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Inspiração Amazônica - 24/09/2021

A mulher amazônica na visão de uma dama de Boston do século XIX

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Foto: Reprodução

Elizabeth Agassiz, em Viagem ao Brasil: 1865-1866

“Quando, acabado o trabalho, ela veste por cima de sua saia escura uma camisa branca uma tanto folgada, deixando aparecer seus ombros morenos e enfia nos seus cabelos de azeviche uma rosa ou um galho de jasmim, o aspecto de toda a sua pessoa não deixa de ter sua sedução. Deve-se convir, porém, que o cachimbo, que ela tem o hábito de fumar à noite, prejudica um pouco o efeito geral.” Elizabeth Agassiz, em Viagem ao Brasil: 1865-1866, referindo-se a Esperança, uma índia que lhe abrigava no Pará.

 

Elizabeth Agassiz – ‘Lizzie’ para os íntimos – era uma mulher de sua época. Americana de Boston, nascida em 1822, casou-se abril de 1850 com o naturalista suíço Louis Agassiz, tornando-se parte ativa na sua vida profissional, ajudando na organização das expedições e na edição do material publicado.

 

Entre 1865 e 1866, seu marido chefiou a expedição Thayer, que foi do Rio de Janeiro ao Amazonas com uma equipe de 12 pessoas, composta de geólogos, desenhista, ornitólogo, taxidermista e assistentes.

 

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Os escritos de Elizabeth Agassiz sobre a Amazônia demonstram o contraste entre as imagens das mulheres locais – índias e mestiças, habitantes de um mundo diferente e desconhecido – e a sua própria condição de mulher e ‘civilizada’. Os capítulos IV ao XI de Viagem ao Brasil, nos quais está documentada a passagem da expedição Thayer pelas províncias do Pará e Amazonas, trazem importantes referências sobre a vida feminina na região, questão relegada a segundo plano em outros registros.

 

Este é o foco do artigo “Brincos de ouro, saias de chita”: mulher e civilização na Amazônia segundo Elizabeth Agassiz em Viagem ao Brasil (1865-1866), de Fabiane Vinente dos Santos, publicado em HCS-Manguinhos (vol.12 no.1 Jan./Apr. 2005).

 

 

Segundo a autora, em uma época em que o controle dos corpos e da intimidade era regra, na Amazônia as índias e mestiças aparecem no relato dos Agassiz como portadoras de um grau diferenciado de autonomia, trabalhando na roça sozinhas durante o dia, deslocando-se de canoa pelos igarapés, movimentando-se e trabalhando sem a supervisão dos homens.

 

(Fotos: Reprodução)

 

Esta situação, entretanto, não conflui para a institucionalização de um sentido de equanimidade entre os sexos. “A mulher, como se pode perceber durante vários trechos do relato, ainda é o elemento submisso da sociedade amazônica, embora esta submissão possua nuanças diferenciadas”, afirma Fabiane.

 

Ela conta que a Elizabeth Agassiz se impressionava com a atenuação de restrições sociais relativas ao comportamento sexual, como no caso das mães solteiras: “Enquanto nas cidades ter um filho sem pai poderia representar um escândalo capaz de comprometer a reputação de uma família inteira, entre as índias é com assombro que a cronista constata o que julga como ausência do conhecimento ‘das leis mais elementares da moral’.”

 

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Segundo Fabiane, “o sentido ocidental de moral que baliza as observações da dama bostoniana em vários trechos de seu relato é apresentado como condição sine qua non para o êxito do projeto civilizatório nos trópicos.” Elizabeth Agassiz foi a primeira presidente do Radcliff College, fundado em 1894 como instituição anexa à Universidade de Harvard e destinado à formação de mulheres.

 

Fonte: HCS Manguinhos

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