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Segurança Pública - 08/12/2025

CASO BENÍCIO: Novas imagens mostram o menino andando e conversando com os pais no hospital antes da sucessão de erros no atendimento que levou à sua morte

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Foto: Reprodução

Menino com laringite passou quase 14 horas internado e recebeu dose de adrenalina na veia, indicada apenas para casos graves. Delegado aponta falhas em protocolos e ausência de dupla checagem

Imagens inéditas obtidas pelo Fantástico na noite de domingo, 6, mostram, passo a passo, como ocorreu o atendimento que culminou na morte de Benício Xavier, de 6 anos, em um hospital particular de Manaus. A criança chegou caminhando ao Hospital Santa Júlia, apresentando tosse seca e febre. A suspeita inicial era de laringite. “Eu disse ao meu esposo: ‘vamos levar ele à emergência?’ Porque eu achava que a garganta dele estava muito inflamada”, relembra a mãe, Joice Xavier de Carvalho.

 

A família permaneceu quase 14 horas no hospital. Imagens mostram Benício na sala de espera e durante o atendimento. O menino acabou morrendo após receber uma dose incorreta de adrenalina aplicada diretamente na veia. O pai, Bruno Mello de Freitas, acompanhou o filho durante todo o processo: “Nenhum pai ou mãe leva um filho ao hospital esperando que ele morra, ainda mais da forma como o Benício morreu. Foi uma sucessão de falhas, uma negligência que conseguimos constatar”.

 

Veja tambémO atendimento ocorreu em um sábado, 22 de novembro. Na triagem, o caso não foi classificado como grave. “Só podia entrar uma pessoa, então fui eu. A médica avaliou e disse que ele faria adrenalina. Não explicou o modo de aplicação, só disse que faria”, conta Joice. Um mês antes, Benício já havia sido atendido no mesmo hospital com sintomas semelhantes e, naquela ocasião, recebeu adrenalina por inalação.

 

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Segundo o pediatra Márcio Moreira, do Hospital Israelita Albert Einstein, esse é o procedimento correto para laringite: “Em casos assim, utilizamos adrenalina inalatória com frequência, e a melhora costuma ser rápida, ainda que momentânea”. A adrenalina, substância produzida pelo corpo e também usada como medicamento, é indicada por inalação em quadros leves. Já a versão injetável, aplicada diretamente na veia, é reservada para emergências graves, como paradas cardiorrespiratórias, e deve ser administrada em doses muito pequenas, lentamente e, geralmente, em ambiente de terapia intensiva.

 

“Para mim, era certo que seria por inalação. Por isso, não questionei. Apenas concordei”, afirma a mãe. A médica que atendeu Benício, Juliana Brasil Santos, prescreveu adrenalina pura, sem diluição, aplicada na veia, em três doses que somavam 9 miligramas. A família seguiu para a ala de enfermaria com a prescrição. Ao ver o preparo do medicamento, Joice estranhou: “Cadê a inalação? Sempre foi por inalação”. A técnica de enfermagem Raíza Bentes respondeu que também nunca havia aplicado adrenalina na veia, mas que apenas seguia a prescrição médica.

 

Segundo os pais, logo após a aplicação intravenosa, Benício ficou pálido e reclamou de dor no peito. “Entrei em desespero. Meu marido pediu para eu correr e chamar o médico”, diz Joice. Raíza buscou a médica e relatou a reação do menino. Em mensagens enviadas a outro médico, Juliana assumiu: “Eu que errei na prescrição”. Em um relatório ao hospital, reafirmou que “prescreveu de forma equivocada”.

 

 

 

O menino foi levado rapidamente para a sala vermelha, destinada às emergências. De acordo com os pais, ele ainda estava consciente, mas com muita dificuldade para respirar. Quatro horas depois, foi transferido para a UTI. Chegou a ficar um tempo ao lado do pai, fez uma refeição e, horas depois, precisou ser intubado. “Eu conversava com ele internamente: ‘Vamos, filho. Melhora essa oxigenação’. Eu rezava muito”, lembra Bruno.

 

Benício sofreu seis paradas cardíacas e não resistiu. “É uma dor que levarei para sempre”, desabafa o pai. “Tudo indica uma sucessão de erros.”A polícia investiga falhas na intubação e a ausência de checagem por parte do farmacêutico do hospital. O presidente do Conselho Regional de Farmácia do Amazonas, Reginaldo Silva Costa, afirma que um farmacêutico teria identificado a superdosagem e solicitado revisão da prescrição.

 

 

Fotos: Reprodução

 

Para o delegado Marcelo Martins, houve “um erro estrutural, uma sequência de falhas e ausência de cuidados básicos”. Questionado se houve crime, é categórico: “Com certeza, um homicídio. A médica não revisou sua própria prescrição, o que seria uma conduta básica. A técnica de enfermagem também poderia ter checado a dose. Isso teria evitado o resultado”. A técnica de enfermagem Raíza Bentes afirma que apenas seguiu a prescrição. Com sete meses de experiência, foi suspensa pelo Conselho de Enfermagem e responde em liberdade. Sua defesa diz que só se manifestará ao fim das investigações.

 

A médica Juliana Santos Brasil foi afastada do cargo. À Justiça, enviou um vídeo alegando que o sistema eletrônico teria alterado a forma de administração da adrenalina sem que ela percebesse. Já o superintendente de TI do hospital, João Alexandre de Araújo, nega: “Sem ação do médico, o sistema não altera nada automaticamente”. Juliana conseguiu um habeas corpus preventivo para não ser presa durante as investigações. Seu advogado, Felipe Braga, aponta falhas no sistema e na checagem de outros profissionais, afirmando: “Foi um conjunto de fatores, desde a quebra da dupla checagem até a ausência de farmacêutico. Eu não considero que ela tenha errado”. O diretor médico do hospital, Guilherme Macedo, declarou que a instituição está elaborando novos protocolos para evitar casos semelhantes.

 

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Benício, filho único, faria 7 anos no Natal. “Vamos sempre lembrar da criança que ele era: puro, meigo, obediente. O ser mais puro que já conheci”, diz o pai emocionado.

 

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