Pesquisadores acompanharam pacientes que consumiram chocolate 70% durante 30 dias e não ganharam peso no período; medo de engordar é um dos entraves do tratamento
Uma das principais dificuldades enfrentadas pelo tabagista que busca largar o cigarro é superar o período de abstinência, que geralmente dura de duas a três semanas. A fissura é manifestada por sensações de desconforto, angústia e um desejo intenso de fumar novamente. Diversas estratégias são empregadas para auxiliar o fumante a atravessar esse período sem desistir. Um estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF), conduzido no Brasil, revela que o chocolate amargo pode ser uma alternativa para ajudar aqueles que desejam abandonar o vício.
Os resultados da pesquisa (leia mais abaixo sobre como ela foi realizada) indicam que o consumo diário de uma porção de 40 gramas de chocolate amargo (com 70% de cacau) contribuiu para a diminuição da fissura em fumantes que estavam em tratamento. E importante: sem afetar as medidas corporais dos pacientes.
O medo de ganhar peso é justamente uma das razões que levam as pessoas a relutarem em parar de fumar. Segundo a nutricionista Aline Silva de Aguiar, especialista em dependência química e responsável pelo estudo, isso ocorre porque os fumantes desenvolvem uma seletividade alimentar devido à ação da nicotina, que acelera o metabolismo e interfere nas papilas gustativas da língua, reduzindo a sensação de sabor dos alimentos para o tabagista.
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“Ele tende a pular refeições, não tomar café da manhã, tende a comer sempre de forma monótona por não sentir o prazer do sabor. Associado a isso, o Índice de Massa Corporal (IMC) de quem fuma tende a ser mais baixo. Geralmente, ele é uma pessoa mais magra. Então, quando parar de fumar, a pessoa começa a compensar essa falta do cigarro comendo alimentos mais palatáveis, geralmente doces, gordurosos e ultraprocessados. Sem a nicotina, o metabolismo deixa de estar acelerado e volta ao normal. Por isso, pode ser que a pessoa ganhe um pouco de peso”, explica Aguiar, que também é professora do Departamento de Nutrição e Dietética da Faculdade de Nutrição da UFF. Ela ressalta que “o ganho de peso ao parar de fumar é irrisório perto dos benefícios de abandonar o cigarro”.
Estratégias para lidar com a abstinência
A síndrome de abstinência representa um desafio significativo para os tabagistas, uma vez que pode comprometer o processo e resultar em recaídas. Muitos abandonam o tratamento devido à dificuldade em lidar com esse problema.
“Grande parte dos fumantes precisa de mais de uma tentativa para parar de fumar exatamente por conta disso. Muitos precisam de duas, três, quatro, até mesmo cinco tentativas. A gente tem que deixar claro para o paciente que isso é normal e continuar estimulando para que, assim que ele se sentir confiante novamente, faça uma nova tentativa”, explicou a pneumologista Luiza Helena Degani Costa, do Hospital Israelita Albert Einstein, e professora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
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Existem diversas estratégias para a prevenção e tratamento da fissura, que variam desde abordagens medicamentosas, como o uso de terapia de reposição de nicotina e medicamentos para redução da ansiedade, até mudanças no estilo de vida, que incluem a prática de exercícios físicos para diminuir a ansiedade e a compulsão alimentar. Deve-se também evitar situações que desencadeiem o desejo de fumar, como o consumo de álcool e café, e buscar alternativas, como comer palitinhos de cenoura, erva-doce ou pedaços de maçã quando surgir a vontade de fumar. Normalmente, orienta-se que o paciente evite substituir o cigarro por doces ou balas, pois isso frequentemente contribui para o ganho de peso.
Com o resultado desse estudo, a ideia da nutricionista é que o tabagista tenha mais opções disponíveis para o momento da fissura. “Sentiu vontade de fumar? Pega um pedacinho de chocolate 70% cacau, põe na boca, embaixo da língua, e vai sentindo o sabor devagar. Isso ajuda na sensação de bem-estar”, sugere.
Na avaliação da pneumologista do Einstein, o estudo aborda um tema importante, que é a prevenção e o tratamento da fissura em pacientes em processo de cessação do tabagismo, embora ainda não apresente evidências definitivas: “outros trabalhos precisam ser feitos, com tamanho amostral maior, deixando clara a taxa de aderência à terapia proposta e avaliando o desfecho de sucesso ou não da cessação do tabagismo e eventual recaída”.
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Fotos: Reprodução Google
“O que gera o ganho expressivo de peso é a troca da compulsão do cigarro pela compulsão por comida, doces, balas. O que precisamos fazer é tratar, prevenir gatilhos e orientar o paciente no reconhecimento precoce da fissura. Quanto mais estratégias tivermos, melhor será para o paciente. Se o chocolate amargo puder ajudá-lo a passar por esse processo de forma mais leve e menos sacrificante, será muito bom. O processo nunca vai ser simples, nunca vai ser fácil, mas podemos tentar deixá-lo menos difícil”, finalizou a pneumologista.
Fonte: com informações do Portal CNN Brasil
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