Segundo a advogada, esse contexto é fruto de um processo contínuo de objetificação da figura feminina, aliado à ausência de políticas de proteção efetivas e à necessidade urgente de uma educação que desconstrua padrões machistas.
No último episódio do Ela Podcast, a advogada criminalista e presidente do Instituto As Manas, Amanda Pinheiro, participou de um diálogo urgente e necessário sobre o aumento dos ataques contra mulheres no Brasil. Questionada sobre os fatores que explicam esse cenário, Amanda destacou que a raiz do problema está na cultura patriarcal que, historicamente, trata a mulher como posse, nega sua autonomia e perpetua ciclos de violência.
Segundo a advogada, esse contexto é fruto de um processo contínuo de objetificação da figura feminina, aliado à ausência de políticas de proteção efetivas e à necessidade urgente de uma educação que desconstrua padrões machistas.
“Infelizmente, ao longo dos anos, a mulher foi tratada como objeto, e não como uma indivídua autônoma de direitos. Isso vem de uma cultura patriarcal e machista, de uma educação que precisamos desconstruir para conscientizar e educar novamente. Nós, mais até que os animais, entendidos como irracionais, somos tratadas dessa forma: como seres que não têm o direito de romper um relacionamento e seguir a vida livre. Ainda hoje, mulheres são mortas pelo sentimento de posse de seus companheiros, que se veem como donos daquela mulher, enxergando-a como objeto de satisfação e não como cidadã plena.”
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Mulheres evangélicas e o silêncio imposto pela doutrina
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Durante a entrevista, trouxemos à tona um aspecto delicado e ainda pouco debatido: a realidade das mulheres evangélicas vítimas de violência doméstica. Amanda ressaltou que muitas permanecem em silêncio devido à influência de dogmas religiosos e à maneira como suas comunidades lidam com os comportamentos abusivos dos homens.
“Há um alto índice de mulheres evangélicas que sofrem violência doméstica, mas que permanecem caladas por conta da doutrinação religiosa, pela maneira como são orientadas a encarar a violência. Já atendi inclusive pastoras que suportaram durante muitos anos esse contexto, acreditando que era necessário pagar um preço, que era preciso suportar. Mas o que vemos é que esses homens não mudam: continuam agredindo, têm relações extraconjugais e, quando chegam a uma idade avançada, doentes e falidos, voltam para casa. E aquela mulher, por devoção e temor, por vezes entende que Deus respondeu sua oração, quando na verdade apenas restou a ela cuidar de um homem que ninguém mais quis. Enquanto isso, deixou de viver sua vida, deixou de experimentar a vida abundante que a própria Bíblia promete em Cristo, permanecendo num ciclo de sofrimento.”
A reflexão evidencia não apenas a crueldade da violência doméstica, mas também como certas interpretações religiosas podem reforçar a submissão e impedir mulheres de buscarem ajuda e libertação.
O trabalho do Instituto As Manas
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Fotos: Divulgação/Portal Mulher Amazônica
Amanda Pinheiro é presidente e fundadora do Instituto As Manas, organização que atua na linha de frente do enfrentamento à violência contra a mulher. O Instituto recebe demandas tanto de forma espontânea — via Instagram e WhatsApp (+55 92 99247-5466) — quanto por encaminhamentos de órgãos como os Juizados Especializados em Crimes contra a Mulher, Delegacias Especializadas, SAP, a Rede de Proteção e a Ronda Maria da Penha, parceira direta da instituição.
As mulheres atendidas recebem suporte jurídico e psicossocial gratuitos, além de acompanhamento psicológico por meio de uma clínica recém-implantada em parceria com redes privadas. Um dos serviços de maior impacto é o acolhimento emergencial, que garante abrigo seguro para mulheres que não possuem rede de apoio e decidem romper com o ciclo da violência. No espaço, elas e seus filhos recebem refeições, acesso a lazer e suporte integral, enquanto a equipe técnica atua para assegurar seus direitos.
Durante o acolhimento inicial de dez dias, são avaliados fatores socioeconômicos e, quando necessário, é solicitado o auxílio aluguel temporário, que pode chegar a seis meses. Além disso, o Instituto orienta sobre medidas previstas na Lei Maria da Penha, incluindo pedidos de pensão alimentícia para os filhos e alimentos provisórios para a mulher — direitos que muitas vítimas desconhecem. “O acolhimento oferece mais do que abrigo físico: é a chance de clarear a mente, de respirar e de começar a enxergar novas possibilidades de vida”, destacou Amanda.
O Portal Mulher Amazônica e o Ela Podcast agradecem a presença de Amanda Pinheiro pela entrevista e pela partilha de experiências e reflexões que fortalecem a luta contra a violência de gênero. Sua trajetória à frente do Instituto As Manas reforça a importância de redes de proteção que acolhem, orientam e devolvem às mulheres o direito de viver com dignidade e liberdade.
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