Apesar dos discursos grandiosos, quase metade da população paraense ainda vive sem acesso adequado à água potável
Belém, capital do Pará e sede da COP30, é hoje símbolo de um paradoxo inquietante: enquanto debate-se a descarbonização global e a justiça climática, a própria população carece de acesso a serviços básicos de água potável e saneamento. Essa contradição acende um alerta: não há floresta em pé se quem vive ao redor não tem dignidade sanitária.
O cenário alarmante do saneamento no Pará
Água tratada
Apesar dos discursos grandiosos, quase metade da população paraense ainda vive sem acesso adequado à água potável — em Santarém (entre as 100 maiores cidades), apenas 48,49% das pessoas têm esse privilégio.
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Coleta e tratamento de esgoto
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O quadro é ainda mais crítico: apenas 3,77% do esgoto é coletado em Santarém e, entre esse volume, apenas 8,61% recebe algum tipo de tratamento antes de ser devolvido ao meio ambiente. Na capital Belém, o panorama não é menos grave: apenas cerca de 19,3% da população tem acesso à coleta de esgoto — muito abaixo da média nacional, que é de 59,7%.
Perdas de água distribuída
Em Santarém, impressionantes 48,72% da água tratada se perdem antes mesmo de atingir as casas — um desperdício colossal de recursos escassos.
Monitoramento precário e desigualdades persistentes

O estado figura com índices sanitários entre os piores do país. Em 2022, apenas 28% dos domicílios urbanos tinham conexão à rede de esgoto — enquanto a média nacional era de 78%. Além disso, Belém e Santarém estão entre as cidades com os piores rankings de saneamento do Brasil.
Infraestrutura cosmética x realidade sanitária
A COP30 trouxe investimentos declarados, mas o alcance prático é modesto. Obras de drenagem pluvial e urbanização têm sido bem divulgadas — mas projetos realmente focados em coleta e tratamento de esgoto ainda atendem apenas cerca de 3% da população. A proposta é chegar a 90% de cobertura até 2033, mas isso exige ampliar os serviços em um ritmo três vezes maior do que o atual. Hoje, apenas 10 mil novas ligações foram realizadas — um número simbólico diante da magnitude do desafio.
Impacto social e econômico da falta de saneamento
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Fotos: Reprodução/Google
Um estudo do Instituto Trata Brasil aponta que quase 4 milhões de pessoas no Pará não têm acesso à água potável, e mais de 7 milhões vivem sem coleta de esgoto. Se investido de forma adequada, o estado poderia economizar cerca de R$ 1,5 bilhão em saúde pública entre 2023 e 2040, o que representa ganhos de cerca de R$ 81,5 milhões por ano. Falar de “justiça climática” no contexto da Amazônia é fundamental — mas o Pará mostra que essa justiça precisa começar em casa.
Infraestrutura sanitária é tão urgente quantodescarbonização, e negligenciá-la é uma injustiça que atinge diretamente o bem-viver das populações locais. Sem saneamento efetivo, qualquer discurso sobre preservar a floresta ou compensar carbono soa vazio. Enquanto a COP30 ocupa o centro do palco global, o verdadeiro palco ignorado continua sendo as comunidades que clamam por dignidade sanitária.
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