04 de Maio de 2026

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Especial Mulher - 21/07/2025

Quando a louça brilhava, mas mulheres não: um tempo que não pode voltar

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Foto: Reprodução/Google

O que conquistamos aqui não foi dado, foi arrancado ? com voz firme, organização coletiva e coragem.

Por: Maria Santana Souza / Carla Martins- Houve um tempo – não muito distante – em que a medida do valor de uma mulher era o brilho das panelas. Era comum ouvi-las dizer com orgulho: “Minha pia está um espelho, até dá pra se ver!”

 

O reconhecimento vinha pela cozinha impecável, pelo chão encerado, pelo almoço no ponto, pela roupa passada com vinco de ferro quente. A roupa do marido bem passada não era só zelo, era proteção contra comentários maldosos da vizinhança. Os filhos bem vestidos e educados não representavam apenas a família: eram o atestado público de que ela era uma “boa mulher”.

 

Esse modelo de reconhecimento, construído sobre a invisibilidade do esforço feminino, fazia da mulher um pilar silencioso e exausto. Seu valor era medido não por sua voz, mas por sua abnegação. Qualquer falha doméstica era um reflexo direto sobre ela – e só sobre ela. Era como se o lar fosse uma vitrine, e a mulher, a peça central da exposição.

 

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Mas esse tempo não passou sozinho. Ele foi sendo desmontado, desconstruído, desafiado por gerações de mulheres que ousaram dizer: “Não é só isso que eu sou.” Lutaram, gritaram, se organizaram, se decepcionaram e recomeçaram. Mulheres que entenderam que podem continuar cuidando da casa – se quiserem – mas que não podem mais ser definidas apenas por isso.

 

Esse processo de rompimento com o papel de subalternidade foi — e continua sendo — desigual. Mulheres negras, indígenas, ribeirinhas, periféricas e tantas outras em territórios negligenciados enfrentam jornadas duplas, triplas, invisibilizadas pelas estruturas de poder. Na Amazônia, por exemplo, as distâncias geográficas somam-se às distâncias políticas e sociais. Ainda é comum que lideranças femininas tenham suas vozes deslegitimadas por um sistema que privilegia o masculino, o urbano e o branco.

 

Vozes que ecoam da Amazônia

 

 

 

“Na Amazônia, as mulheres sempre sustentaram suas comunidades com coragem e resistência, mesmo quando ninguém as via. Hoje, com o Portal Mulher Amazônica e o Ela Podcast, queremos justamente isso: colocar holofote onde antes havia silêncio. Não se trata apenas de contar histórias, mas de romper com um ciclo histórico de apagamento. O brilho da louça nunca foi suficiente para conter a potência da mulher amazônida. Nossa luta é por visibilidade, escuta, políticas públicas e justiça social. E não vamos retroceder.”
— Maria Santana, idealizadora do Portal Mulher Amazônica e do Ela Podcast

 

Hoje, muitas mulheres conquistaram seus espaços no mercado de trabalho, na política, na ciência, na arte, na tecnologia, no campo e na cidade. E o que antes era símbolo de boa esposa – o brilho da louça – cedeu lugar ao brilho da autonomia. A mulher de hoje brilha nos estudos, nas decisões, nas lideranças.

 

 

 

“Contar as histórias de mulheres que ainda vivem o peso do silêncio é mais que um compromisso profissional, é uma missão de vida. Quando damos voz às que resistem nos becos, nos rios, nos presídios, nas aldeias e nos conselhos populares, estamos reafirmando: mulher nenhuma pode ser medida apenas pela lida da casa. Brilhamos no cuidado, sim — mas também na ciência, na arte, na rua, na política, onde quisermos estar. Nosso brilho hoje é escolha, é resistência, é emancipação. E não cabe mais ser polido por expectativas alheias.”
— Carla Martins, jornalista e produtora do Portal Mulher Amazônica e do Ela Podcast

 

 

 

Mas esse avanço não é homogêneo, nem global. Em países como o Afeganistão, por exemplo, ser mulher ainda é sinônimo de silenciamento. Desde que o Talibã retomou o poder, meninas são proibidas de estudar, mulheres não podem circular sem homens por perto, e as vozes femininas são apagadas com brutalidade. No Irã, a obrigatoriedade do uso do hijab ainda leva muitas à prisão ou à morte. Na Arábia Saudita, até recentemente, as mulheres precisavam da permissão de um homem para dirigir ou viajar. E em tantos outros lugares, o corpo da mulher continua sendo território de controle e opressão.

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Essas mulheres não são números em relatórios da ONU. São irmãs de humanidade, que enfrentam diariamente o peso que as mulheres brasileiras já enfrentaram em parte de sua trajetória. O que conquistamos aqui não foi dado, foi arrancado – com voz firme, organização coletiva e coragem.

 
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Por isso, é urgente lembrar: não basta a conquista individual, é preciso consciência coletiva. Não podemos descansar enquanto mulheres seguem morrendo, sendo caladas, estupradas, exploradas e descartadas. Sim, houve um tempo em que o brilho da louça era o símbolo do reconhecimento feminino. Mas hoje, brilham as mulheres que ousam viver com dignidade, liberdade e propósito. E que não aceitam voltar para a pia do silêncio.
 

 

Portal Mulher Amazônica

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