06 de Maio de 2026

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Inspiração Amazônica - 19/08/2024

Conheça as tradições populares de uso de plantas medicinais na Amazônia

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Foto: Reprodução/Google

Os modos de vida configurados a partir da colonização desenvolveram saberes que não apenas mantêm nexos com seu passado histórico apropriado

As tradições de uso de plantas medicinais na Amazônia guardam elementos de várias culturas. Porém, o fruto desta trama não é um simples mosaico que incorporou um pouco de cada coisa, mas uma radical transformação dos elementos de permanência, que são descontextualizados, classificados, normalizados, rearticulados entre si e devolvidos ao uso social em um novo contexto. Nesse caso, este processo caracteriza a construção de uma tradição de uso inventada a partir de conhecimentos e saberes oriundos de diferentes culturas.

 

Os modos de vida configurados a partir da colonização desenvolveram saberes que não apenas mantêm nexos com seu passado histórico apropriado, como incluem as práticas ancestrais entre seus principais elementos. As diferentes formas de contato intertribal e interétnico, além de vivências distintas quanto à aculturação, deram origem a um sincretismo cultural, que, no entanto, não pasteurizou os métodos de cura. Quando os grupos inventam ou reinventam uma tradição, estão estabelecendo uma relação concreta de continuidade em relação a algum dado concreto de seu cotidiano.

 

Assim, observamos que as tradições de cura desenvolvidas pelos povos do rio Negro ? tanto o conhecimento sobre o uso de plantas, quanto o xamanismo ? permanecem como um forte ponto de contato com as culturas ancestrais. As permanências estão ligadas aos saberes nativos. Nelas serão encontradas as referências aos processos de ritualização e formalização destas práticas terapêuticas, permitindo verificar, por exemplo, se plantas originárias da Europa ganharam outros usos a partir da vivência e da experiência do povo rio-negrino. As pessoas que vivem nesta região têm grande proximidade com a colonização portuguesa, como o sr. Aquidabã de Oliveira, já citado.

 

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Seu pai, nascido ali mesmo e filho de português, foi educado em Portugal, por volta de 1915, tendo voltado, 14 anos depois, para trabalhar no corte da borracha, vindo a se casar com uma mulher nascida na região. O entrevistado afirma que seu conhecimento sobre plantas medicinais foi adquirido através dos pais: "Meu pai e minha mãe me ensinaram. Eles aplicavam este remédio pra gente e há muito tempo que usavam. Os avós, os bisavós usavam. E agora nós estamos aplicando este sistema. Muitos usam o remédio da Sucam; muitos usam o remédio da gente também, porque estão distante. Não têm como ir à cidade, usam aqui mesmo" (entrevista realizada na localidade de Camanaus, vale do rio Negro, em 16.8.1995.

 

Filho de descendentes de portugueses e de indígenas, ele absorveu diversos elementos de ambas as culturas, gerando um conhecimento formado com bases na medicina popular européia e nas culturas autóctones. Esta conjugação ? que pode ter inaugurado alguma estratégia ou ritualização, no contexto de construção de uma tradição inventada ? estabelece fortes vínculos com o processo histórico transcorrido, apropriando-se, exatamente, da historicidade dos elementos transformados.

 

Assimilados de modo empírico a partir das necessidades impostas pela realidade cotidiana, os saberes constitutivos das tradições populares de uso de plantas medicinais incorporam novos métodos de uso de plantas e novos objetivos para estes usos, desenvolvidos pelos habitantes do rio Negro. Alguns matizes distintivos das diversas tradições originais prevalecem em determinadas práticas, revelando respostas coletivas elaboradas no movimento de miscigenação de etnias e de culturas característico da região. Nesse sentido, a forte influência do xamanismo pode ser percebida na própria história de vida de algumas pessoas, ainda que nem sempre seja explicitada nas receitas.8

 

O sr. Nilson Nogueira da Silva, morador de Massarabi, relatando a epopéia de sua família, aponta o contato com a civilização como fator de diferenciação entre o povo Baré, do qual descende, e os Yanomâmi, com quem sua gente travou contato em Maturacá. Mas destaca a pajelança como um elemento identitário do modo de vida dos baré, nesse período:

 

 

 

O meu bisavô... eram moradores daqui... Mas acontece que tinham uns parentes no Maturacá. Aí foram para lá. A origem deles é o Baré, tribo Baré. Então, decidiram ir para lá. Anos e anos, mais ou menos vinte e tantos anos. E tinha lá no meio deles um homem que era filho da serra. Então, ele fazia toda a pajelança. Eles sabiam o que ia acontecer no futuro, o passado ele descobria. Era o Deus deles, lá de Maturacá. Aí, com vinte anos de residência, foi aparecer esses Yanomâmi. Esses Yanomâmi não tinham contato com gente civilizada.

 

Vinham-se chegando até que, uma vez, no tempo da extração da balata, um produto que nós temos aqui dentro do Cauburi... Aí, muita gente foi para essa safra de balata. Então eles foram atacados pelos Yanomâmi. Desde lá, então, esses moradores lá do Alto Maturacá, do Cauburi, ficaram com medo. Aí vieram se chegando para cá, para o rio Negro, novamente. Então eles vivem por aqui, por essas ilhas, até saírem os índios todos de lá (entrevista realizada na comunidade de Massarabi, vale do rio Negro, em 19.8.1995).

 

Vale ressaltar que a família do sr. Nilson mudou-se para o médio rio Negro, engajando-se nas atividades do mercado extrativista local. Eles foram viver no seringal Massarabi, então uma propriedade cadastrada por João Binga, onde viviam com cerca de sessenta famílias. O relato indica que, com o passar do tempo, inumeráveis hábitos e técnicas, antes desconhecidos, foram incorporados ao arsenal deste grupo Baré, refundado, agora, em outras bases. Todavia, o uso de plantas medicinais permanece como um hábito tradicional: "O medicamento que se usa aqui é o remédio caseiro. É folha de goiaba cozinhada, faz-se o chá para cortar a diarréia. Se é uma diarréia prolongada, tira-se a casca do miri, que se chama, aí, faz-se o chá daquilo. Faz-se uma lavagem, e isso aí corta. Totalmente" (entrevista realizada na comunidade de Massarabi, vale do rio Negro, em

19. 8.1995.

 

Este universo, classificado pela enfermeira Janete como supersticioso, é, todavia, característico da cultura popular rio-negrina, exercendo poder incontestável sobre as formas adaptativas ao modo de vida da região. Tanto que passa a interferir fortemente, inclusive, no conjunto de crenças e de ações de pessoas estranhas a esta cultura, como o padre Carlos Zuchetti, missionário italiano responsável pela Missão Salesiana em Santa Isabel. Indagado se acreditava que os rezadores e curandeiros curavam mesmo algumas doenças, respondeu:

 

 

 

Eu acredito que alguma coisa eles sabem fazer. Acredito que eles tenham incidência naquela área psicossomática, onde os nossos médicos dizem que boa parte das nossas doenças são psicossomáticas, são somatizações. Então, eles podem agir nessa área, com possibilidade de alcançar resultados positivos. Eu mesmo vou lá com os pajés Yanomâmis, quando estou nervoso, estou com problemas de tensão psicológica, eu recorro a esses pajés e me beneficio, me dá frutos positivos (entrevista realizada na cidade de Santa Isabel, vale do rio Negro, 21.8.1995).

 

Este testemunho é exemplar para ilustrar o amplo campo de trocas culturais abrangido pela pesquisa. No vale do rio Negro, não apenas a população nativa incorpora os hábitos e costumes das sociedades ocidentais introduzidos pelos colonizadores, também o homem branco, civilizado, educado, absorve saberes e práticas locais. E as novas tradições de uso de plantas medicinais emergem, justamente, neste contexto.

 

Nos vales dos rios Acre e Purus, os migrantes nordestinos, recém-chegados à floresta tropical úmida, deixavam para trás todo um patrimônio cultural desenvolvido para assimilar o modo de vida e de produção no ambiente que abandonavam. Buscavam, então, adaptar seus conhecimentos e tradições à realidade que encontravam. Suas datas festivas, suas músicas, seu sotaque, sua comida, tudo isso foi transplantado durante um século de movimentação. O sr. Manoel da Silva, mesmo tendo deixado Juazeiro do Norte, sua terra natal, trinta anos atrás, ainda cultiva as tradições e ensinamentos do Padre Cícero aprendidas na infância:

 

 

 

Só que a gente cearense se rege mais pelo conselho e ensinamento do Padre Cícero de Juazeiro. Realmente, a gente não pode, ele ensinava que ninguém pode comer carne dia de sexta-feira. ... Olha, eu me rejo muito pelos conselhos de Padre Cícero, porque uma... porque minha avó contava e vivia ali, sempre encostada dele, minha avó, meu avô, aqueles beatos, aquele pessoal que vivia ali juntinho dele (entrevista realizada na cidade de Boca do Acre, foz do rio Acre, em 30.1.1997).9

 

Assim como os nordestinos, aqueles que vieram de outras regiões também trouxeram seu quinhão de elementos culturais. E, junto com as poucas coisas e as muitas lembranças de todos, vieram também algumas plantas, utilizadas na confecção de receitas que ajudavam a sobreviver no antigo hábitat. D. Áurea conta que sua nora trouxe consigo, quando partiu de Mato Grosso, uma muda de macaé: "serve pra negócio de disenteria, problema nos intestinos. A pessoa tá com dor de barriga, elas fazem, pisa e tira aquele sumo. Senão, pega, faz o chá e dá" (entrevista realizada na colônia agrícola Felicidade, vale do rio Acre, em 21.1.1997).

 

Mas, como foi dito antes, uma das principais características destas tradições de uso de plantas medicinais estudadas na Amazônia é a sua assimilabilidade, que as habilita a enfrentar os novos desafios que surgem constantemente. E esta marca, da integração pela transformação, que imprime usos até então desconhecidos para plantas, muitas vezes também desconhecidas, aparece na configuração de novos saberes quando espécies botânicas são descontextualizadas e devolvidas ao uso social em receitas inventadas a partir da miscigenação de conhecimentos, práticas e técnicas oriundos de diferentes culturas. Premidas pela necessidade, sentindo falta de alguma planta em particular, as pessoas procuram fazer adaptações na receita, mediante o conselho de alguma vizinha ou conhecido. D. Francisca Rodrigues Venâncio, nascida no seringal Cassadoá, conta sua experiência:

 

O menino estava com asma. Eu não tinha o que fazer. Aí eu peguei mel de abelha, peguei copaíba, azeite doce e espremi uma banda de limão dentro, batido, bem batido. Aí fui dando aquelas dosesinhas, de pouquinho, de pouquinho. De lá pra cá, agora eu sempre dou e fica bom com essa mistura assim.Porque toda a vida a copaíba é um remédio muito bom para gripe. Minha avó me ensinava muito. Copaíba era antiinflamatório. Aí eu botei a copaíba. Eu fiz, duas colheres de mel de abelha, uma colher de azeite doce, botei dez gotas de copaíba. Aí espremi uma banda de limão dentro e aí bati bem batido. Eu fui dando de vez em quando um pouquinho, e graças a Deus deu certo. Às vezes a gente tem caso, tem hora que Deus que dá, ensina a gente fazer essas coisas. Você está tão perdido que inventa o que for para ver se consegue salvar aquela pessoa (entrevista realizada na cidade de Pauhini, vale do rio Purus, em 6.2.1997).

 

 

 

Um depoimento repleto de símbolos e aspectos que demarcam a tradição de uso local. Destaca-se, aqui, um sentimento de conformidade com o destino, um fatalismo que impregna principalmente as classes populares, contribuindo para a imobilidade social dominante. Estas pessoas permanecem entregues a um modo de produção arcaico e violento, abandonadas pelos poderes públicos e sujeitas à própria sorte, ou melhor, à sua capacidade adaptativa, e confiando em Deus. Deus faz dar certo; Deus ensina a fazer: "Você está tão perdido que inventa o que for para ver se consegue salvar aquela pessoa." A morte já não amedronta, ela é uma vizinha constante. E na miséria em que vivem estas pessoas, "trabalham da mão para a boca, tal é a sua penúria" (Ribeiro, 1995a, p. 338), a solidariedade é um traço distintivo.

 

Desponta do relato, ainda, o modo como se dá a transmissão destes saberes: a oralidade é a via privilegiada, assim como a observação. No caso de d. Francisca, sua avó, paraense, "ensinava muito" a ela, fato que transparece, também, nos próprios elementos da receita ? "mel de abelha, peguei copaíba, azeite doce e espremi uma banda de limão dentro" ?, todos bem conhecidos na região. D. Maria de Nazaré, moradora de Boca do Tapauá, também deve seu aprendizado à avó paterna, uma cearense que migrara com o marido e os filhos, e à mãe, paraense. As constantes referências à transmissão matrilinear dos conhecimentos referentes às plantas medicinais sugere que esta prática representa um elo da apropriação histórica ocorrida no transcurso da construção de uma nova tradição.

 

Deve-se perceber que o dado novo, que suscitou a invenção da receita, foi a "asma" ? ou o tipo de sintoma apresentado pelo menino ? e o ponto alto do processo foi a inclusão do óleo de copaíba na fórmula, descrito de modo recorrente, em todos os rios, como um poderoso antiinflamatório. Esta é a chave para a compreensão da presença da copaíba em receitas para combater diferentes enfermidades, tais como: dor de garganta, febre, gripe, feridas. No caso de pneumonia, doença muito freqüente, d. Maria da Silva Oliveira recomenda: "a gotinha da copaíba misturada com o leite e a presa do queixada.10 Você faz o chá e toma... Queima a presa até ficar vermelhinha, depois a gente pisa, faz o chá e toma. Toma três dias seguidos... três vezes ao dia" (entrevista realizada na cidade de Pauhini, vale do rio Purus, em 6.2.1997).

 

Inventar uma receita porque "não tinha o que fazer", isto é, porque nada mais poderia ser feito a não ser um remédio caseiro, é uma ação usual e arraigada nas práticas curativas cotidianas desta população. Talvez represente um elemento de permanência tão forte quanto o xamanismo no rio Negro, tendo se exacerbado durante o período áureo de exploração mercantil do látex, ao sabor das inúmeras levas de forasteiros introduzidas em territórios indígenas. O relato de d. Maria de Nazaré Souza Araújo pode apontar outras reflexões:

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Eu já fiz vários remédios da minha cabeça. A Marlene, quando veio doente para cá, todos diziam que era fraqueza nos pulmões. Eu apliquei uma injeção, mas nada resolveu. Aí eu fiz o chá da mangarataia e dei. Também fui na roça e trouxe o mastruz, quem me ensinou foi a mamãe; trouxe o jambu, esse é do tempo da vovó, mais a jalapa e o alho planta. Cortei o alho bem miudinho e coloquei tudo para ferver. Fiquei imaginando se eu colocasse um limão... A folha do limão seria bom também. Aí eu me lembrei que o malvarisco devia ser bom também. Fiz uma mistura. Eu fiz um vidrinho cheio, dei três vezes por dia, ela melhorou, está até grávida.

 

Outra vez, foi assim: minha avó me ensinava que o chá da cidreira era bom para alguma comida que fazia mal, para certos tipos de gastura. Mas, num tempo, lá no rio Tapauá, o Manuel do barzinho ficou com o bucho inchado e eu dei o chá de cidreira com sal. Mas não melhorou. Eu fiquei imaginando... quem sabe se eu lhe desse uma lavagem do chá da cidreira. Eu peguei uma seringa, cortei ela, coloquei o leite de magnésia, fiz o chá e apliquei no ânus. O que era para o intestino, eu fiz lavagem (entrevista realizada em Boca do Tapauá, vale do rio Purus, em 17.2.1997).

 

D. Maria de Nazaré misturou ensinamentos de sua avó e de sua mãe para fazer frente a um conjunto de sintomas que não reagira à medicação industrial. Plantas como a mangarataia, o malvarisco e o limão são recorrentes contra gripes e doenças respiratórias nestas regiões. Também o mastruz, lembrança da receita materna e muitas vezes indicado no tratamento de verminoses, é conhecido por sua eficácia nos problemas pulmonares. Assim, a invenção desta receita não se deu pela descontextualização, porque esta já ocorrera em um momento histórico anterior, quando todos ou alguns destes elementos foram incorporados aos saberes locais. Mas ela acontece pela rearticulação de valores socialmente reconhecidos e atribuídos às plantas, os quais são pinçados um a um conforme o objetivo a que se destine a formulação.

 

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A posologia desses novos medicamentos revela indícios dos riscos apresentados no uso das novas receitas. D. Francisca, que usou aquela composição com copaíba para curar a crise de asma do menino, optou por aplicá-la com cuidado, "fui dando aquelas dosesinhas, de pouquinho, de pouquinho". Provavelmente, este comportamento se deu, por um lado, devido ao uso da copaíba, considerada muito forte e que deve ser ministrada com cautela, e, por outro, porque nunca tinha feito aquele remédio, temeu aplicá-lo numa dose mais elevada. Ao contrário, d. Maria de Nazaré, segura dos saberes engendrados em torno das plantas que escolheu para usar, preferiu uma indicação clássica: "dei a ela três vezes por dia".

 

O episódio da lavagem com o chá de cidreira acrescido do leite de magnésia é exemplar quanto à maleabilidade encontrada por estas práticas em meio tão rústico. Quando o Manuel "ficou com o bucho inchado", o caso afigurou-se como um problema digestivo, daí a escolha do chá de cidreira. Mas beber o chá não resolveu o problema; d. Maria de Nazaré, então, ?imaginou? o que poderia ser feito, pois o diagnóstico estava correto e a medicação também. Sua experiência e seus saberes lhe indicavam que estava certa e ela insistiu no tratamento, modificando, todavia, a forma de aplicação do remédio. Ao agregar o leite de magnésia, conhecido laxante, ela ratificou a sua forma de enquadrar a questão, adicionando um agente facilitador da ação a ser empreendida. 

 

Fonte: com informações do Portal Uol

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