússia, sem dar detalhes a que se referia.

 

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— Parece-me que o governo brasileiro está perdido, com um discurso extremamente ambíguo. Afinal, o que vale? O posicionamento do Brasil no Conselho de Segurança, que foi de condenação explícita à Rússia, ou a fala do presidente depois, que diz que o Brasil adotará a neutralidade? O voto não é de neutralidade, é de condenação — disse o cientista político Hussein Kalout, pesquisador em Havard e membro do Conselho Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

 

Para Kalout, neste momento é impossível passar dois sinais: condenar a Rússia de um lado e, de outro, manter a parceria com Putin. Segundo ele, esse tipo de posicionamento deixa o Brasil extremamente vulnerável.

 

— Não somos um país pequeno para ter esse tipo de ambivalência no posicionamento e isso afetará a imagem do Brasil. Isso pode esmagar a reputação do Brasil. Enquanto o Itamaraty fala em condenação, o presidente hesita. Bolsonaro está, literalmente, minando a capacidade de o Itamaraty ser respeitado como uma instituição de Estado — afirmou.

 

Essa posição conflitante é reconhecida por interlocutores próximos a Bolsonaro. Segundo essas fontes, enquanto a área militar e os chamados “ideólogos” do governo queriam a condenação da Rússia, alguns integrantes da cúpula do Itamaraty preferiam manter a defesa de uma solução negociada. Com o agravamento da situação na Ucrânia e a pressão internacional, o Brasil endureceu o discurso na ONU.

 

— A posição do nosso representante no Conselho de Segurança está na linha da melhor tradição da diplomacia brasileira e poderia ser subscrita por representantes de sucessivos governos, de Sarney a Temer. Com Bolsonaro, o Itamaraty faz o que pode para conter os danos provocados pelo desastre diplomático que é o presidente. Seria melhor que ele se calasse — disse o ex-ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes.

 

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Ex-ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes

 

Professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), o cientista político Guilherme Casarões explicou que o posicionamento neutro só faz sentido entre duas partes envolvidas num conflito de maneira mais ou menos simétrica: diante de uma guerra em que um lado agride e outro é agredido, a neutralidade somente favorece o mais forte.

 

A rigor, observou Casarões, a tradição diplomática do Brasil é regida, desde Barão do Rio Branco, pelo princípio da solução pacífica de controvérsias. Sempre que houve conflagrações militares, o país colocou-se contra o recurso à força e a favor da diplomacia.

 

— Neste caso, o silêncio frente aos ataques russos, unilaterais e sem respaldo algum do direito internacional, posiciona o Brasil como, se não alinhado, ao menos complacente com a ação do governo de Vladmir Putin. Isso tem a ver com a armadilha em que Bolsonaro colocou a si próprio e ao país: ao viajar a Moscou na véspera do conflito, assumiu certo posicionamento frente à Rússia que agora cobra seu preço —afirmou.

 

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Segundo Casarões, esse cenário de hesitação reflete uma “profunda” disputa interna. Segundo ele, com declarações desencontradas do chanceler Carlos França, do ministro da Defesa Braga Netto, do vice-presidente Hamilton Mourão e do presidente Bolsonaro, ninguém sabe exatamente qual a posição oficial do Brasil nesse conflito.

 

Fonte: Portal O Globo

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