28 de Junho de 2026

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Comportamento - 28/06/2026

A força da lealdade masculina: por que homens defendem homens?

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Foto: ReproduçãoGoogle

A ciência tem investigado esse fenômeno e aponta que a resposta envolve mecanismos psicológicos, sociais e culturais.

Quando um homem protege outro homem diante de uma denúncia, minimiza uma atitude machista ou questiona a palavra de uma mulher, o comportamento não surge apenas de uma escolha individual. Pesquisas nas áreas da psicologia social, sociologia e estudos de gênero mostram que grupos tendem a preservar seus próprios códigos de pertencimento, mesmo quando isso significa ignorar ou relativizar comportamentos prejudiciais.

 

Durante séculos, sociedades foram organizadas a partir de estruturas em que homens ocupavam posições predominantes de poder político, econômico e familiar. Esse modelo não apenas criou desigualdades entre homens e mulheres, mas também estabeleceu formas específicas de solidariedade masculina, nas quais proteger outro homem muitas vezes foi associado a lealdade, honra e pertencimento.

 

Mas por que, em determinadas situações, alguns homens defendem outros homens mesmo diante de evidências de violência, abuso ou atitudes discriminatórias? A ciência tem investigado esse fenômeno e aponta que a resposta envolve mecanismos psicológicos, sociais e culturais.

 

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A necessidade de pertencer ao grupo

 

 

A psicologia social demonstra que os seres humanos possuem uma tendência natural de criar grupos de pertencimento. A chamada teoria da identidade social, desenvolvida pelos pesquisadores Henri Tajfel e John Turner, explica que as pessoas constroem parte da própria identidade a partir dos grupos aos quais pertencem.

 

Isso significa que uma crítica direcionada a um membro do grupo pode ser percebida, em algumas situações, como uma ameaça ao próprio grupo. No contexto masculino, essa dinâmica pode aparecer quando um homem interpreta uma acusação contra outro homem como um ataque à "categoria masculina" em vez de analisar o comportamento individual daquele sujeito.

 

O resultado pode ser uma defesa automática: "ele não faria isso", "estão exagerando", "todo mundo está contra os homens". A reação deixa de ser sobre a conduta investigada e passa a ser sobre proteger uma identidade coletiva.

 

O chamado "pacto masculino"

 

 

Pesquisadores dos estudos de masculinidades discutem a existência de normas sociais que incentivam homens a proteger a imagem de outros homens, especialmente dentro de determinados grupos. O sociólogo Raewyn Connell, uma das principais referências nos estudos sobre masculinidades, explica que algumas formas de masculinidade são construídas a partir de hierarquias e expectativas sociais: força, controle emocional, autoridade e domínio.

 

Dentro desse modelo, admitir que outro homem praticou uma violência pode ser interpretado como uma ameaça à ideia de que homens são naturalmente protetores, justos ou racionais. Por isso, algumas comunidades masculinas desenvolvem mecanismos de defesa do grupo: silêncio, relativização, mudança de foco ou questionamento da vítima.

 

Quando a amizade pesa mais que os fatos

 

 

Um dos fenômenos estudados pela psicologia é o chamado viés de grupo. Ele ocorre quando indivíduos tendem a favorecer pessoas com quem possuem identificação ou vínculo. Pesquisas sobre cognição social mostram que as pessoas frequentemente avaliam membros do próprio grupo de maneira mais positiva e interpretam seus erros como exceções, enquanto podem julgar com mais rigor aqueles considerados externos ao grupo.


Isso ajuda a explicar por que, em alguns casos, um homem pode exigir provas extraordinárias quando uma mulher denuncia outro homem, mas aceitar rapidamente a versão de um amigo ou colega. Não necessariamente porque possui todas as informações, mas porque existe uma relação emocional e identitária envolvida.

 

A cultura da masculinidade e o medo de romper com o grupo

 

 

A pesquisadora Michael Kimmel, referência nos estudos sobre homens e masculinidades, analisa como muitos homens são socializados em ambientes onde demonstrar solidariedade com outros homens é visto como uma demonstração de lealdade. Nesse contexto, um homem que questiona outro homem pode ser interpretado pelo grupo como alguém que "trai" a própria categoria.

 

Esse mecanismo ajuda a compreender por que alguns homens permanecem em silêncio diante de comentários machistas, comportamentos abusivos ou situações de violência. O silêncio, nesses casos, não é ausência de posicionamento. Ele pode funcionar como uma forma de manutenção da norma existente.

 

O efeito da ameaça ao privilégio

 

 

Pesquisas sobre preconceito e relações de poder também mostram que grupos que historicamente ocuparam posições privilegiadas podem reagir defensivamente quando essas posições são questionadas. A psicóloga social Jennifer Richeson pesquisa como pessoas podem apresentar respostas defensivas diante de discussões sobre desigualdade e identidade social.

 

No campo das relações de gênero, isso significa que alguns homens podem interpretar avanços femininos, denúncias ou críticas ao machismo não como uma busca por igualdade, mas como uma perda de espaço ou autoridade. A defesa de outro homem, nesse cenário, pode representar uma tentativa inconsciente de preservar uma ordem social conhecida.

 

Mas todos os homens defendem homens?

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Não. É importante diferenciar comportamentos individuais de padrões culturais. Muitos homens questionam atitudes machistas, apoiam mulheres vítimas de violência e participam da construção de relações mais igualitárias. A própria pesquisa sobre masculinidades mostra que existem diferentes formas de ser homem. Algumas reproduzem padrões de dominação; outras rompem com esses modelos e valorizam cuidado, responsabilidade e igualdade. O ponto central não é afirmar que homens naturalmente protegem homens, mas compreender como determinadas estruturas sociais podem incentivar essa proteção quando ela serve para preservar privilégios ou evitar conflitos dentro do grupo.

 

A mudança começa quando homens responsabilizam outros homens

 

Estudos sobre prevenção da violência de gênero indicam que a participação masculina é fundamental para transformar normas culturais. Quando homens questionam piadas machistas, confrontam comportamentos abusivos de amigos e reconhecem a gravidade de determinadas atitudes, eles alteram o padrão de silêncio e cumplicidade. A defesa automática de outro homem deixa de ser vista como lealdade quando impede que exista responsabilização. A verdadeira solidariedade não está em proteger alguém de qualquer consequência, mas em construir relações em que respeito e responsabilidade sejam valores mais fortes do que a preservação de uma imagem coletiva.

 

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Discutir por que homens defendem homens não significa criar uma oposição entre homens e mulheres. Significa analisar como culturas, grupos e relações de poder influenciam comportamentos humanos. Questionar mecanismos de proteção automática dentro de qualquer grupo é uma forma de fortalecer uma sociedade onde vínculos não sejam construídos pelo silêncio, mas pela capacidade de reconhecer erros, responsabilizar atitudes e defender princípios de justiça. A transformação das relações de gênero passa também pela coragem masculina de interromper ciclos de cumplicidade e pela compreensão de que proteger um grupo nunca deve significar abandonar a verdade.

 

Fontes:
CONNELL (1995) – Masculinities
KIMMEL (2008) – Guyland
TAJFEL; TURNER (1979) – Teoria da Identidade Social 

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