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Saúde - 24/07/2022

Crianças que passam fome na Amazônia têm quase 80% mais chances de terem Covid-19, revela estudo

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Foto: Reprodução

É justamente nas casas mais pobres onde a pandemia causa o maior estrago. Além de doenças endêmicas da região amazônica, como malária e febre amarela, filhos criados por famílias mais pobres estão mais expostos ao risco de desenvolver quadros clínicos da Covid-19 do que aqueles criados em domicílios onde as condições econômicas são um pouco melhores. É o que aponta um estudo publicado nesta semana, por pesquisadores brasileiros, na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases: Segundo o texto, crianças que sofrem com a insegurança alimentar têm 76% mais possiblidades de terem a doença desencadeada pelo coronavírus.

 

Para determinar os dados relativos ao Sars-Cov-2, vírus causador da Covid-19, os pesquisadores selecionaram mais de 600 crianças integrantes de uma pesquisa ainda maior, em curso há sete anos, sobre a saúde de recém-nascidos no Estado do Acre. Parte delas, acompanhada desde a gestação.

 

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Vulnerabilidade

 

A pesquisa foi conduzida no município de Cruzeiro do Sul, no interior acreano, com um total de 1.246 crianças participantes. Mais da metade delas – todas com cinco anos de idade – passou por acompanhamento ao longo de 2021; época em que a vacinação para essa faixa etária ainda não estava disponível.

 

Com o objetivo de entender como a doença afeta o grupo, os cientistas submeteram as crianças a testes sorológicos para detectar a produção de anticorpos contra o Sars-Cov-2 no organismo delas. Além da testagem, mães e cuidadores também foram entrevistados. A conclusão foi que faltou comida, alguma vez, em pelo menos 54% dos domicílios.

 

Entre aquelas famílias que passaram fome, quase 10% relataram que os filhos tiveram sintomas da doença, enquanto que nas casas onde a insegurança alimentar não ocorre, os sintomas apareceram em menos de 5% dos casos. Daí, o risco muito mais elevado de desenvolver a Covid-19 para crianças criadas por famílias mais pobres na região Amazônica.

 

Faltou comida em 54% dos domicílios acompanhados pela pesquisa

 

Retrato da pobreza

 

Em entrevista à REVISTA CENARIUM, a coordenadora do estudo, professora de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP, ligada à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Marly Augusto Cardoso, conta como os problemas de saúde são agravados pela pobreza chamaram a atenção dos autores da pesquisa.

 

“As famílias mais pobres, expostas à insegurança alimentar no domicílio, tiveram uma chance maior de ter a doença. A gente também observa isso para outras infecções, como malária, que é endêmica nessa região do estudo, dengue, infecções intestinais e respiratórias. Seja por vírus, bactérias ou parasitas. São infecções da pobreza e que se expressaram ainda mais, diante da pandemia”, explicou a especialista.

 

O estudo verificou ainda que, quanto pior a condição de moradia e menor a escolaridade dos pais, maior a vulnerabilidade. Questões sociais ligadas à etnia e cor da pele também influenciaram, especialmente no caso de mães indígenas e negras em comparação às famílias brancas.

 

Para o ano de 2030, explica Cardoso, uma das metas da ONU é a fome zero. “Um objetivo que está cada vez mais distante de ser alcançado (…) é gritante essa situação. Já era assim antes da pandemia e, agora, agravou-se ainda mais. É necessário enfrentamento com ações e políticas com continuidade, abrangência e que sejam efetivas no combate à pobreza e à fome”, acrescenta a pesquisadora e coordenadora do estudo.

 

A coordenadora do estudo diz que o retrato sobre a pobreza

chamou a atenção dos pesquisadores

 

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Renda não garante imunidade

 

Ao longo prazo, o reflexo da Covid-19 em crianças ainda é incerto, principalmente entre aquelas que estão mal alimentadas. No entanto, a pesquisadora pondera: “Não significa que as crianças cujas famílias que tenham melhor condição econômica ou de nutrição não sejam vulneráveis à infecção ou mesmo à manifestação clínica da doença, por isso a vacinação é uma medida importante e segura para a promoção da saúde, tanto das crianças quanto dos familiares e professores, de quem convive com essas crianças pequenas, que vão continuar, se não vacinadas, transmitindo o vírus”.

 

Fonte: Revista Cenarium

 

 

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