O que era previsão agora se tornou realidade: Leticia, a principal cidade colombiana no coração da Amazônia, corre o risco de perder seu acesso direto ao maior rio do mundo.
Há mais de duas décadas, cientistas colombianos alertaram que o curso do rio Amazonas estava mudando, desviando-se cada vez mais em direção ao lado peruano. O que era previsão agora se tornou realidade: Leticia, a principal cidade colombiana no coração da Amazônia, corre o risco de perder seu acesso direto ao maior rio do mundo.
O cenário ganhou ainda mais destaque em agosto de 2025, quando o Congresso peruano aprovou a criação do distrito de Santa Rosa de Loreto, declarando oficialmente a ilha de Santa Rosa como território do Peru. A decisão gerou protestos imediatos do governo colombiano.
O presidente Gustavo Petro foi categórico ao afirmar que “deve haver um acordo comum entre os dois governos antes de se decidir se é colombiana ou peruana”. Em suas palavras, o deslocamento do rio poderia significar que Leticia desapareça como porto amazônico.
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A ciência já havia alertado
Pesquisas conduzidas desde a década de 1990 mostram a gravidade do fenômeno. Em 1993, estudos da Universidade Nacional da Colômbia revelaram que 70% da vazão no estreito de Nazareth já passava pelo braço peruano do rio, restando apenas 30% para os canais colombianos.
Atualmente, a situação é ainda mais crítica: de acordo com medições recentes, cerca de 80% da água flui para o lado peruano, deixando Leticia cada vez mais isolada. O professor Juan Gabriel León alerta que, se nada for feito, “em cerca de 10 a 15 anos já não entraria mais água na Amazônia pelo lado de Leticia”.
Soluções ignoradas

A professora Lilian Posada, da Universidade Nacional em Medellín, defende que a dragagem e a construção de espigões submersos poderiam redirecionar o fluxo sem alterar o curso natural do rio. Essas propostas foram apresentadas já em 2006, mas nunca implementadas. A falta de ação, segundo ela, fez com que novas ilhas se formassem, bloqueando ainda mais a vazão colombiana. “Isso poderia ter sido evitado”, lamenta.
Enquanto isso, projetos recentes, como a construção de um paredão turístico em Leticia, são criticados pelos pesquisadores. “Para que a obra, se o rio está secando?”, questiona Posada.
Impactos sociais e ambientais

Fotos: Reprodução/Google
A mudança do curso do rio já afeta a vida cotidiana. Comerciantes e estudantes da região relatam que, em 2024, tiveram de caminhar quilômetros por áreas secas que antes eram navegáveis. O Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais (Ideam) registrou uma redução de 82% da vazão em Nazareth durante a estação seca, o que alguns descreveram como um verdadeiro “deserto” no meio da Amazônia.
A bióloga Silvia López, da WCS, explica que os rios funcionam como esteiras transportadoras de água, energia e matéria. Quando perdem força, os sedimentos se acumulam, formam bancos de areia e, posteriormente, novas ilhas, como ocorreu com Santa Rosa, surgida nos anos 1970. Especialistas insistem que a dragagem ainda pode evitar que Leticia perca definitivamente sua saída para o rio Amazonas, mas a ação precisa ser imediata e estratégica. Setembro, durante a seca, seria o período ideal para iniciar as obras.
Para o professor Santiago Duque, o tema deve estar no centro da pauta da Cúpula de Presidentes Amazônicos, marcada para 22 de agosto em Bogotá. “O que fazemos, a partir da ciência, é acompanhar esses processos para que as coisas sejam bem feitas, planejando-as e pensando no futuro”, conclui.
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