A sub-representação dessas mulheres não é resultado da falta de interesse ou preparo, mas de um sistema político historicamente construído para favorecer homens brancos, cisgêneros e heterossexuais.
A política brasileira ainda é um espaço profundamente desigual. Quando gênero, raça, etnia, orientação sexual e identidade de gênero se cruzam, as barreiras se multiplicam. Mulheres negras, indígenas e LGBTQIA+ seguem sendo minoria nos espaços de poder, enfrentando não apenas o machismo estrutural, mas também racismo, lesbofobia, bifobia e transfobia — muitas vezes de forma simultânea.
A sub-representação dessas mulheres não é resultado da falta de interesse ou preparo, mas de um sistema político historicamente construído para favorecer homens brancos, cisgêneros e heterossexuais.
Veja também

Quando uma mulher está na política, a democracia muda
Os números da exclusão

Joenia Wapichana, deputada federal
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) evidenciam a distância entre a diversidade da sociedade brasileira e sua representação política:
• Mulheres ocupam cerca de 18% das cadeiras legislativas no país.
• Mulheres negras representam aproximadamente 5,7% do Congresso Nacional, embora sejam mais de 28% da população brasileira.
• Mulheres indígenas seguem sendo exceção: até 2022, apenas uma mulher indígena ocupava uma cadeira na Câmara dos Deputados.
• Mulheres LGBTQIA+ eleitas não chegam a 1% dos cargos eletivos no Brasil, concentradas majoritariamente em câmaras municipais.
Os dados confirmam que quanto mais interseccionais são as identidades, menores são as chances de acesso ao poder institucional.
Barreiras múltiplas: racismo, lesbofobia e transfobia
Mulheres negras enfrentam racismo institucional, menor acesso a financiamento de campanha, violência política racializada e constantes tentativas de deslegitimação de sua capacidade política.
Mulheres indígenas lidam com:
• Invisibilização histórica de seus povos;
• Racismo estrutural e institucional;
• Barreiras territoriais e linguísticas;
• Hostilidade política ao defender direitos ambientais e territoriais.
Mulheres LGBTQIA+, especialmente lésbicas e mulheres trans, enfrentam ataques morais, religiosos e violência política direta — muitas vezes acompanhada de ameaças à integridade física. Para mulheres trans, o cenário é ainda mais grave, considerando que o Brasil segue liderando rankings globais de violência letal contra pessoas trans.
O recorte amazônico: lideranças indígenas que resistem e constroem política

Erika Hilton, deputada federal
Na Amazônia, a exclusão política de mulheres indígenas é ainda mais acentuada, apesar de elas ocuparem posições centrais na defesa da floresta, dos territórios e dos modos de vida tradicionais. Lideranças femininas indígenas atuam há décadas em associações comunitárias, organizações de base, conselhos locais e movimentos socioambientais, mas raramente conseguem acessar cargos eletivos.
Exemplos como Joenia Wapichana, deputada federal por Roraima, e Sônia Guajajara, atual ministra dos Povos Indígenas, evidenciam o caráter excepcional dessas trajetórias. No Amazonas, mulheres de povos como Tikuna, Kokama, Sateré-Mawé, Yanomami e Munduruku denunciam a ausência de apoio partidário, a falta de recursos, o racismo político e a violência institucional como entraves permanentes à participação formal. Ainda assim, essas lideranças seguem organizando suas comunidades e reafirmando que, para os povos indígenas amazônicos, a política começa no território — mesmo quando o Estado insiste em não reconhecê-las.
Ocupar é resistir: trajetórias que rompem o sistema
Apesar das múltiplas barreiras, mulheres interseccionais seguem rompendo o bloqueio histórico da política institucional. A deputada federal Joenia Wapichana (Rede-RR) é a primeira mulher indígena eleita para o Congresso Nacional e referência na defesa dos direitos dos povos originários e da demarcação de terras indígenas.
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), mulher trans negra, eleita em 2022, tornou-se uma das vozes mais visíveis na luta contra a transfobia, o racismo e a violência política de gênero no Parlamento. Antes disso, foi a vereadora mais votada da cidade de São Paulo em 2020, trajetória que reforça a legitimidade de sua atuação nacional. A deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), mulher negra e lésbica, denuncia de forma recorrente ataques misóginos, racistas e lesbofóbicos, evidenciando como a política ainda reage com violência à presença de mulheres fora do padrão hegemônico. Essas trajetórias demonstram que, para essas mulheres, ocupar espaços de poder é um ato permanente de resistência.
Ações afirmativas e redes de apoio

Talíria Petrone, deputada federal
Avanços institucionais recentes incluem:
• Cotas de financiamento eleitoral por gênero e raça;
• Redes de apoio a candidaturas negras, indígenas e LGBTQIA+;
• Observatórios de violência política de gênero e raça;
• Coletivos feministas, antirracistas e LGBTQIA+ atuando na formação política.
Especialistas alertam, no entanto, que sem fiscalização rigorosa e punição efetiva aos partidos, as ações afirmativas correm o risco de permanecer apenas no papel, sem impacto estrutural real.
Democracia ainda incompleta
Estudos nacionais e internacionais indicam que parlamentos mais diversos:
• Produzem políticas públicas mais inclusivas;
• Fortalecem os direitos humanos;
• Ampliam a participação cidadã;
• Representam melhor as realidades sociais.
A exclusão sistemática de mulheres negras, indígenas e LGBTQIA+ dos espaços de decisão fragiliza a democracia e perpetua desigualdades históricas.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

Fotos: Reprodução/Google
Para o Portal Mulher Amazônica, falar de interseccionalidade não é um conceito acadêmico — é um compromisso político, ético e social. Não há democracia real enquanto mulheres negras, indígenas e LGBTQIA+ continuarem sendo tratadas como exceção, toleradas apenas em momentos simbólicos e afastadas dos espaços reais de decisão.
Na Amazônia, essa exclusão ganha contornos ainda mais graves, pois silencia mulheres que protegem a floresta, os territórios e a vida coletiva. Garantir a presença dessas mulheres na política é garantir que decisões sobre o país sejam tomadas com justiça, diversidade e responsabilidade histórica. Ocupar o poder não pode ser um privilégio. É um direito. E o Portal Mulher Amazônica seguirá denunciando desigualdades, amplificando vozes silenciadas e defendendo uma democracia que só será plena quando todas as mulheres puderem decidir os rumos do Brasil.
Fontes:
Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc)
Observatórios de gênero, raça e democracia
Relatórios de organizações LGBTQIA+
ONU Mulheres
Câmara dos Deputados — perfis parlamentares
Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.