Nos conselhos de administração, elas representam apenas 0,4%. Em cargos de CEOs, nenhuma mulher com deficiência está à frente de grandes corporações brasileiras.
Trajetórias de mulheres em posições de alto comando expõem tanto conquistas históricas quanto o longo caminho que o mercado corporativo ainda precisa percorrer para garantir inclusão real. Um levantamento do Instituto Ethos, de 2024, mostra que apenas 0,2% da alta liderança nas 1.100 maiores empresas do Brasil é ocupada por mulheres com deficiência. Nos conselhos de administração, elas representam apenas 0,4%. Em cargos de CEOs, nenhuma mulher com deficiência está à frente de grandes corporações brasileiras.
A história da médica Daniela Bortman, tetraplégica desde os 23 anos, sintetiza a força necessária para vencer não apenas as barreiras físicas, mas sobretudo as barreiras institucionais e culturais. Impedida de voltar à faculdade após o acidente, precisou recorrer à Justiça para garantir o direito de concluir o curso de medicina — tornando-se a primeira pessoa tetraplégica a se formar médica no país. Hoje, como head de medicina ocupacional da Bayer, Daniela é um dos raros nomes que rompeu a bolha estatística. “A carreira só existe quando há condições de desenvolver potencial. Inclusão não é baixar a régua, é garantir que todos tenham meios de entregar o melhor que podem”, afirma.
Outras executivas também transformam a própria trajetória em espaço de mudança. Daniela Sagaz, head de Diversidade, Equidade e Inclusão da Mondelez Brasil, nasceu com deficiência física no braço e construiu carreira internacional em Recursos Humanos. Chegar a cargos de liderança fez nascer um compromisso: “Quero mostrar que não estamos aqui por cotas. Estamos porque entregamos resultados e podemos transformar empresas”.
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A diretora de remuneração e benefícios da Nestlé Latam, Katia Regina, também viveu um ponto de inflexão. Sobreviveu a uma tentativa de feminicídio aos 40 anos, que a deixou paraplégica. A tragédia a conduziu a uma reconstrução pessoal e profissional que, hoje, repercute em políticas internas e na defesa da inclusão nos espaços decisórios. “Sou a primeira pessoa com deficiência que conheço, em cadeira de rodas, ocupando uma posição como a minha. Quem chega à liderança tem o dever de construir pontes”, afirma.

No setor de tecnologia, Isa Meirelles, líder de estratégia de comunicação interna do Google Brasil, carrega desde a infância as marcas visíveis de uma deficiência que se tornou parte fundamental da sua identidade profissional. “Ninguém nunca me deixou ser tímida. Transformei o holofote inevitável em habilidade.” Ela hoje atua para que comunicação e acessibilidade caminhem juntas no ambiente corporativo.
No mercado financeiro, Ana K Melo foi a primeira pessoa com deficiência a se tornar sócia da XP Inc. e a assumir uma cadeira totalmente dedicada à diversidade. Depois de perder uma perna aos 18 anos, ouviu ainda no hospital que poderia “se aposentar”. Em resposta, construiu uma das trajetórias mais influentes do país na pauta. “Sem representatividade, cancelamos possibilidades. Não por falta de capacidade, mas por falta de horizonte.”

Essas histórias se somam a nomes como Mirella Prosdócimo, Lisandra Alcebíades e Eliana Ranieri, pioneiras que abriram espaço em áreas técnicas e na liderança de multinacionais décadas antes do tema ganhar visibilidade. Os estudos que embasam essa discussão reforçam que diversidade não é apenas uma pauta social — é também estratégia de negócios. Pesquisas da McKinsey e da Accenture mostram que empresas diversas são mais lucrativas, mais inovadoras e mais eficientes. Ainda assim, a inclusão de pessoas com deficiência permanece limitada a cargos de base. Segundo o Radar da Inclusão 2024, 63% desses profissionais nunca foram promovidos ao longo da carreira.
As barreiras vão além da estrutura física. O maior obstáculo, apontam as executivas, é a acessibilidade atitudinal: a forma como líderes e equipes enxergam capacidades, ajustam expectativas e compreendem que inclusão não é apenas abertura de vagas, mas promoção de desenvolvimento. No futuro próximo, as projeções ainda são tímidas. A equidade de gênero levará mais de um século; a inclusão de pessoas com deficiência, ainda mais. No entanto, transformações demográficas — como o envelhecimento da população — podem acelerar o debate sobre capacitismo e etarismo simultaneamente.

Fotos: Reprodução/Google
Até lá, o trabalho dessas líderes continua sendo fundamental. Abrir portas, criar oportunidades, formar equipes diversas e, sobretudo, garantir que mulheres com deficiência possam sonhar com lugares onde antes sequer se imaginavam. Como resume Katia Regina: “Não espere o mundo mudar para se posicionar. Comece por você. A mudança sempre precisa de alguém que tenha coragem de puxar a fila.”
Fontes:
Instituto Ethos (2024)
Radar da Inclusão – Talento Incluir (2024)
McKinsey & Company – Women in the Workplace (2023)
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