01 de Maio de 2026

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Inspiração Amazônica - 19/01/2025

Cerâmica Tukano: Saberes Ancestrais e o Manejo Sustentável da Floresta Amazônica

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Foto: Reprodução

A arte cerâmica Tukano é parte integrante do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

No coração da Amazônia, o povo Tukano preserva uma tradição milenar que vai além da arte: a cerâmica, com suas técnicas e significados, é um reflexo do intrincado sistema de manejo ambiental e cultural da região. Nas margens do Rio Uaupés, no Alto Rio Negro, as mulheres Tukano mantêm viva essa prática ancestral, conectando passado e presente enquanto promovem a sustentabilidade e a valorização de sua identidade cultural.

 

A arte cerâmica Tukano é parte integrante do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural imaterial desde 2010. Este sistema compreende práticas agrícolas, redes de troca de sementes, saberes alimentares e artefatos materiais, como as peças de cerâmica.

 

A produção cerâmica se estende por cerca de 12 dias e envolve etapas complexas, desde a coleta ritualizada da argila até a queima das peças, um processo que requer extrema habilidade. Segundo a tradição Tukano, a argila é protegida por Di’i Mahso (Vovó Argila), espírito guardião das jazidas, locais sagrados para as artesãs. Durante a coleta, cânticos e benzimentos são realizados, evocando cura e proteção.

 

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O resultado são peças enegrecidas pela fumaça, características das queimas realizadas nos fornos, que simbolizam a profunda relação entre as mulheres ceramistas e a floresta. “A cerâmica é como um coração dentro do sistema. Há uma relação sentimental muito forte entre as populações locais e a arte”, explica Carlos Augusto da Silva, o arqueólogo indígena conhecido como Tijolo.

 

A Associação das Mulheres Indígenas de Taracuá

 

 

Coleta da argila em igarapé próximo a Taracuá.

As mulheres costumam entoar cânticos e fazer benzimentos,

durante o período de passagem pelas jazidas, locais sagrados para as oleiras

 

Fundada em 1987, a Associação das Mulheres Indígenas da Região de Taracuá (Amirt) é pioneira no fortalecimento da economia local. Suas integrantes desempenham um papel crucial, tanto na preservação da tradição oleira quanto na organização comunitária. As ceramistas da Amirt não apenas produzem artefatos, mas também cultivam roças, uma prática essencial para a segurança alimentar e a conservação da biodiversidade local.

 

 

Panorâmica da comunidade com Rio Uaupés

 

Por meio do barco Amireta, adquirido em 2018, a associação transporta os produtos das roças e as cerâmicas para mercados em cidades como São Gabriel da Cachoeira, Manaus e São Paulo. Essa iniciativa fortalece a autonomia financeira das mulheres e amplia a difusão de sua arte.

 

“Eu me sinto livre ao saber que temos uma renda familiar que não tínhamos antes. As mulheres ganham mais autonomia e plantam uma sementinha para o grupo. Esta é a nossa casa. Nunca fomos guardiões porque somos os donos desta terra. Nós sempre estivemos aqui”, declara Suzana Menezes Migues, uma das ceramistas da associação.

 

 

 

A cerâmica Tukano é mais do que uma prática artística: ela simboliza uma profunda compreensão do manejo sustentável da floresta. O uso do fogo e a interação com espécies vegetais locais demonstram o conhecimento técnico acumulado ao longo de gerações, contribuindo para a regeneração cíclica da biodiversidade.

 

 

A ceramista Maria Suzana Menezes Migues

prepara a argila, sovando e misturando a massa 

 

Além disso, o legado cultural das ceramistas Tukano inspira as novas gerações, garantindo a continuidade de saberes que integram práticas espirituais, sociais e ecológicas. “Trabalhar com as nossas próprias mãos é algo muito valioso. Ensinar os nossos conhecimentos para outras pessoas e para os nossos filhos garante que a cultura continue se expandindo”, afirma Maria Suzana Menezes Migues.

 
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Embora a cerâmica Tukano tenha conquistado espaço em grandes centros urbanos, como São Paulo, a inserção no mercado ainda enfrenta desafios. As ceramistas buscam maior incentivo para a valorização de seus produtos, ao mesmo tempo em que defendem seus direitos e fortalecem suas comunidades.

 

Fotos: Reprodução

 

A arte cerâmica Tukano é um testemunho vivo da resiliência e da sabedoria ancestral dos povos amazônicos. Ao mesmo tempo em que promovem a preservação ambiental, essas mulheres tecem uma rede de saberes que conecta o passado, o presente e o futuro da floresta.
 

 

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