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Mulher na Política - 29/10/2023

Daniela Teixeira: "Minhas bandeiras serão as do Judiciário"

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Foto: Reprodução Google

A primeira brasiliense a ocupar uma cadeira no Superior Tribunal de Justiça pretende se engajar nas causas reformistas do CNJ, como paridade de gênero e desencarceramento. Ela critica o machismo que enfrentou na sabatina com senadores

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) vai receber em 22 de novembro a primeira ministra brasiliense. Nascida e com formação na capital do país, Daniela Teixeira, 51 anos, chega para ocupar a vaga aberta com a aposentadoria do ministro Félix Fischer, depois de ter o nome aprovado pelo Congresso Nacional na última quarta-feira, 25/10.

 

Não foi fácil, evidentemente, conquistar um cargo tão cobiçado. O momento mais difícil, segundo Daniela, foi a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. O nível de exigência para que Daniela demonstrasse notório saber jurídico foi bem diferente do cobrado dos desembargadores também indicados para outras vagas no STJ. “Foi uma realidade muito cruel, de machismo”, diz.

 

Daniela é a sexta integrante mulher de uma corte de 33 ministros. A última nomeação havia ocorrido há 10 anos, quando Regina Helena Costa foi indicada pela então presidente Dilma Rousseff. Com personalidade e opiniões definidas, Daniela, que sempre foi feminista, agora pretende vestir a toga em todos os sentidos. Só participará de campanhas abraçadas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e não fará manifestações fora dos autos.

 

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Mas quem a conhece sabe como a nova ministra deve se posicionar nos processos. Advogada criminalista, ela é garantista, defende os direitos individuais e é contrária ao encarceramento. Integrante do grupo Prerrogativas, terá um olhar severo sobre operações policiais escandalosas e focadas nos holofotes.

 

Na corte, a magistrada herdará 13 mil processos. Vai integrar a 5ª Turma, da área criminal. E pretende seguir suas convicções, dentro dos limites da magistratura. “Todos sabem quem é Daniela Teixeira”, diz. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Correio.

 

Qual será o olhar de uma ex-advogada na magistratura?

 

 

Acho isso muito importante. Nosso constituinte poderia ter dito que os ministros dos tribunais superiores seriam todos concursados, juízes de carreira. Vários países fazem essa opção. A nossa Constituição, não. Ela quis que um pedaço do tribunal viesse da advocacia. Eu fui advogada há 27 anos, não fiz concurso, não estudei para ser juíza e eu vou começar como ministra do tribunal. Algumas pessoas estranham, mas é exatamente o que quis o nosso constituinte: que houvesse, no tribunal, ministros com esse olhar de advocacia. Isso quer dizer que eu vou ter lado na demanda? Claro que não. Até porque normalmente a demanda tem dois advogados, um de cada lado. O que o constituinte quis é que eu levasse um olhar da parte.

 

Por que isso é importante?

 

Durante os últimos 27 anos, eu ouvi o que o cidadão pensa da justiça brasileira, como autor ou como réu. As suas dores, suas angústias. O tempo, para quem está preso injustamente, é muito diferente do tempo do juiz. Uma coisa é um juiz falar em periculum in mora (perigo na demora, em latim). Outra coisa é um advogado explicar para uma mãe qual é o perigo da demora daquela decisão que, se levar uma semana, pode ser a vida do filho dela. Pode ser a empresa que vai fechar. Pode ser o emprego daquela pessoa. Então, o constituinte quis que a advocacia estivesse lá, não para defender um lado ou outro, mas para defender o cidadão.

 

Do ponto de vista do cidadão, quais são as demandas mais urgentes no STJ?

 

 

A maior reclamação é o tempo. Quando o processo chega ao STJ, ele tem uma média de 10 anos. Imagine você procurar um advogado e ele fala: o seu processo vai durar entre 10 e 14 anos. Isso precisa diminuir urgentemente. Justiça tardia não é justiça. Isso já é dito há 100 anos, e a cada ano tem ficado mais urgente tomar uma decisão, que é diminuir a carga de processos, o número de recursos.

 

A senhora também leva para o STJ o olhar feminino. Como será isso?

 

Há uma frase da qual gosto muito: nada sobre as mulheres sem as mulheres. Se não tem mulher falando, não tem que se falar sobre mulher. É muito importante que a gente esteja no tribunal. Metade do Brasil é de mulher, não é razoável ter tribunais inteiros de Justiça, como acontece em alguns estados, sem nenhuma mulher. É preciso que a mulher esteja no Poder Judiciário, porque o Judiciário dita normas de conduta, normas de moral. O Legislativo tem uma lei muito seca: melhor interesse da criança, diz a lei. Quem vai dizer o que é o melhor interesse da criança é o juiz. E se não temos juízas julgando processos de família, vai ser sempre um olhar do homem, do pai, de quem não é mulher.

 

A senhora também leva para o STJ o olhar feminino. Como será isso?

 

 

Há uma frase da qual gosto muito: nada sobre as mulheres sem as mulheres. Se não tem mulher falando, não tem que se falar sobre mulher. É muito importante que a gente esteja no tribunal. Metade do Brasil é de mulher, não é razoável ter tribunais inteiros de Justiça, como acontece em alguns estados, sem nenhuma mulher. É preciso que a mulher esteja no Poder Judiciário, porque o Judiciário dita normas de conduta, normas de moral. O Legislativo tem uma lei muito seca: melhor interesse da criança, diz a lei. Quem vai dizer o que é o melhor interesse da criança é o juiz. E se não temos juízas julgando processos de família, vai ser sempre um olhar do homem, do pai, de quem não é mulher.

 

Como a senhora vê o feminicídio? É uma questão da legislação, ou é preciso mudar a sociedade? Onde está a saída?

 

Fotos: Reprodução Google

 

Isso eu também posso falar, porque é uma campanha do CNJ. Os níveis de feminicídio estão envergonhando o Brasil. É algo que precisa de uma solução de todos: Executivo, Legislativo, Judiciário, escola, imprensa. O Correio Braziliense faz um papel fantástico na questão do feminicídio, de ouvir especialistas, de divulgar o que deve ser divulgado, que é especialmente o que acontece com aquela família. Depois, para que aquele homem que está pensando em fazer isso, ele tem um momento de lucidez, de saber a desgraça que vem em seguida.

 

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Qual é a relação entre prisão e racismo?

 

Um jovem branco numa festa no Lago Sul, portando 50 gramas de alguma substância entorpecente, não tem no Judiciário o tratamento que um jovem negro da periferia tem portando 50 gramas de maconha, que é a mais leve das drogas. Cientificamente, os dois encontram caminhos muito diferentes no Judiciário. Um como porte, outro como tráfico. Um vai preso, o outro não é nem admoestado na delegacia. Isso realmente precisa ser encarado pelo conjunto da sociedade. Eu recomendo a todos, antes de me xingarem nos comentários, que visitem um estabelecimento prisional.

 

Fonte: com informações do Portal Correio Braziliense 

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