De acordo com um estudo publicado na revista Nature Sustainability, a produção de peixes emite dez vezes menos gases de efeito estufa e requer entre 20 e 100 vezes menos terra por tonelada de proteína animal do que a pecuária.
A aquicultura tem se consolidado como uma alternativa viável e sustentável à pecuária na Amazônia, com potencial para fortalecer a segurança alimentar sem o alto custo ambiental da criação de gado. Contudo, pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos alertam que, sem legislações ambientais rigorosas, a aquicultura pode se tornar mais uma ameaça ao bioma amazônico.
De acordo com um estudo publicado na revista Nature Sustainability, a produção de peixes emite dez vezes menos gases de efeito estufa e requer entre 20 e 100 vezes menos terra por tonelada de proteína animal do que a pecuária.
Desde os anos 1980, a aquicultura cresceu exponencialmente na região, especialmente no Brasil, que se tornou o maior produtor da atividade entre os países amazônicos. Rondônia lidera a produção de espécies nativas, como o tambaqui, peixe altamente valorizado devido à sua rusticidade, rápido crescimento e eficiência na conversão alimentar.
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No entanto, a expansão da aquicultura deve ser conduzida de forma sustentável. Entre os desafios apontados pelos pesquisadores, destacam-se:
• Processos de licenciamento ambiental inconsistentes, que variam entre os estados e dificultam a regulamentação da atividade.
• Impactos na biodiversidade aquática, como a prática de barramento de igarapés para criação de peixes, que compromete a conectividade dos rios e prejudica espécies nativas economicamente importantes.
• Problemas sanitários e ambientais, incluindo a administração excessiva de ração, que pode aumentar a emissão de gases de efeito estufa e desestabilizar as cadeias alimentares nos rios.
Os especialistas apontam que a expansão da aquicultura na Amazônia poderia utilizar pastagens degradadas, reduzindo ainda mais os impactos ambientais. Estudos indicam que ocupar essas áreas com tanques de peixes emite menos gases de efeito estufa do que simplesmente abandoná-las. Além disso, a produtividade da aquicultura é superior à da pecuária, tornando-a uma opção mais viável para garantir a segurança alimentar sem aumentar o desmatamento.

“A aquicultura não pode repetir os erros da pecuária, que abriu grandes áreas para pastagem e hoje enfrenta problemas com terras degradadas e pouco produtivas. A diferença é que podemos reaproveitar essas áreas de maneira sustentável”, explica Carolina Doria, professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e coautora do estudo.
A aquicultura amazônica se destaca por trabalhar com espécies nativas, como tambaqui, pacu e pirarucu. Em contrapartida, há uma pressão crescente para a liberação do cultivo de espécies exóticas, como a tilápia, que já domina 65% da produção nacional de peixes. Embora a tilápia tenha um grande mercado e alto desempenho produtivo, sua introdução no ambiente natural pode gerar impactos negativos, como competição por recursos e predação de espécies nativas. Por outro lado, o tambaqui apresenta um enorme potencial de expansão, com menor risco ambiental e possibilidade de aprimoramento genético para maior resistência e produtividade.
Aquicultura e Desenvolvimento Social

Fotos: Reprodução/Google
Além dos benefícios ambientais, a aquicultura pode impulsionar o desenvolvimento socioeconômico da região, gerando empregos e oferecendo uma fonte de renda mais estável do que atividades como a pesca tradicional. “A aquicultura na Amazônia pode melhorar a segurança alimentar e a qualidade de vida da população local, desde que seja conduzida com responsabilidade e planejamento. As políticas públicas precisam abranger tanto os pequenos quanto os médios e grandes produtores”, conclui Felipe Pacheco, pesquisador da Universidade Cornell e primeiro autor do estudo.
A aquicultura tem o potencial de ser um modelo sustentável de produção de alimentos na Amazônia, mas para isso é fundamental que haja políticas ambientais bem estruturadas, monitoramento contínuo e regulamentação eficiente. Com a implementação de boas práticas, a atividade pode se consolidar como uma alternativa viável à pecuária, contribuindo para a preservação do bioma e o desenvolvimento da região.
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