26 de Maio de 2026

NOTÍCIAS
Segurança Pública - 25/05/2026

Álcool ou drogas estão presentes em 53% das mortes violentas no Brasil

Compartilhar:
Foto: Reprodução/Google

Pesquisadores da USP analisaram amostras de 3.577 vítimas de diferentes regiões do país; 90% eram homens, 56% tinham 30 anos ou mais e 67% morreram por homicídio

Estudo feito na Universidade de São Paulo (USP) constatou que mais da metade (53%) das vítimas de mortes violentas ocorridas em quatro capitais brasileiras apresentavam álcool ou drogas no organismo em análises feitas logo após o óbito. Foram avaliados 3.577 casos em Belém, Recife, Vitória e Curitiba, representando, respectivamente, as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul. Os resultados foram divulgados na revista Toxics.

 

“O objetivo foi produzir dados padronizados e comparáveis sobre o papel de substâncias psicoativas em mortes por causas externas no Brasil”, conta o biomédico toxicologista Henrique Silva Bombana, pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) e primeiro autor do artigo.


As análises laboratoriais incluíram álcool, um conjunto de drogas ilícitas e medicamentos psicoativos, com protocolos padronizados. A equipe também adotou cuidados operacionais para reduzir perdas por degradação. “Principalmente no caso do álcool, se a amostra não for armazenada de maneira adequada, a substância pode se degradar e mascarar o resultado”, explica o pesquisador.

 

Veja também 

 

Prefeitura monta operação especial de trânsito para corridas neste fim de semana em Manaus

Prefeitura de Manaus realiza concurso da Guarda Municipal neste domingo, 24/5

 

“A associação entre a substância e a morte violenta no caso de homicídio é muito complicada, porque a gente está olhando só para a vítima, não está olhando para o agressor. Ainda assim, é possível atribuir a presença elevada de cocaína não apenas ao uso agudo da substância, mas ao contexto social e econômico em que opera o mercado ilegal, ao ambiente de tráfico, venda e compra que caracteriza o que chamamos de violência estrutural”, argumenta Bombana.

 

Bombana conta que o estudo foi viabilizado a partir de um convênio firmado em 2020 entre a USP e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) para fazer o mapeamento da relação entre uso de álcool e drogas e mortes violentas. As quatro capitais foram escolhidas pela combinação de dois critérios: magnitude do problema e relevância estratégica.

 

“Essas cidades foram selecionadas com base na taxa de mortalidade por causas externas e por serem pontos estratégicos da rota de tráfico de droga”, explica o pesquisador. A escolha levou em conta também o papel do país como corredor de circulação internacional: “Muitas vezes a droga vem de outros países e passa pelo Brasil para ser distribuída para os Estados Unidos, Europa, África”. A coleta ocorreu entre 2022 e meados de 2024. “Montamos e treinamos equipes de quatro pesquisadores em cada uma dessas cidades para colher amostras de sangue durante necrópsias. Esse material era congelado e enviado para o nosso laboratório na USP, onde tínhamos uma equipe de cinco pesquisadores para fazer as análises”, explica Bombana.

 

Homens são maioria

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

O perfil das vítimas reflete a face mais recorrente da mortalidade violenta no país: 90% eram homens, 56% tinham 30 anos ou mais e 67% morreram por homicídio. Esse último dado é especialmente relevante quando comparado aos percentuais de morte por acidentes de trânsito (15%) e suicídios (9%). No Norte e Nordeste, a porcentagem maior foi de indivíduos caracterizados como “pardos”, segundo a nomenclatura adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto no Sudeste e Sul a maioria foi composta por “brancos”.

 

Entre todas as vítimas, 53% testaram positivo para ao menos uma substância psicoativa. As mais detectadas foram: cocaína (30%), álcool (28%), benzodiazepínicos (7%) e cannabis (2%). “O predomínio da cocaína foi muito expressivo nos casos de homicídios, enquanto o álcool foi a substância mais detectada em mortes por acidentes de trânsito. Os benzodiazepínicos prevaleceram em suicídios”, relata Bombana. A presença de álcool em mortes no trânsito é um problema antigo no país. “O tema vem sendo discutido há pelo menos 30 anos, sem que se tenha obtido uma solução. A legislação é bem robusta, mas o que falta talvez seja um controle maior sobre a comercialização do álcool. Alguns países têm regras bem mais rigorosas e restritivas para a venda”, pondera.

 

O mapa das ocorrências fatais não é uniforme. Há diferenças de padrão entre as quatro capitais estudadas: Recife com prevalência de mortes associadas ao álcool (sozinho ou combinado); Vitória e Belém com maior concentração de mortes associadas ao uso de drogas ilegais (sem álcool); e Curitiba com o álcool preponderando sobre as drogas ilegais. “O Brasil tem dimensões continentais e cada cidade apresenta especificidades sociais, culturais, sanitárias e de segurança. O padrão de uso de substâncias reflete essas especificidades”, comenta Bombana. Para o pesquisador, essa heterogeneidade deve orientar intervenções sob medida, subsidiando políticas públicas focadas na realidade de cada cidade ou região.

 
Curtiu? Siga o Portal Mulher Amazônica no Facebook, Twitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram.
 

Embora ressalte não ser um especialista em políticas públicas, Bombana defende que o enfrentamento do problema tende a ser mais efetivo quando centrado em saúde pública e redução de danos e não em repressão. “Talvez a política criminalizadora, a chamada ‘guerra às drogas’, não seja a melhor opção. Portugal descriminalizou e viu diminuição no número de usuários, de pequenos delitos, de homicídios e de overdoses. As diferenças entre Portugal e o Brasil são enormes, é claro. A começar pelos tamanhos dos territórios e das populações. Ainda assim, o exemplo português sugere que uma política de redução de danos talvez seja o caminho mais interessante.” O estudo foi conduzido pelo grupo “Álcool, Drogas e Violência” da Faculdade de Medicina (FM) da USP, coordenado por Bombana e pela professora Vilma Leyton, que também assina o artigo, e recebeu apoio da FAPESP por meio de Bolsa de Pós-Doutorado concedida a Bombana. 

 

Fonte: com informações Acrítica

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Email:

Mensagem:

LEIA MAIS
Fique atualizada
Cadastre-se e receba as últimas notícias da Mulher Amazônica

Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.