A estrada, com 885 km de extensão, atravessa o último grande bloco contínuo de floresta amazônica e, segundo os cientistas, coloca em risco não apenas o bioma, mas também os compromissos climáticos que o Brasil assumirá na COP30, em Belém.
Um novo estudo publicado na revista científica Regional Environmental Change, assinado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), alerta que a reconstrução da BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), pode provocar o desmatamento de 5,78 milhões de hectares até 2070 — uma área maior que a Suíça (4,1 milhões ha) e a Dinamarca (4,2 milhões ha).
A estrada, com 885 km de extensão, atravessa o último grande bloco contínuo de floresta amazônica e, segundo os cientistas, coloca em risco não apenas o bioma, mas também os compromissos climáticos que o Brasil assumirá na COP30, em Belém.
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Dois cenários para o futuro

O estudo analisou dois cenários:
• Com a BR-319 reconstruída: o desmatamento cresce rapidamente com a abertura de novas estradas planejadas, como a AM-366, além da proliferação de ramais ilegais.
• Sem a obra: o desmatamento se mantém estável na região.
“Com a BR-319, tudo indica que o país terá dificuldade para cumprir a meta de desmatamento zero”, afirma Aurora Miho Yanai, engenheira florestal e pesquisadora do Inpa, autora principal do estudo.
Impactos previstos

• Fauna, flora e estoques de carbono ameaçados, com reflexos no regime de chuvas que abastece o Centro-Oeste e o Sudeste.
• Terras indígenas e populações tradicionais sob pressão: 69 terras indígenas (incluindo povos isolados) e 41 unidades de conservação estão na área de influência.
• Florestas públicas não destinadas podem perder até 3,9 milhões de hectares, com aumento de 728% no desmatamento até 2070.
• A região Trans-Purus, a oeste do rio Purus, deve concentrar as maiores perdas: 2 milhões de hectares.
O cientista Philip Fearnside, também do Inpa e integrante do grupo que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007, alerta:
“A devastação dessa região, que concentra um dos maiores estoques de carbono do planeta, vai afetar o regime de chuvas que sustenta a agricultura do Brasil. A Amazônia já caminha para o limite. Com a BR-319, esse processo acelera e pode levar a consequências imprevisíveis”.
Conflitos sociais e jurídicos

Fotos: Reprodução/Google
A obra, construída inicialmente em 1976 e abandonada nos anos 1990, foi retomada como prioridade durante o governo Jair Bolsonaro. Hoje, divide opiniões:
• Líderes indígenas, como Moangathu Jiahui (OPIAM), afirmam que não houve consulta livre, prévia e informada, conforme prevê a Convenção 169 da OIT.
• O Observatório do Clima ingressou na Justiça contra a licença prévia concedida no governo Bolsonaro, obtendo uma liminar que suspendeu a obra.
• O presidente Lula prometeu buscar um “consenso”, mas especialistas e ambientalistas afirmam que esse entendimento é inviável diante dos riscos.
Segundo o estudo, o desmatamento começou a aumentar antes mesmo da obra sair do papel. Entre 2019 e 2022, após o anúncio da reconstrução, foram registrados 132 mil hectares de floresta derrubados no entorno da BR-319, um crescimento de 144% em relação à média da década anterior. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, já havia alertado para o risco de a obra acelerar a chegada ao chamado “ponto de não retorno” da Amazônia — quando a floresta perde sua capacidade de regeneração.
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