12 de Maio de 2026

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manchete - 12/05/2026

ABORTO PATERNO E SOBRECARGA MATERNA: A FACE MAIS SILENCIOSA DA DESIGUALDADE DE GÊNERO NO BRASIL

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Foto: Reprodução/Google

Uma ausência que não deixa marcas visíveis imediatas, mas produz impactos duradouros na vida de mulheres e crianças.

A ausência paterna ainda é tratada, muitas vezes, como um detalhe da vida privada. Mas por trás desse silêncio existe um fenômeno mais profundo, que especialistas têm chamado de “aborto paterno”: a ruptura contínua e deliberada da paternidade em suas dimensões afetiva, moral, intelectual e financeira.

 

Mais do que a falta de pagamento de pensão, trata-se de um abandono que se instala no cotidiano. Um pai que não participa, não convive, não educa e não se responsabiliza. Uma ausência que não deixa marcas visíveis imediatas, mas produz impactos duradouros na vida de mulheres e crianças.

 

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Uma ausência que se normalizou

 

 


Historicamente, a sociedade construiu a figura masculina como provedora eventual, distante das tarefas de cuidado. Esse modelo, herdado de estruturas patriarcais, ajudou a naturalizar a ausência paterna, enquanto a maternidade foi transformada em obrigação total.

 

O resultado é uma equação desigual: a omissão do pai tende a ser relativizada, enquanto a mulher é socialmente pressionada a suprir todas as lacunas. Essa lógica não é apenas cultural. Ela produz efeitos concretos, inclusive no campo jurídico, onde ainda há desafios na responsabilização efetiva do genitor ausente.

 

Quando a maternidade vira sobrecarga

 

 


A consequência mais imediata do abandono paterno é a sobrecarga materna. E ela vai muito além do acúmulo de tarefas.


Trata-se de uma experiência marcada por:


• responsabilidade financeira integral;
• trabalho invisível do cuidado;
• pressão social por perfeição materna;
• exaustão física e emocional;
• solidão na tomada de decisões.


Essa sobrecarga não é apenas quantitativa. Ela exige da mulher um estado constante de alerta, muitas vezes à custa da própria saúde mental.

 

Impactos que começam na infância

 

 


A ausência paterna também afeta diretamente o desenvolvimento das crianças. Estudos da psicologia do desenvolvimento, como os de John Bowlby e Donald Winnicott, apontam que vínculos consistentes são fundamentais para a construção da autoestima e da segurança emocional.


Quando esse vínculo é rompido ou inexistente, podem surgir:


• sentimento de rejeição e abandono;
• dificuldades escolares;
• problemas de comportamento;
• insegurança afetiva;
• dificuldade de estabelecer relações na vida adulta.


Em muitos casos, o abandono não termina em uma geração. Ele se repete.

 

Uma violência que não se vê, mas se sente

 

 


O chamado aborto paterno é considerado uma forma de violência estrutural e simbólica. Estrutural porque nasce de padrões sociais que ainda toleram a irresponsabilidade masculina. Simbólica porque invisibiliza o sofrimento de mães e filhos. Essa violência se perpetua por meio de discursos que exaltam a “mãe guerreira”, enquanto silenciam a ausência do pai.

 

O que diz a lei 


No Brasil, o abandono afetivo vem sendo reconhecido pela Justiça como violação aos deveres da paternidade. A ausência injustificada de cuidado e convivência pode gerar responsabilização civil. Os fundamentos estão na Constituição Federal e em legislações como:


• Código Civil;
• Estatuto da Criança e do Adolescente.


Essas normas estabelecem que o pai tem deveres claros: sustento, educação, convivência e cuidado.


Mais do que uma falha moral, a omissão pode ser considerada um ilícito jurídico.

 

Quando o abandono empurra mulheres para a pobreza

 

 


A maternidade solo, muitas vezes consequência direta da ausência paterna, está ligada a um fenômeno maior: a feminização da pobreza.


Sem apoio, muitas mulheres:


• reduzem sua participação no mercado de trabalho;
• enfrentam jornadas duplas ou triplas;
• têm renda menor e menos estabilidade;
• ficam mais vulneráveis economicamente.

 

A ausência do pai, nesse contexto, não é apenas emocional. É também um fator de desigualdade social.

 

O mito da mãe forte

 


A imagem da mulher que “dá conta de tudo” costuma ser celebrada. Mas essa narrativa esconde uma realidade dura. A chamada mãe forte não surge por escolha heroica. Surge por necessidade. Ao romantizar essa força, a sociedade desloca o foco do problema e deixa de questionar a ausência paterna. A dor vira mérito. O abandono vira invisível.

 

Um debate que precisa sair do silêncio 


Discutir o aborto paterno é, acima de tudo, romper com uma naturalização histórica. É reconhecer que a parentalidade não é opcional e que o cuidado não pode ser delegado integralmente a um único responsável. Mais do que responsabilizar indivíduos, o debate aponta para a necessidade de mudanças culturais, jurídicas e sociais.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

Fotos: Reprodução/Google


Para o Portal Mulher Amazônica, o chamado aborto paterno expõe uma das faces mais silenciosas da desigualdade de gênero no Brasil. A ausência do pai não pode continuar sendo tratada como algo comum ou aceitável. Ela gera impactos profundos na vida das mulheres, que assumem sozinhas responsabilidades que deveriam ser compartilhadas, e compromete o desenvolvimento emocional e social de crianças e adolescentes.

 
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O portal defende que é urgente romper com a romantização da maternidade sacrificada e fortalecer a ideia de parentalidade responsável. Isso passa por educação, políticas públicas eficazes e, principalmente, por uma mudança cultural que não tolere mais a omissão masculina. Nenhuma mulher deveria ser obrigada a ser forte o tempo todo. E nenhuma criança deveria crescer aprendendo que o abandono é normal.


Fontes:
HIRONAKA, Giselda. Responsabilidade civil e abandono afetivo. Revista dos Tribunais
Constituição Federal de 1988
Estatuto da Criança e do Adolescente
 

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