O município de Oriximiná (PA) encabeça a lista com 139 desastres naturais.
A Amazônia Legal vive uma escalada de desastres naturais que desafiam a sobrevivência de comunidades ribeirinhas e costeiras. Os números são alarmantes: de 37 registros em 1995, saltou-se para 1.425 eventos climáticos em 2024 — um aumento de 1.789%, segundo levantamento da InfoAmazonia com base em dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres da Defesa Civil.
Entre os eventos mais recorrentes estão os hidrológicos, como inundações, enxurradas e alagamentos, que representam 64% dos desastres naturais na região. Essa realidade reflete a relação íntima das cidades amazônicas com seus rios. Foram 3.430 ocorrências desse tipo registradas nas últimas três décadas.
O Pará lidera o ranking com 1.147 ocorrências hidrológicas, seguido pelo Amazonas (716), Mato Grosso (541), Maranhão (483) e Tocantins (238). Ainda que estados como Roraima, Acre e Amapá tenham índices mais baixos, a tendência de crescimento é comum a todos.
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O município de Oriximiná (PA) encabeça a lista com 139 desastres naturais. No Amazonas, Manacapuru, a apenas 93 km da capital, teve 37 ocorrências — todas por inundações. Sorriso (MT), por sua vez, se destacou pelos incêndios florestais, somando 61 casos. Eventos como o El Niño, o aquecimento das águas do Atlântico Norte e a Zona de Convergência Intertropical agravam as consequências, alterando o regime de chuvas e ampliando a vulnerabilidade das populações locais.
A Zona Costeira Amazônica, que abrange Amapá, Pará e Maranhão, é considerada área permanentemente de risco. Com topografia baixa e plana, as comunidades convivem com inundações, erosão e invasão salina. A Foz do Amazonas, por onde o rio encontra o oceano, sofre com o avanço das marés, especialmente em períodos de lua cheia.
Segundo Valdenira Santos, geóloga e pesquisadora do IEPA, os efeitos do oceano alcançam até 800 km rio adentro, moldando a vida e os riscos enfrentados pelas populações. “A cada ano, os eventos se intensificam. A erosão, por exemplo, tem avançado de forma preocupante em localidades como o arquipélago do Bailique e a zona costeira de Chaves”, alerta.

Em Chaves (PA), a erosão é o desastre mais frequente. Moradores como Dona Lucivalda Monteiro relatam o recuo de suas casas e a destruição de pontes e escolas. Já no Bailique (AP), o cenário é ainda mais dramático. Entre 2017 e 2023, os eventos de erosão afetaram mais de 1.390 pessoas, destruíram 514 casas e 2.400 metros de passarelas, além de comprometer o abastecimento de água e energia elétrica.
“Já perdemos três fileiras de passarelas, uma escola e dezenas de casas. A comunidade encolheu pela metade em apenas cinco anos”, relata Geová Alves, presidente da Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique. Apesar dos prejuízos materiais, ambientais e humanos — estimados em mais de R$ 39 milhões só no Bailique — a atuação do poder público ainda se concentra na resposta emergencial, como distribuição de cestas básicas e água potável. Não há, porém, dados públicos sobre os investimentos da Defesa Civil do Amapá para mitigação ou prevenção de desastres.

Fotos: Reprodução/Google
Valdenira Santos destaca a necessidade de diagnósticos técnicos, monitoramento com análise de satélites e compreensão hidromorfológica para orientar decisões estruturantes: “Não se pode construir escola em zona de erosão sem saber a força da correnteza ou a composição do solo. Sem ciência, não há prevenção possível.”
A Amazônia clama por políticas públicas integradas, que considerem as particularidades hidrológicas, climáticas e sociais da região. A realidade das comunidades atingidas, sobretudo nas zonas costeiras, reforça a urgência de medidas permanentes que vão além da ajuda emergencial. É preciso investir em resiliência, infraestrutura adaptativa e na valorização dos saberes locais para preservar vidas e ecossistemas.
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