Vazada contra Egito, Panamá, Croácia, França e Tunísia, Seleção retrocede de convicção na defesa e do sistema tático e inicia nova caça ao hexa com 1 x 1 abaixo da crítica contra Marrocos
Carlo Ancelotti costuma se orgulhar das origens italianas. Não apenas pela coleção de títulos espalhada pelas principais ligas da Europa, mas também pela herança de um país que transformou a arte de defender em patrimônio cultural. Foi assim que a Itália conquistou quatro Copas do Mundo. É também assim que o treinador imagina pavimentar o caminho do Brasil rumo ao hexa, mas a realidade é outra. A Seleção Brasileira desembarcou nos Estados Unidos carregando uma preocupação cada vez mais difícil de esconder. Entrou em campo contra Marrocos após sofrer gols nas cinco partidas anteriores. Saiu do MetLife Stadium com a sequência ampliada.
Se o sonho é conquistar a sexta estrela, o Brasil também alcançou outro hexa neste sábado: o sexto jogo consecutivo com a meta violada. O alerta não nasceu diante dos marroquinos. Até o Panamá conseguiu balançar as redes brasileiras neste ciclo, apesar da derrota por 6 x 1. Contra um adversário do porte de Marrocos, semifinalista da última Copa do Mundo, o castigo parecia questão de tempo. Saibari encontrou um corredor entre Gabriel Magalhães e Marquinhos, avançou livre e encobriu Alisson para escancarar uma fragilidade que acompanha a equipe há semanas.
Foi uma tarde em que Ancelotti também precisou conviver com as próprias contradições. O treinador abandonou o 4-4-2 utilizado nos compromissos anteriores e apostou em mudanças importantes. Igor Thiago apareceu entre os titulares no lugar de Matheus Cunha. Ibañez ganhou a vaga de Danilo. O resultado foi uma equipe sem sintonia, espaçada entre os setores e vulnerável justamente naquilo que deveria ser sua principal virtude.
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Durante boa parte do primeiro tempo, Marrocos parecia jogar em casa. Trocava passes com naturalidade, acelerava quando encontrava espaço e encontrava superioridade numérica com frequência preocupante. O Brasil correu atrás do prejuízo, empatou e evitou uma estreia ainda mais traumática. Mas a sensação deixada no gramado foi desconfortável. Até 2018, a Seleção não empatava uma estreia de Copa desde o 1 x 1 contra a Suécia, em 1978. Na Rússia, a Suíça repetiu a dose. Agora foi a vez de Marrocos arrancar pontos da Amarelinha logo no primeiro compromisso do Mundial.
Ancelotti terá quatro dias para reorganizar a casa antes do duelo contra o Haiti, na próxima sexta-feira, na Filadélfia. Tempo suficiente para corrigir erros táticos. Talvez não para silenciar uma pergunta que cresce a cada partida: como um treinador moldado pela tradição defensiva italiana vê sua Seleção sofrer gols com tanta frequência? Doze anos depois, a Seleção Brasileira voltou a estrear em uma Copa do Mundo, saindo atrás no placar. Em 2014, Marcelo marcou contra na vitória de virada por 3 x 1 sobre a Croácia. Conscientes ou não do aproveitamento do Brasil em debutes — 17 triunfos em 22 edições —, Marrocos tomou as rédeas no primeiro tempo.
Trocaram passes com naturalidade, aceleraram quando encontraram espaço e expuseram os problemas de encaixe do sistema defensivo brasileiro. Durante os primeiros minutos, a bola parecia ter cidadania marroquina. Após longa sequência de trocas de passe, Mazraoui percebeu a dificuldade de Ibañez na recomposição, avançou sem resistência e cruzou para Aynaoui finalizar. Bruno Guimarães apareceu como bombeiro para bloquear a conclusão e evitar o pior. A linha defensiva brasileira dava sinais evidentes de falta de química. Os espaços surgiam entre os setores, a recomposição era lenta e, não raramente, Marrocos atacava em superioridade numérica. Capitão e principal referência técnica da equipe africana, Hakimi tentou assumir o protagonismo ao arriscar um chute cruzado da direita. Alisson apenas acompanhou a trajetória da bola até a linha de fundo.
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A posse chegou a ultrapassar os 70% para os marroquinos. O Brasil só conseguiu respirar quando Vinicius Junior resolveu chamar o jogo para si. O atacante levou a melhor sobre Hakimi pela primeira vez e encontrou Igor Thiago na área. O brasiliense, porém, não conseguiu acertar o tempo da cabeçada. O castigo veio aos 20 minutos. Paquetá errou o domínio no campo de ataque e abriu caminho para um contra-ataque fulminante. Mazraoui encontrou Brahim Díaz, que serviu Saibari entre Gabriel Magalhães e Marquinhos. Cara a cara com Alisson, o atacante mostrou categoria ao tocar por cobertura e abrir o placar no MetLife Stadium. Pecado. Foi o último lance antes da parada para hidratação.
Nem mesmo o gol acordou imediatamente a Seleção. Paquetá acumulava erros de passe, Marrocos encontrava corredores livres por praticamente todos os setores do campo e a sensação era de que o time africano estava sempre um movimento à frente. Até que Vinicius apareceu novamente. Se o coletivo não respondeu, a qualidade individual prevaleceu. O camisa 7 venceu o duelo contra Hakimi, criou a jogada praticamente sozinho e recolocou o Brasil na partida. Depois do gol, chamou a torcida para o jogo e incendiou o estádio. Os problemas, porém, permaneciam evidentes, especialmente na proteção às sobras das bolas paradas.
Antes do intervalo, o Brasil quase virou. Criticado durante boa parte da etapa inicial, Paquetá se projetou na área e acertou um belo voleio, obrigando a defesa marroquina a trabalhar. Seria injusto para o roteiro do primeiro tempo. Marrocos saiu de campo com a sensação de que merecia mais, enquanto o Brasil tinha a certeza de que precisava jogar muito mais. O primeiro tempo deixou feridas evidentes demais para serem ignoradas. Ancelotti percebeu isso e agiu sem cerimônia no intervalo. Ibañez foi sacado para a entrada de Danilo, enquanto Fabinho assumiu o lugar de Casemiro. Amarelado, o veterano flertava com a expulsão. O italiano precisava proteger o cão de guarda e, principalmente, impedir que Marrocos continuasse encontrando tanto espaço para correr.
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Fotos: AFP
Ancelotti esperou os protocolares 15 minutos do segundo tempo para mexer novamente na equipe. Igor Thiago, discreto durante a partida, deu lugar a Matheus Cunha. Paquetá também deixou o campo. Em busca de mais profundidade e velocidade, o treinador italiano lançou Luiz Henrique pela direita e assumiu de vez uma postura mais agressiva. Era o movimento que faltava para a Seleção. O Brasil não sofria os mesmos sustos do primeiro tempo, fruto dos ajustes promovidos no intervalo, mas ainda esbarrava em um problema recorrente: tinha a bola, circulava pelo campo de ataque, porém sem transformar a posse em perigo real. As mudanças de Ancelotti buscavam justamente romper essa monotonia e devolver verticalidade a uma equipe que controlava o jogo sem conseguir ferir Marrocos.
O domínio territorial quase se transformou em vitória, mas morreu em lançamentos longos demais, cruzamentos sem direção e decisões apressadas. Faltou capricho. Faltou ousadia. Faltou a convicção de quem se vê pronto para conquistar uma Copa do Mundo. Nas arquibancadas, o ambiente parecia acompanhar o que acontecia em campo. Os gritos eram esporádicos, a empolgação aparecia em lampejos. Ao apito final, ficou a sensação de uma estreia burocrática, aquém da expectativa criada em torno de uma Seleção que desembarcou nos Estados Unidos sonhando com o hexa.
Fonte: com informações do Correio Braziliense
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