A escritora, de 51 anos, narra que de 11 aos 14 anos sofreu assédios sucessivos em um famoso consultório do Rio.
Nasci em em uma família tradicional do Rio. Sou a primogênita de cinco irmãos. Éramos uma verdadeira escadinha, morávamos numa ampla casa no Cosme Velho. Eu estudava numa escola bilíngue, viajava duas vezes ao ano ao lado da família, frequentava o Country Club. Tínhamos babás, motorista, jardineiro, arrumadeira, dinheiro não era problema. O que poderia dar errado na minha vida? Na verdade, vivia blindada e sem contato com a realidade. Do portão para fora, não sabia absolutamente nada. Era uma menina indefesa e alienada.
Quando completei 11 anos, o dentista de confiança da família disse que eu precisava usar aparelho nos dentes e indicou para a minha mãe o bambambã da ortodontia da cidade. Ela marcou e me levou à primeira consulta, que, mesmo para os meus olhos infantis, pareceu-me estranha. O tal ortodontista, que tinha cerca de 30 e poucos anos, era casado e tinha filhos, comportava-se com uma intimidade desconcertante, tinha uma voz rouca e exercia uma estranha sedução. Da segunda sessão em diante, compareci sem pai, mãe ou qualquer acompanhante.
Logo na segunda vez, ele começou a agir: me deu um beijo bem perto dos lábios, encheu a boca para dizer que eu era linda, me abraçou bem rente ao seu corpo. Como silenciei, sentiu-se livre para avançar. Ao longo dos anos, o padrão se repetiu e se intensificou. Passou a me colocar no seu colo, fazia várias fotos minhas com a desculpa de que eram necessárias para o aparelho, usava uma calça branca superapertada em que era possível eu observar seu contorno e escorregava o braço sobre o meu peito.
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Eu, que estava despertando para a sexualidade, achava-me a escolhida, acreditava que havia um adulto interessado amorosamente por mim. Por ele representar o príncipe encantado e uma figura paterna, cedi a uma relação doentia que, na época, enxergava como amor. Não tinha a menor ideia de que estava sendo vítima de um ato cruel. Na minha fantasia de criança, ele era o meu namorado. Sentia ciúmes de sua filha, que era da minha idade. Apaixonei-me pelo meu abusador, um perverso.
Depois de quatro anos, com quase 15, eu queria mais intimidade, mas ele não me dava. O tratamento que duraria dois anos se estendia sem ter fim. Um dia, depois de uma consulta, cheguei em casa, fui ao banheiro da minha mãe, peguei um alicate de unha e arranquei o aparelho com fúria. Queria me libertar daquela prisão. Machuquei-me. Ao regressar ao consultório, ele entendeu o recado e me mandou embora sem questionar.
A vida seguiu sem eu me dar conta do que havia vivido. Tive um primeiro namorado, da minha idade, que, por outros motivos, também foi abusivo. Formei-me em Jornalismo e dos 25 aos 30 morei na Alemanha, na Espanha e nos Estados Unidos.

Com cerca de 26 anos, recebi um telefonema de uma familiar, cuja filha também tinha sido indicada para o tal ortodontista. Ela me contou que, ao contrário de mim, a menina revelou que foi abusada, e a mãe reagiu.
Ela me disse, pela primeira vez, o que ele era: um pedófilo. Mesmo assim, as armadilhas da mente são muitas. Eu não conseguia acessar aquele lugar, ainda não estava consciente. De volta ao Brasil, casada e já mãe, iniciei a psicanálise. Numa sessão de terapia, subitamente, fui surpreendida por uma enxurrada de detalhes, memórias, sensações sobre aqueles episódios, até então, bloqueados. Até que meu psicanalista me interrompeu e perguntou: ‘Você tem noção de que foi vítima de um pedófilo?’. Diante do diagnóstico, parecia que tinha saído de um coma longo e profundo. Passei a falar sobre o assunto com amigos e colegas de trabalho (na época, trabalhava numa joalheria).
Um dia, recebi uma cliente na empresa. Conversa vai, conversa vem, ela preencheu um cadastro e percebi que estava diante da mulher do meu abusador. Queria o menor contato possível, mas ela precisava falar e revelou-me o motivo: tinha acabado de perder a filha num acidente de carro. De maneira espiritualizada, entendi que ela tinha ido lá para me dar a notícia e que meu abusador tinha recebido o pior dos castigos. Nada mais a fazer, pensei.

Fotos: Reprodução
Porém, o ciclo de abusos que se instaurou na minha vida a partir dos episódios traumáticos da minha pré-adolescência não tinha cessado. Ao terminar meu segundo casamento e depois de mergulhar fundo na psicanálise, decidi escrever o livro ‘Amordaçada’. Comecei a redigir em 2019 e resolvi enfrentar os meus fantasmas. Finalizei em 2021.
Hoje, aos 51 anos, o silêncio não é mais uma opção. Quero abraçar esse tema como propósito de vida e que a minha vivência tenha utilidade pública. Para combater a pedofilia, é necessário ampliarmos o conhecimento sobre suas diversas manifestações. Esperar pelo comportamento mais óbvio é enxergar apenas com um olho.
Não culpo meus pais pelo fato de eles terem reproduzido a educação que receberam, mas eu quis romper esse ciclo. Ninguém pode se responsabilizar pela perversão de um homem. Porém, dependendo do comportamento dos responsáveis, a prática de crimes é facilitada. Fiquem atentos.” “Não tinha a menor ideia de que estava sendo vítima de um ato cruel. Na minha fantasia de criança, ele era o meu namorado.“
Fonte: com informações do Portal O Globo
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