Diretora da Faculdade de Comunicação da UnB, Dione Moura, trabalhou na linha de frente para aprovação e defesa do sistema de cotas e ajudou a transformar a realidade dos jovens negros no país
A trajetória da professora Dione Moura é feita de pioneirismos. E nenhum deles ocorreu por acaso. Cada parte que sustenta a carreira na academia foi construída com a mesma resiliência e a determinação que ergueram a fábrica de farinha de seus pais e as paredes de palha de arroz com barro da casa onde morava com os irmãos.
Família negra, de raízes nordestinas que florescem até hoje, encontrou na educação o caminho para uma transformação que parecia impossível. É nessa origem que a Professora titular da Universidade de Brasília (UnB), recentemente reconduzida ao cargo de diretora da Faculdade de Comunicação (FAC), encontrou o suporte e a inspiração para lutar, durante duas décadas, pela política de cotas que se tornou realidade acessível a toda uma nação.
Dione concluiu a graduação em jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG), na sua terra natal, a capital goiana. Mas conta que a origem nordestina dos pais ainda é a referência mais presente. “Sou goiana, mas uma goiana muito nordestina, nesse sentido da cultura. O modo de pensar, os meus ditados populares, a minha religiosidade, meu modo de viver. E um jeito um bocado calmo de olhar as coisas também. O nordestino tem isso”, observa a diretora.
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A vinda para Brasília foi motivada também pelos estudos. Cursou na UnB a especialização em jornalismo político. Sob a orientação do professor Carlos Chagas, escreveu a monografia Cláudio Abramo: O profeta solitário. “Já eram os primeiros passos na pesquisa, me colocando no campo do jornalismo de temáticas sociais. No caso, Cláudio Abramo, Profeta Solitário, defendendo um jornalismo democrático em pleno período militar”, explica Dione.
No mestrado, um trabalho que marcou a história da produção acadêmica nacional. A dissertação A Construção da Memória e da Identidade em Filmes de Cineastas Negros Brasileiros foi a primeira sobre o tema na história das pesquisas em comunicação. “Meu trabalho é citado como a primeira dissertação sobre cinema feito por cineastas negros. Um trabalho que me colocou já no caminho que vai dobrar lá adiante, com as cotas.”

Outro dos projetos motivo de orgulho teve como foco jornalismo, ciência e meio ambiente. O objetivo era descobrir qual a maior contribuição da UnB para a população do Distrito Federal. “Naquela ocasião, nos anos 1990, eu identifiquei que a principal contribuição da UnB era para os estudos sobre o cerrado. E uma das personagens que identifiquei à época é a hoje presidenta da Capes, a professora Mercedes Bustamante”, relata Dione.
Um pouco antes do início do doutorado veio a aprovação no concurso para professora da UnB, em 1995. “E continuei pesquisando, sempre nessa temática de jornalismo e sociedade, jornalismo científico, jornalismo ambiental, jornalismo e identidade racial, jornalismo e gênero. Ou seja, sempre no campo da comunicação e para quê a comunicação existe, o que ela pode fazer.”

Com os organizadores da edição deste ano, na FAC, onde foi homenageada
(foto: Kayo Magalhaes/CB)
“Sempre discordei da ideia de que um jornalista não afeta a vida das pessoas. Eu sempre dizia que um jornalista afeta a vida de uma pessoa tanto quanto um médico pode afetar; tanto quanto um engenheiro que constrói um prédio, se ele vier a ter um problema estrutural, vai afetar”, reflete a docente, que participou da cobertura da Constituinte no fim da década de 1980 e tentou levar esse olhar problematizador às reportagens. “Eu sempre tive essa preocupação na minha atuação como jornalista, como professora de jornalismo, como pesquisadora de jornalismo: uma preocupação com os impactos da produção noticiosa.”
Ainda na infância, Dione fez uma grande descoberta. E foi o ensinamento do pai, o piauiense Diocleciano, e a perseverança da mãe, a baiana Mouranísia, que permitiram esse esclarecimento. “Minha mãe nasceu em 1929 e meu pai, em 1927. Eles nasceram uma década e meia depois da seca de 1915, em plena aridez, pico dessa estiagem. Então, eles trouxeram um pouco dessa sobrevivência e também da noção de que a educação era o caminho para sair disso”, relata a professora.
Eles próprios só fizeram o ensino básico, mas saíram da primeira série com uma ampla formação cultural e a caligrafia “majestosa”, conforme define a filha caçula. “Ambos tinham uma caligrafia muito bonita, uma fé na cultura e na educação como lugar de realização, como lugar de você crescer e ser alguém. E isso é algo que carreguei comigo”, garante.

Na formatura no Jardim de Infância de uma das filhas do meio, Seu Doca, pouco antes de morrer, comprou um presente especial: um anel de ouro cravejado com um pequeno rubi. “Faça essa conta: quanto valeu esse anel para ele? Nessa época, a nossa casa era numa rua sem asfalto, em chão batido, a parede não tinha pintura e era de palha de arroz com barro. Não tinha forro e o fogão era à lenha”, contextualiza Dione.
“Essa foi uma das últimas coisas que ele fez por nós, deixou essa memória: ‘Olha onde está a riqueza; a riqueza que eu vou deixar para você é um diploma’. Então, embora ele tenha ficado pouco tempo com a gente, construiu esse ideário da educação como o lugar onde estão os potes de ouro”, emociona-se a professora, que hoje é casada e tem cinco filhos e uma neta.
Dona Mourinha assumiu o negócio depois de viúva, contando com a ajuda de um tio de Dione, mas em seguida ele também faleceu. Restaram duas famílias órfãs de pai para as matriarcas sustentarem sozinhas. Dona Mourinha vendeu motor e peças da fábrica para garantir a comida dos filhos. Pegou o caderninho do marido e saldou todas as dívidas da empresa antes de fechá-la em definitivo. Juntou dinheiro para comprar uma máquina de costura, que garantiu o sustento da família por um bom tempo. “Vocês vão estudar, vocês vão estudar”, era o mantra que repetia a todo o tempo.

Há 20 anos, Dione foi coorganizadora do evento de criação da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), com a equipe que aparece na foto
(foto: Arquivo pessoal)
Não era esperado que os filhos de uma mulher negra viúva estudassem. Nem que virassem médico, engenheiro, professora, advogada e psicóloga, como aconteceu. “Goiânia era uma cidade culturalmente endurecida, preconceituosa mesmo”, observa Dione. O que esperava-se de uma mulher na situação de Dona Mourinha era que entregasse os filhos para outras famílias, o que significava que passariam a exercer tarefas domésticas ainda na infância e na adolescência. “A toda hora chegavam pessoas e a gente ouvia: ‘Posso pegar filha para cuidar?´’, conta Dione. “Era muito frequente, e eu via que ela reagia como uma leoa e falava: ‘Não! Meus filhos todos vão estudar’”. E as palavras de Mouranísia se escreveram. Ela morreu há cinco anos, depois de conseguir viver com saúde e fazer tantas das coisas que lhe davam prazer, das viagens à iôga.
Mais do que tornar-se alguém, Dione levou tão a sério o ensinamento e o exemplo dos pais que enfrentou como uma missão o desafio de alavancar outras pessoas como ela ao lugar que a sociedade dizia e repetia que não pertenciam. “Eu trabalho para que mais pessoas tenham a educação como um lugar de ser alguém. Isso envolve uma educação que eu procuro que seja inclusiva, no sentido de dar uma atenção especial para estudantes que estejam com alguma dificuldade: parar, conversar, perguntar, ver se está precisando de uma bolsa, indicar, propor um projeto de pesquisa”, elenca.
E, como caçula comprometida, Dione fez da própria carreira o caminho para cumprir a missão que o pai deixou: “Cada vez que eu vejo um estudante que eu formei na graduação, na pós, no mestrado, no doutorado ou na supervisão de pós-doutorado encontrando o seu pote de ouro e percebo que fiz parte disso, eu me sinto realizada”.

Dione, ao centro, com os pais, três irmãos e um amigo da família
(foto: Fotos: Arquivo pessoal)
Durante a carreira de professora, já participou de mais de 200 bancas de trabalhos de conclusão de curso (TCC) e tantas outras cerimônias de apresentação de mestrado e de doutorado. Há 20 anos, Dione foi coorganizadora do evento de criação da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), com a equipe pioneira. Este ano, o evento ocorreu na FAC e Dione foi homenageada.
"Consegui, conseguimos, eu, meus irmãos escaparmos da linha de força da histórica discriminação racial, fruto do processo escravagista colonial, prescrevia: nós deveríamos falhar, deveríamos perder, não deveríamos, nós crianças negras órfãs, dizia ‘o destino’, não devíamos termos acesso à educação, à saúde, ao trabalho, à vida digna - pauta fundamental se pensarmos na Declaração Universal dos Direitos Humanos", escreveu Dione em20 anos de SBPJor e 20 anos de cotas UnB: uma trajetória afrocentrada em defesa do jornalismo de qualidade e da inclusão, um dos textos que integra a coletânea Entre crises e (re)Construções: a pesquisa em jornalismo 20 anos depois, que celebra os 20 anos da SBPJor.
Hoje, ela e os quatro irmãos são formados e têm carreiras consolidadas. Mas essa não foi a realidade de vizinhos e colegas de escola. Nesse sentido, um momento da infância em especial marcou a vida da professora. Um grupo de estudantes da terceira série, que nem eram seus amigos próximos, juntaram todas as moedas que tinham e a presentearam com um compasso. “Eles falaram assim: ‘Porque você vai conseguir’. Eles entendiam que a rede que minha mãe criava ia fazer a diferença, e eles não tinham essas mesmas condições”, revela.

Fotos: Reprodução/Correio Braziliense
Cena que se uniu a tantas outras que fizeram parte do cotidiano da jovem goiana de coração nordestino. Na hora do recreio, um menino preto brincava e era observado de longe pela mãe solo, que carregava no olhar a melancolia de saber que ele nunca conseguiria chegar ao topo. “Ele não vai conseguir, porque a sociedade não vai deixar. Ele será perseguido, isolado”, pensava a professora, que à época tinha apenas 9 anos. “Quando eu chego para as cotas, esses colegas todos tinham se perdido, e eu sabia que eles tinham se perdido pelo racismo estrutural. Hoje, poderiam ser engenheiros, médicos, biólogos, cientistas, empreendedores, empresários”, elenca.
Os 10 anos seguintes à aprovação das cotas na UnB foram de muita luta e uma defesa contínua da proposta: em fóruns, no Senado, na Câmara, em debates. “Durante uma década, a gente tinha um plantão de 24 horas — jurídico, epistemológico, teórico, filosófico — defendendo a política de inclusão”, diz. E Dione era a melhor defensora possível, pois se sentia a prova viva da capacidade de meninas e de meninos negros da periferia.
O edital de acesso à universidade por meio do sistema de cotas, elaborado com dezenas de contribuições e revisões, não teve uma linha questionada durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). “Nós nos dedicamos a isso: a conseguir estruturar um edital com tal legitimidade e legalidade, com tal grau de constitucionalidade que se tornasse inquestionável.”
Fonte: com informações do Correio Braziliense
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