27 de Abril de 2026

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Meio Ambiente - 27/04/2026

Amazônia pode se regenerar mesmo degradada, mas fica muito mais frágil, diz pesquisa

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Foto: Reprodução/Google

Estudo mostra que incêndios, secas e vento intensos reduzem diversidade da floresta

Mesmo após incêndios, secas severas e tempestades de ventos, a vegetação de florestas degradadas na amazônia demonstra alta capacidade de regeneração, incluindo espécies arbóreas. A recuperação, no entanto, ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de diversidade e aumento de vulnerabilidade a novos distúrbios.

 

Pesquisa publicada no último dia 20 na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), uma das revistas científicas mais conceituadas no mundo, mostra que há substituição de espécies vulneráveis por outras generalistas, mais resistentes. Indica, assim, segundo os autores, a formação de florestas homogêneas, mas não uma tendência à savanização, como parte da literatura científica vinha apontando. Esse processo reforça a resiliência do bioma.

 

Por outro lado, o estudo —realizado com base em 20 anos de monitoramento de campo e liderado por brasileiros— destaca que as áreas recuperadas são mais vulneráveis a eventos extremos cada vez mais frequentes no bioma e aos impactos do desmatamento e da mudança climática. Além de intensificar secas e incêndios, o aquecimento global prejudica os serviços ecossistêmicos, como a regulação de água e a captura de carbono.De acordo com os pesquisadores, essa compreensão é fundamental para orientar a conservação florestal e as estratégias de mitigação, especialmente frente a eventos como o El Niño —fenômeno caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial que provoca alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

 

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"A principal mensagem do nosso estudo é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios. Elas são resilientes, mas, mesmo assim, é preciso preservar. No sítio experimental, temos o controle e o fogo não ocorre mais na área, o que não é possível fazer na amazônia toda", pondera o biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do artigo juntamente com o engenheiro florestal Paulo Brando.O trabalho é resultado do pós-doutorado de Maracahipes no IB-Unicamp (Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas). Atualmente, ele é pesquisador na Yale School of the Environment, nos Estados Unidos, e também colaborador do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). O biológo e Brando têm apoio da Fapesp, respectivamente, por meio de bolsa de pós-doutorado e projeto temático.

 

Monitoramento de longo prazo

 

 

 


O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas amazônia e cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada —uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010). Cada uma delas está próxima a áreas agrícolas, que eram utilizadas como pastagem com gramíneas exóticas.

 

"A escolha do lugar é chave, já que modelos climáticos consideram que a região de transição da amazônia para o cerrado será a primeira a sofrer mudanças com os impactos do aquecimento global. Essa pesquisa é inovadora porque integra múltiplos fatores estressantes, como fogo, vento forte e seca, e mostra que a floresta sofreu, se degradou e depois voltou. Mais empobrecida de espécies, porém ainda com características de floresta", explica o ecólogo e professor do IB-Unicamp Rafael Silva Oliveira.Também autor do artigo e supervisor de Maracahipes no pós-doutorado, Oliveira complementa: "Outro ponto importante é que as árvores cresceram e as gramíneas saíram, sem evidência de savanização.

 

Os modelos criados pelos climatólogos foram úteis para alertar sobre os riscos à amazônia, mas simplificaram os ecossistemas tropicais, reduzindo-os à floresta ou à savana. Isso ajudou a fortalecer a ideia de um ‘ponto de não retorno’, ainda pouco sustentada por dados de campo. Na prática, a amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e vulnerabilidades. Ao incorporar esse olhar biológico, mostramos uma amazônia menos previsível e mais resiliente em algumas regiões do que os modelos sugerem". Oliveira também teve apoio da Fapesp por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica.

 

Passo a passo

 

 

 


Os resultados mostraram que, com a suspensão das queimadas, a recuperação da estrutura e do funcionamento da floresta foi rápida em seu interior, com diversidade de espécies relativamente estável. Já nas áreas de borda o processo foi mais lento, com riqueza de espécies caindo de 20% a 46%, entre 2004 e 2024. O efeito de borda é uma alteração ecológica que ocorre nas margens de áreas desmatadas, onde a floresta passa a ter contato direto com ambientes abertos, como pastagens, estradas ou lavouras, alterando o clima e a biodiversidade.

 

Apesar da recuperação de alguns serviços ecossistêmicos, como fluxos de carbono e de água, com o crescimento de vegetação após os incêndios a composição de espécies mudou. Passou a ter mais generalistas, com características de tolerância à seca, mas que estão operando em limiares perigosos. A composição original de espécies não retornou mesmo após 14 anos, principalmente das consideradas especialistas de floresta.

 

As gramíneas foram fator-chave para promover fogos de alta intensidade e impediram a regeneração de árvores, tendo inicialmente se expandido ao longo das bordas. Foram observadas espécies ligadas a áreas de pastagens, como Aristida longifolia e Imperata sp, de origem africana. Após incêndios de alta severidade, gramíneas invasoras, especialmente Andropogon gayanus, entraram nas bordas, atingindo o pico em 2012.

 

 

 

Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, elas foram reduzidas drasticamente, ficando apenas manchas de gramíneas tolerantes à sombra. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana.

 

"Olhando para a parte biológica, quando analisamos a composição de espécies de gramíneas na floresta que passou por distúrbios, vemos que são espécies utilizadas em pastagem, como braquiária e andropogon. Se o aumento fosse de espécies nativas, poderíamos dizer que o componente graminoso seria um fator importante na recuperação de florestas degradadas. Além disso, não há chegada de espécies lenhosas de savana. Nosso sítio experimental está a cinco quilômetros de áreas de savana do cerrado, podendo ter fonte de propagação, e mesmo assim não registramos essa savanização", complementa Maracahipes, que fez análise da composição das espécies ao longo dos anos no local.

 

A pesquisa mostrou ainda que a vulnerabilidade da floresta ao fogo aumenta por causa da casca fina das árvores, enquanto a baixa densidade da madeira prejudica mais em tempestades de vento. Nas secas severas algumas espécies operam próximo ao potencial de perda da condutividade hidráulica. Um ponto que se mostrou importante na regeneração florestal foi a presença de fauna local, sendo mamíferos (como antas e macacos) e aves agentes-chave para promover o reaparecimento de árvores consideradas "especialistas de florestas", ou seja, com alta densidade de madeira e de vida longa.

 

Cenário atual

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 


Mesmo com uma queda significativa do desmatamento na amazônia principalmente nos últimos dois anos, o bioma vem sofrendo com degradações constantes. O fogo tem sido o principal fator. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo. Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o desmatamento na Amazônia Legal afetou uma área de 1.324 km², com uma redução de 35% em comparação ao ciclo anterior (agosto de 2024 a janeiro de 2025). Já a degradação florestal atingiu uma área de 2.923 km² no período.

 
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Nos primeiros três meses de 2026, foi registrado o segundo menor nível para o primeiro trimestre do ano —399,59 km², o que representa queda de cerca de 7% em relação a 2025. Os dados são do Deter, sistema do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) de alerta de desmatamento em tempo real. 

 

Fonte: com informações Folha de São Paulo

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