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Meio Ambiente - 25/10/2025

COP 30: Sementes são a chave para restaurar a Floresta Amazônica e a Inteligência Artificial pode acelerar o processo

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Foto: Reprodução/Google

O objetivo é prevenir, interromper e reverter a degradação dos ecossistemas em todo o planeta. No entanto, os primeiros cinco anos dessa campanha mostraram-se críticos em biomas como a Amazônia.

Às vésperas da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), o ano de 2025 marca a metade da Década da Restauração de Ecossistemas, estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) entre 2021 e 2030. O objetivo é prevenir, interromper e reverter a degradação dos ecossistemas em todo o planeta. No entanto, os primeiros cinco anos dessa campanha mostraram-se críticos em biomas como a Amazônia.

 

A redução da fiscalização e das ações de combate ao desmatamento ilegal no início da década, somada aos efeitos severos do El Niño e das secas extremas de 2023 e 2024, agravou a degradação ambiental e tornou a restauração da floresta ainda mais desafiadora. “Não temos tempo a perder, precisamos restaurar da forma mais rápida e assertiva possível. Por isso, temos que usar a tecnologia a nosso favor”, afirma Lydiane Bastos, engenheira florestal e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), sediado em Manaus.

 

Somente em setembro do ano passado, a degradação florestal na Amazônia chegou a mais de 20 mil km², o equivalente a mais de 13 vezes a área da cidade de São Paulo, segundo dados do Imazon, que monitora o desmatamento por meio de imagens de satélite. Com uma área extensa a ser restaurada, é essencial definir prioridades e compreender as especificidades de cada ecossistema. O aumento dos incêndios florestais exige políticas públicas mais ágeis e precisas. “A gente planta num ano, no outro já está tudo perdido. Uma floresta que era úmida hoje se tornou seca por conta de tantos focos de incêndios acontecendo ao mesmo tempo”, lamenta Lydiane.

 

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A pesquisadora coordena um projeto que alia ciência e tecnologia na busca por soluções. Sua pesquisa utiliza inteligência artificial para identificar as sementes mais viáveis entre espécies florestais nativas da Amazônia. Financiado pelo Instituto Serrapilheira e pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), o trabalho envolve a coleta e análise de sementes de 200 espécies distribuídas por diferentes ecossistemas do Baixo Tapajós, no Pará.

 

As imagens das sementes são obtidas por meio de raios-X e scanners e comparadas com testes de germinação realizados no Laboratório de Sementes Florestais da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), o único da região Norte certificado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Esses protocolos geram laudos de qualidade essenciais para o comércio e o uso em programas de reflorestamento, mas o processo é demorado. “Dependendo da espécie, as sementes podem levar semanas, meses ou até anos para germinar. Assim, quando a gente descobre se aquele lote estava viável ou não, ele já está inutilizado para o comércio”, explica Lydiane.

 

 

 

A aplicação da inteligência artificial permite também identificar variedades de uma mesma espécie mais adaptadas a diferentes condições ambientais, facilitando o plantio e a coleta de matrizes mais produtivas e resistentes. A tecnologia ainda auxilia na identificação morfológica de espécies, tarefa antes restrita a análises de DNA. “Esse é o mundo mágico da inteligência artificial que a gente pode trazer às espécies florestais, para diferenciar, otimizar recursos e ações de coleta e de plantio”, afirma Lydiane.

 

Esperança guardada nas sementes

 

 

 
O trabalho começa na floresta, com a ajuda de coletores locais. A engenheira florestal Jéssica Reis, coordenadora do polo de referência do bosque de pesquisas da Embrapa de Belterra, atua ao lado de Lydiane na coleta. Ela destaca que a meta do Pará de restaurar 5,6 milhões de hectares até 2030 depende de tecnologia e engajamento comunitário.

 

“Para nós que trabalhamos com restauração, é uma esperança ver nossas florestas sendo recompostas, replantadas. Essa esperança está guardada dentro das sementes”, diz Jéssica. Durante as secas históricas de 2023 e 2024, incêndios e fumaça densa afetaram ciclos reprodutivos e atrasaram a frutificação de espécies como a andiroba. “Foi um cenário de filme de terror! Tinha muita fumaça, não dava para enxergar o horizonte”, recorda.

 

Ela acredita que a IA pode ajudar a selecionar árvores matrizes mais saudáveis, tornando o replantio mais eficiente e econômico. Dados do MapBiomas mostram que, entre 2014 e 2024, os municípios de Santarém e Belterra perderam 236 mil hectares em queimadas e 89 mil hectares por desmatamento.

 

Ciência, tecnologia e saberes da floresta

 

 

O trabalho de campo é desafiador. Na Floresta Nacional do Tapajós, coletores como José Viana percorrem longas trilhas sem trilhas definidas, enfrentando calor, insetos e o peso das sacas de sementes. “Vai reduzir as distâncias e o tempo de trabalho do coletor. A gente vai conseguir descobrir quais matrizes dão mais sementes viáveis”, explica Lydiane.

 

Debaixo das copas das árvores, a pesquisadora sonha alto: “Quero criar um aplicativo para que, no celular, o coletor tire uma foto da semente e já saiba qual é o percentual de germinação dela”. José, que nasceu e cresceu na floresta, reforça a importância de valorizar quem vive e trabalha no território. “Eu não tenho nem inveja, nem vontade de ir morar na cidade. Aqui eu me sinto livre. A floresta é minha segunda casa”, conta. O projeto de Lydiane conta com apoio de várias instituições da Amazônia. Parte das análises é feita na Ufopa, em Santarém, onde as sementes são armazenadas e avaliadas segundo protocolos oficiais. O laboratório, criado na década de 1970, levou mais de dez anos para ser credenciado.

 

 

 

As amostras também são analisadas no Centro de Sementes Nativas do Amazonas (CSNAM), em Manaus, que possui o único raio-X da região Norte dedicado a esse tipo de trabalho, além de um scanner de alta resolução. Outro equipamento semelhante está instalado no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. “A Lydiane também trabalha no mesmo ramo. Nós temos o mesmo equipamento e percebemos que tínhamos muitas semelhanças. Por isso, resolvemos trocar experiências e conhecimentos sobre tecnologia de sementes nativas da Amazônia”, explica a pesquisadora Olivia Ribeiro, do Museu Goeldi.

 

Do agronegócio à floresta: um salto tecnológico

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Lydiane explica que sua proposta é aproximar a ciência florestal da realidade tecnológica que o agronegócio já adota há décadas. “Desde os anos 60, o raio-X é usado para avaliar sementes de soja. As florestas, porém, sempre foram vistas como secundárias na aplicação dessa tecnologia”, ressalta. O professor Túlio Silva, da Ufopa, integrante da pesquisa, afirma que a tecnologia pode ir além da avaliação das sementes. Ela pode revelar os impactos de agrotóxicos sobre o crescimento inicial das plantas em regiões de fronteira agrícola, como Santarém e Belterra, onde áreas de floresta são cercadas por plantações e pastagens.

 

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“Será que esse defensivo pode também prejudicar o crescimento inicial de um vegetal numa área próxima?”, questiona o pesquisador. A investigação é apenas uma amostra do potencial da inteligência artificial na restauração florestal. Com mais pesquisas, será possível compreender melhor os impactos humanos sobre os ecossistemas amazônicos e tornar o processo de reflorestamento mais eficiente, científico e resiliente.
 

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