Após 16 anos de trabalho, Neuza Frazatti e sua equipe apresentaram a vacina que pode mudar o jogo contra uma doença que a cada ano mata milhares de pessoas e drena bilhões da economia
“Agora o cenário muda e vou poder dormir em paz.” Aos 76 anos, a pesquisadora Neuza Frazatti, do Instituto Butantan, pode finalmente declarar vitória em uma guerra que trava há 16 anos. Gerente de projetos de inovação do instituto, o maior produtor de vacinas e soros da América Latina, desde 2009 ela lidera o desenvolvimento de uma vacina contra a dengue. O processo terminou no final de novembro, quando a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) concedeu o registro definitivo ao imunizante desenvolvido por Neuza e sua equipe.
Tratar o combate à dengue como um esforço de guerra está longe de ser descabido. Só em 2025, o Brasil teve uma estimativa de 1,6 milhão de infecções, com 1.688 mortes comprovadas. No ano anterior foram 6,6 milhões de casos. Entre janeiro de 2024 e outubro de 2025, foram registradas mais de 235 mil internações, de acordo com o Ministério da Saúde. O custo direto ficou em torno de R$ 137 milhões. Em uma década, as hospitalizações drenaram R$ 1,15 bilhão do sistema de saúde, de acordo com cálculos da consultoria Planisa com base em um estudo publicado na revista científica The Lancet.
E esses são os custos mais evidentes. Além deles, há a redução da atividade econômica provocada por infecções muitas vezes não notificadas. Um estudo da Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais) estimou-os, em 2024, em R$ 20,3 bilhões, considerando dengue, zika e chikungunya.
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É essa mazela brasileira – uma tragédia para tantas famílias e um ralo para a economia – que a vacina do Butantan deve mitigar (ou, quem sabe, eliminar) a partir de 2026, quando começar o programa de vacinação; primeiro para os mais velhos, gradualmente para outras faixas etárias, exclusivamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Não se trata da primeira vacina contra a dengue no Brasil. A Qdenga, aprovada pela Anvisa em 2023, vem sendo aplicada no país desde 2024 e continuará a ser utilizada pelo SUS. Ela foi desenvolvida pela farmacêutica japonesa Takeda.
A grande vantagem da vacina do Butantan, produzida integralmente no Brasil, é que ela tem dose única. “Isso facilita muito”, diz Neuza. Um levantamento feito pelo jornal O Globo apurou que menos da metade dos jovens que tomaram a primeira dose voltou para receber a segunda, o que significa que não estão devidamente protegidos contra a doença.
Esse panorama pode mudar já em 2026. O Butantan projeta disponibilizar mais de 30 milhões de doses até meados do ano, com a produção em larga escala viabilizada por uma parceria com a chinesa WuXi Biologics. “Será o momento mais importante: quando a vacina chega ao braço das pessoas, evitando sofrimento e salvando vidas”, diz Neuza.
A trajetória de Neuza Frazatti

Fotos: Divulgação
Nascida em Birigui, no interior de São Paulo, e criada em uma família de educadores, Neuza tornou-se professora. Em 1978, transferiu suas aulas para o período noturno para atuar como estagiária não remunerada no Butantan. Formada em biologia e depois como doutora em biotecnologia pela USP (Universidade de São Paulo), acabou participando do desenvolvimento da vacina contra o vírus influenza. E ali começou a deixar sua marca.
Na época, descobriu que filhotes de camundongos com apenas um dia de vida eram usados para o desenvolvimento da vacina antirrábica. “Sou muito ligada à causa animal, aquilo me causava desconforto. Precisava ser diferente.” Passou então a criar a primeira vacina contra a raiva produzida em culturas celulares com meio livre de soro – sem insumos de origem animal, com menor custo e rendimento viral cinco vezes maior (com mais vírus, o custo de produção cai). Foi aprovada pela Anvisa em 2008 e lhe rendeu o Prêmio Péter Murányi-Saúde.
Inovação, naqueles anos 1980, quando Neuza iniciou sua carreira no laboratório, não era então um ativo tão valorizado. “Tive muitos contras”, lembra. “Sofri e lutei bastante porque existia muito preconceito contra cientistas mulheres e quanto à inovação.” Seus esforços e sua contribuição à ciência foram reconhecidos em 2021 com a premiação Women in Life Sciences, da associação farmacêutica internacional Parenteral Drug Association.
Fonte: com informações Forbes
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