Com ampla carreira internacional, Claudia Nunes dos Santos, que mora em Madri, vai comandar o projeto de expansão de uma empresa japonesa na América Latina e na Europa
Desde muito cedo, a pequena Claudia sempre ouvia com muita atenção o que a mãe, dona Maria Domingas, lhe dizia. Havia nas palavras daquela mulher, que foi criada sem os pais no interior de Minas Gerais, muita sabedoria. E, sobretudo, preocupação. Não passava pela cabeça dela ver Claudia e a irmã gêmea, Carla, repetirem um histórico de muita restrição.
Muito menos que as meninas, as filhas caçulas, engravidassem cedo ou se perdessem no mundo das drogas. A família, muito humilde, vivia no bairro do Capão Redondo, um dos mais violentos de São Paulo.Dona Maria Domingas, no entanto, não era mulher de ficar apenas nas palavras, distribuindo conselhos que, temia, não fossem ouvidos.
Tão logo Claudia e a irmã entraram na adolescência, a dona de casa que pouco havia frequentado a escola começou a bater de porta em porta em busca de bolsas de estudos para as meninas. Queria que elas aprendessem o máximo possível, que falassem quantas línguas pudessem. De início, Claudia e Carla começaram a estudar inglês.
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Quando criança (com a mão no rosto), com a família, em São Paulo
(foto: Arquivo Pessoal)
Depois, passaram a fazer cursos profissionalizantes, quando entraram para o Centro de Aprendizado do Menor Patrulheiro.Ali, Claudia teve o primeiro contato com um curso de administração. E levou muito a sério. Dois anos depois, já com 15, a jovem conseguiu uma vaga de menor aprendiz no Hospital das Clínicas, na área de nutrição e dietética.
Foi um período rico para a adolescente, que descobria um mundo de oportunidades. Tão logo completou 18 anos, entrou para a Faculdade de Ciências Contábeis. A paixão pelos números surgiu, arrebatadora, quando ela trocou o emprego no hospital por uma vaga num escritório de contabilidade. “Ali, tive a clara noção do que queria ser na vida”, conta ela, hoje uma respeitada executiva da multinacional japonesa Go Global, que a contratou há dois meses para tocar um plano de expansão da empresa.
Aos 40 anos, Claudia Nunes dos Santos, que dirige um braço da Go Global em Madri, onde vive, permanece ávida por aprendizado. Os conselhos de dona Maria Domingas continuam martelando na cabeça dela, como se ainda estivesse no Capão Redondo. “Minha mãe é meu pilar. Ela foi essencial para que eu construísse tudo o que conquistei e, principalmente, para que eu me fortalecesse o suficiente para superar as barreiras quase intransponíveis para muita gente, por falta de oportunidade”, afirma. “Sendo mulher, negra e de origem pobre, eu sempre tive de ser a melhor em tudo o que fazia. Não tinha como ser diferente”, acrescenta.
Contra o preconceito

Em 2006, se graduando como contadora. Na foto, com a irmã gêmea Carla
(foto: Arquivo Pessoal)
Assim que terminou o segundo ano de Ciências Contábeis na Universidade Ibirapuera — o dono do escritório em que ela trabalhava pagou a metade da mensalidade nesse período —, Claudia deu o passo mais longo até então na sua vida profissional. Mesmo conjugando o trabalho, de dia, com os estudos, à noite, ela conseguiu passar nas provas para uma vaga na multinacional Ernst & Young (EY). Era um sonho que estava se realizando. A empresa não só assumiu o pagamento da faculdade, como permitiu que a menina do Capão Redondo batesse asas pelo mundo para executar trabalhos em várias filiais.
Nos dois primeiros anos na Ernst & Young, a jornada de Claudia continuou pesada, como sempre foi. Ela acordava rigorosamente às 5h da manhã, de segunda à sexta-feira, pegava um ônibus para estar no trabalho às 8h. Às 17h, ia para a universidade, onde ficava até as 23h. Depois, eram mais duas horas de condução até a casa dela. “Dormia apenas quatro horas por noite. Mas não era um sacrifício para mim, como muitos me diziam. Estava feliz, conquistando meu espaço, crescendo profissionalmente”, ressalta. “Não queria, em nenhum momento, que tivessem pena de mim”, emenda. Dona Maria Domingas estava ali, sempre presente, a qualquer hora que fosse, nem que a sua única missão fosse a de dar um boa-noite para a filha.
Havia um porém no meio dessa felicidade toda. Claudia escondia dos colegas de empresa que ainda morava no Capão Redondo. Na cabeça de vários deles, quem vivia na periferia não era confiável, pois carregava o sinônimo de violência. “Tive de omitir essa realidade, mas era questão de sobrevivência. O importante era estar naquele ambiente corporativo internacional, atendendo clientes de várias partes do mundo, desenvolvendo projetos importantes”, frisa. Às vezes, reconhece, era tomada pela raiva, mas, em vez de descarregar esse sentimento em cima de alguém, ela canalizava toda a energia para o trabalho.
Claudia vestiu uma armadura contra todo tipo de preconceito. “Havia clientes que ultrapassavam todos os sinais, por eu ser mulher. Outros olhavam diferente por eu ser negra. Mas nunca discuti com ninguém. Sempre fui da conversa, do diálogo. Procurava mostrar, com argumentos consistentes, o quanto aqueles gestos e ações discriminatórios eram errados”, relata. Se conseguiu convencer a todos, não se sabe. O certo é que Claudia foi galgando vários postos na Ernst & Young, movida pela competência.
Conquista na Espanha

Em 2019, quando concluiu o curso de contadora na Espanha, pela Associação Espanhola de Contabilidade e Administração
(foto: Fotos: Arquivo Pessoal)
Em 2008, a filha de dona Maria Domingas viu o destino lhe abrir outros horizontes. Num dia comum de trabalho, ela conheceu um espanhol — Mário — que havia sido transferido para o escritório da EY em São Paulo. Foi amor à primeira vista. Pouco tempo depois, contudo, Mário teve de retornar para Madri, por causa de problemas familiares. O jeito foi Claudia pedir transferência para a filial da empresa na capital espanhola e ficar junto do futuro marido. Não foi uma decisão fácil a de cruzar o Atlântico, pois significava para a executiva deixar para trás a família, os amigos e os projetos aos quais ela havia se dedicado tanto.
Assim que pisou em Madri, a menina do Capão Redondo tratou de aprender espanhol. Era questão de sobrevivência e de honra. A adaptação à nova vida foi mais fácil do que Claudia imaginava. O trabalho na EY fluía bem, assim como o casamento. Os dois primeiros anos em Madri passaram voando e trouxeram para a brasileira um diploma de um MBA em finanças internacionais pela Universidade de Alcalá e um convite de emprego. A empresa espanhola de consultoria Auxadi a convidou para chefiar as operações no Brasil. Não teve como dizer não.
Na nova companhia, com toda a experiência acumulada e força descomunal para o trabalho, logo ela chegou ao cargo de diretora, com a missão de comandar escritórios de 50 países, com 120 funcionários. Foram 10 anos de Auxadi. Agora, Claudia está diante de um novo desafio, desta vez, de abrir escritórios da Go Global, que era sua cliente na antiga empresa, em vários países da Europa e da América Latina. Não só.
Será responsabilidade dela implantar as áreas de contabilidade e fiscal na empresa japonesa, cujo foco hoje está no setor de recursos humanos. “Estou muito entusiasmada com essa mudança de emprego. De Madri, vou estruturar todo esse braço novo da empresa. É interessante que, durante muito tempo, a Go Global me convidou para se juntar ao seu corpo de executivos, mas creio que só agora estou pronta para encarar esse desafio”, diz. A Go Global tem filial no Brasil, que está incluída no projeto de expansão de novos negócios da empresa.
A filha de dona Maria Domingas está cheia de planos. Para ela, os próximos 10 anos serão cruciais para que possa montar uma estrutura que lhe permita trabalhar menos. Isso passa por se tornar sócia da Go Global. Mesmo após os objetivos atingidos, Claudia não pretende retornar ao Brasil. Acredita que sua vida está totalmente estruturada na Espanha, com o marido e os dois filhos, uma menina de 9 anos, e um menino, de 7. “Temos toda uma segurança da qual não vejo motivos para abrir mão”, afirma.
Fonte: com informações do Portal Correio Braziliense
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