Historiadores acreditam que houve três papas com origens na África; o mais recente deles comandou a Igreja Católica há mais de 1.500 anos
Com a morte do Papa Francisco, uma pergunta paira no ar com força inédita: estaria a Igreja Católica prestes a romper um ciclo de mais de 15 séculos e eleger, enfim, um novo papa africano?
Três nomes africanos despontam com força entre os possíveis sucessores: Fridolin Ambongo Besungu, da República do Congo, Peter Kodwo Appiah Turkson, de Gana, e Robert Sarah, da Guiné. Mas o que poucos se lembram — ou sequer sabem — é que a Igreja já teve africanos no trono de Pedro. E eles deixaram marcas profundas que moldaram o cristianismo como o conhecemos hoje.
Foram três papas com raízes no norte da África: Victor I, Melquíades e Gelásio I. Todos reconhecidos como santos. Todos decisivos em momentos cruciais da história da fé cristã. E todos esquecidos por séculos de eurocentrismo e exclusão institucionalizada.
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Victor I, no final do século II, enfrentou divisões doutrinárias e impôs a celebração da Páscoa aos domingos, unificando a prática cristã em meio a tensões entre o Oriente e o Ocidente. Ele também introduziu o latim como língua oficial da Igreja — uma revolução litúrgica em um tempo em que o grego predominava. Tudo isso enquanto liderava uma comunidade perseguida, em um império que ainda tratava o cristianismo como crime.
Já Melquíades governou em um momento de virada histórica. Com o apoio do imperador Constantino, tornou-se o primeiro papa a residir oficialmente em Roma e a receber uma basílica — a imponente Latrão, ainda hoje considerada a “mãe de todas as igrejas”. Seu pontificado marcou a transição do cristianismo perseguido para o cristianismo institucionalizado.

Gelásio I, por sua vez, cravou um novo patamar de autoridade para o papado. Foi o primeiro a ser chamado de "Vigário de Cristo", título que reforça o poder supremo do papa sobre a Igreja. Criou a Doutrina das Duas Espadas, defendendo a supremacia espiritual da Igreja sobre os governantes terrenos. E enfrentou o Cisma Acaciano com firmeza, afirmando a primazia de Roma sobre o Oriente cristão. Ele também cristianizou tradições pagãs, como o festival romano da fertilidade, transformando-o no que hoje conhecemos como o Dia de São Valentim.

Fotos: Reprodução
Com a queda do Império Romano e a consolidação da Igreja no Ocidente, o papado tornou-se, pouco a pouco, um reduto italiano. Um monopólio de poder mantido longe das margens onde a fé crescia de forma mais vibrante.
Hoje, porém, o cenário mudou. A África é o continente onde o catolicismo mais avança. Já são mais de 280 milhões de católicos africanos — cerca de 20% da população católica mundial. A vitalidade da fé no sul global contrasta com o envelhecimento das igrejas da Europa. O futuro da Igreja está mudando de endereço.
Ainda assim, o poder permanece no Norte, onde estão os recursos, as decisões e a tradição enraizada. Mas por quanto tempo? A força numérica e espiritual dos católicos africanos já não pode mais ser ignorada. A nomeação de um papa africano não seria um gesto simbólico, mas o reconhecimento de uma realidade incontornável: o centro de gravidade do catolicismo está migrando. E talvez, finalmente, o mundo esteja pronto para ver Roma, mais uma vez, sob a liderança de um papa africano.
Fonte: com informações do Terra
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