Mas o que está realmente em xeque nessa apelação vai muito além da condenação em si, trata-se de reputação institucional, equilíbrio de poder dentro da Igreja, precedentes judiciais e até o modo como finanças e autoridade eclesiástica se relacionam em uma
O tribunal de apelação do Vaticano inicia na segunda-feira, 22 de setembro de 2025, a análise do recurso do cardeal Giovanni Angelo Becciu, condenado em primeira instância em dezembro de 2023 a 5 anos e 6 meses de prisão. Becciu, que já foi figura central na Cúria Romana, agora responde por graves acusações envolvendo irregularidades no uso de recursos da Santa Sé para investir em um edifício de luxo em Londres, entre outros atos suspeitos.
Mas o que está realmente em xeque nessa apelação vai muito além da condenação em si, trata-se de reputação institucional, equilíbrio de poder dentro da Igreja, precedentes judiciais e até o modo como finanças e autoridade eclesiástica se relacionam em uma era de exigências maiores por transparência.
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A compra de um imóvel de prestígio, na Sloane Avenue, Londres, financiada com recursos da Secretaria de Estado da Santa Sé, é o eixo do escândalo. O prejuízo estimado gira em torno de US$ 200 milhões (ou quantias equivalentes em euros), conforme a acusação.
Becciu foi declarado culpado por peculato, fraude agravada, abuso de poder e envolvimento em pagamentos não autorizados, incluindo transferências para uma instituição de caridade ligada a seu irmão e repasses para Cecilia Marogna (especialista em geopolítica) que, segundo o Tribunal, não tinham finalidade transparente para a santa Sé. A sentença também tratou de desqualificar algumas provas apresentadas na acusação, como depoimentos de monsenhor Alberto Perlasca, considerando-os pouco confiáveis.
Becciu e sua defesa alegam que agiu no exercício de funções oficiais, com aprovação (ou ao menos anuência) de superiores e dentro da confiança papal. Ele afirma que os recursos foram usados para fins diplomáticos e humanitários legítimos. Um dos pontos centrais da apelação é justamente a alegação de nulidade processual, questionamento da imparcialidade do promotor do Vaticano, Alessandro Diddi, e o uso de decretos secretos e grampos autorizados “nas sombras”.
A defesa de Becciu, assim como de outros réus (como Raffaele Mincione, Fabrizio Tirabassi, Enrico Crasso), solicitou o afastamento de Diddi, alegando conflito de interesse, com base em mensagens de WhatsApp que, segundo eles, indicariam conduta irregular do promotor.
A acusação, por sua vez, sustenta que o primeiro julgamento foi conduzido com amplo contraditório, seguindo normas processuais do sistema jurídico do Vaticano, e que as provas apresentadas são robustas e vinculadas ao desvio de bens da Santa Sé. Além de Becciu, oito outros réus serão ouvidos no julgamento de apelação, todos condenados em primeira instância por crimes que variam entre fraude, peculato, abuso de poder e autolavagem de capitais.
Alguns nomes de destaque:
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• Raffaele Mincione — intermediário financeiro ligado ao investimento contestado.
• Gianluigi Torzi — corretor e agente que participou das etapas de transição do controle da propriedade em Londres.
• Fabrizio Tirabassi, Enrico Crasso — envolvidos no aparato financeiro da operação.
• Cecilia Marogna — beneficiária de pagamentos contestados, que firmou contratos com Becciu e para quem houve repasses não bem justificados.
O apelo judicial permitirá rever cada ponto: provas documentais, depoimentos, decisões interlocutórias, natureza dos decretos papais invocados, admissibilidade de registros e a própria estrutura jurídica do Estado da Cidade do Vaticano como ente soberano. ?
Principais riscos e implicações
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Fotos: Reprodução/Google
1. Se condenado em segunda instância e se a decisão for mantida, Becciu pode, sim, terminar atrás das grades — ainda que por enquanto fique em liberdade durante o trâmite do recurso.
2. Credibilidade institucional: o Vaticano enfrenta pressão por transparência. Um veredito que seja percebido como parcial pode agravar desconfianças externas à Igreja.
3. Precedente histórico: Becciu já é o primeiro cardeal condenado por um tribunal vaticano. A apelação será um teste importante para o sistema judiciário da Santa Sé.
4. Desgaste político-eclesiástico: o processo traz à tona disputas internas de poder, tensões entre facções que defendem reformas de transparência e setores mais tradicionais.
5. Exposição de figuras superiores: embora não diretamente acusados, há menções nos documentos a decretos papais secretos, a poderes investigativos ampliados e à possibilidade de envolvimento indireto de lideranças mais altas.
6. Impactos juridico-canônicos: além da pena criminal, Becciu já foi removido de funções e perdeu prerrogativas dentro do cardinalato. Ele renunciou a vários direitos, e seu futuro na hierarquia eclesiástica está gravemente comprometido.
Caso Becciu efetivamente vá para a prisão, será um marco profundo: raríssimos casos de alta hierarquia eclesiástica terminaram com penas efetivas de prisão — especialmente dentro do Estado Vaticano. Mesmo que não vá para a prisão, o veredito de apelação pode determinar inabilitação definitiva para exercer cargos na Cúria e confirmar sua exclusão política e institucional. Independentemente do resultado, o julgamento serve como momento de inflexão para debates internos sobre reforma, transparência e governança financeira da Santa Sé.
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