Logo do gasoduto Nord Stream 2 em canos na regiãos de Chelyabinsk, na Rússia
O chanceler alemão, Olaf Scholz, disse nesta terça-feira que o seu país tomou medidas para interromper o processo de autorização do início da operação do gasoduto Nord Stream 2, que transportaria gás da Rússia até a Alemanha pelo Mar Báltico. Scholz disse a repórteres em Berlim que seu governo tomou a medida em resposta às ações de Moscou na Ucrânia.
O gasoduto foi concluído em setembro e atualmente esperava autorização para entrar em operação. Em dezembro, Putin disse que o gasoduto estava pronto para operar.
O projeto foi muito criticado pelos Estados Unidos e por alguns países europeus, em especial do Leste, que defendiam que a obra aumentaria a dependência da Europa do fornecimento do gás russo. Os EUA também tinham interesse em vender para os europeus seu próprio gás liquefeito.
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Scholz disse que o governo decidiu “reavaliar” a certificação do gasoduto após o governo de Vladimir Putin reconhecer a independência de duas regiões separatistas ucranianas e enviar forças do Exército russo para a área. O chanceler pediu ao Ministério de Economia e Tecnologia que tome as medidas administrativas necessárias para que o gasoduto não possa ser certificado por enquanto.

— Isso parece técnico, mas é a medida administrativa necessária para que não haja certificação do gasoduto. E, sem essa certificação, o Nord Stream 2 não pode começar a operar — disse Scholz a repórteres.
O chanceler condenou a decisão de Putin de reconhecer as autoproclamadas Repúblicas Populares de Luhansk e Donetsk como Estados independentes, classificando-a como uma grave violação do direito internacional.
— A situação esssencialmente mudou.
A sanção é a mais dura retaliação tomada contra a Rússia até agora. Espera-se que Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido também anunciem medidas de punição à Rússia hoje.
Com suas ações no Leste da Ucrânia, Putin não apenas viola os Acordos de Minsk, de 2015, que tratam do fim do conflito entre os separatistas e o Exército ucraniano, mas também a Carta da ONU, que prevê a preservação da integridade territorial e da soberania dos Estados.
Scholz afirmou que, apesar das sanções, também é importante evitar um acirramento ainda maior das tensões
— Uma guerra no Leste ameaça a Europa — disse Scholz, acrescentando que “tal catástrofe deve ser evitada”. — Apelo à Rússia para ajudar com isso.
Fornecimento dobraria

O Nord Stream 2 tem como objetivo dobrar a capacidade de fornecimento de gás russo através do Mar Báltico, em um contexto de crise energética na Europa. Hoje, o primeiro gasoduto Nord Stream, inaugurado em 2011, transporta 55 bilhões de metros cúbicos de gás anualmente para a Alemanha, correspondendo a 49% de todo consumo do combustível no país.
A obra do Nord Stream 2, estimada em US$ 11 bilhões, chegou a ser alvo de sanções dos EUA, mais tarde retiradas pelo presidente Joe Biden. Ela já era criticada por, na visão de Washington, elevar a dependência europeia do gás russo e diminuir a influência da Ucrânia — atualmente, grande parte das importações europeias do gás que vem da Rússia cruza o território ucraniano, e Kiev recebe por isso.
Os social-democratas de Scholz, assim como o governo anterior chefiado pelos democratas cristãos de Merkel, sempre defenderam o gasoduto como uma obra comercial, que deveria ser isolada da política. A dependência alemã da energia movida a gás aumentou depois que o país decidiu acabar com as usinas nucleares, após o desastre de Fukushima, no Japão, em 2011.
Além disso, a Alemanha sempre teve relações mais próximas com a Rússia, sentindo-se herdeira de uma dívida histórica pelas milhões de mortes causadas pela invasão nazista da então União Soviética, que perdeu 26 milhões de civis e soldados na Segunda Guerra Mundial.
O chanceler alemão recebeu críticas por, ao contrário dos Estados Unidos, do Reino Unido e de outros parceiros europeus, inicialmente não ser veemente em suas ameaças de retaliação a Putin. Mas, à medida que as negociações com Putin ficaram mais complicadas, ele se tornou mais duro em suas ameaças de represálias.
Em uma visita de Scholz à Casa Branca na primeira semana de fevereiro, Biden afirmou que uma ação militar russa contra a Ucrânia significaria "o fim" do Nord Stream 2. Na ocasisão, o chanceler alemão não se pronunciou sobre o tema.
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Fotos: Reprodução
O governo alemão só reconheceu que poderia haver sanções envolvendo o Nord Stream 2 na sexta-feira, durante a Conferência de Segurança de Munique, evento anual que discute temas geopolíticos, quando a ministra das Relações Exteriores, Annalena Baerbock, ameaçou abandonar o projeto. O partido de Baerbock, Os Verdes, tem postura mais crítica a Moscou do que os social-democratas de Scholz, com quem formam a atual coalizão de governo junto do Partido Democrático Liberal (FDP).
Além da compra do gás, a Alemanha é a segunda maior parceira comercial da Rússia, atrás apenas da China. Há cerca de 4 mil empresas alemãs na Rússia em operação, e o investimento direto gira em torno de 3 bilhões de euros anuais. Dentro do setor produtivo, há o temor de que eventuais sanções contra a Rússia tenham um impacto devastador — daí a pressão sobre o governo para evitar medidas drásticas.
Fonte: Portal O Globo
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