Incerteza sobre o que dono do Banco Master documentou e até onde vão suas conexões deixa classe política no 'pior momento dos últimos anos', dizem analistas.
Brasília respira um ar de tensão que não rodeava a capital federal, pelo menos, desde a Operação Lava Jato. É assim que o clima nos bastidores do mundo político é descrito por analistas após a segunda prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, na semana passada. Vorcaro foi preso na nova fase da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal no dia 4 de março. Mensagens foram extraídas de seu celular, como parte da investigação da Polícia Federal autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A exposição de sua teia de relações, que transita da direita à esquerda, passando pelo Centrão e pela cúpula do Judiciário, gerou ansiedade em torno de uma eventual delação premiada do banqueiro. A incerteza sobre o que Vorcaro documentou e até onde vão suas conexões, diz o cientista político Lucas de Aragão, sócio da empresa de análise de risco político Arko Advice, torna o atual cenário na capital federal o "pior dos últimos muitos anos". "Não se sabe exatamente o que Vorcaro tem, o que ele sabia. Ele transitou em grupos políticos que não necessariamente conversavam um com o outro. Pessoas sabem fragmentos e isso gera uma tensão gigantesca em Brasília, comparável ou até maior ao que vimos na Lava Jato", diz.
"É uma sensação de que é incontrolável, de que é uma avalanche." Nas mensagens, Vorcaro menciona relações e encontros com autoridades, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro Alexandre de Moraes, do STF. De um lado, Vorcaro se referia a Nogueira, presidente de um dos maiores partidos do Centrão e ex-ministro de Jair Bolsonaro, como "um dos meus grandes amigos de vida".
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Mensagens mostram o dono do Master comemorando uma emenda proposta pelo senador que aumentaria a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão — uma medida que favorecia diretamente o banco e foi chamada por Vorcaro de "bomba atômica no mercado financeiro". Além disso, Vorcaro chegou a fretar um helicóptero de transporte VIP para Nogueira e Antônio Rueda, presidente do União Brasil, após o Grande Prêmio de Interlagos de Fórmula 1.
O senador negou ter proximidade com o empresário e classificou as ilações como "uma mentira fabricada na tentativa de manchar minha biografia". Do outro lado do espectro, Vorcaro também tinha portas abertas no atual governo. Em dezembro de 2024, ele foi levado ao Palácio do Planalto pelo ex-ministro petista Guido Mantega para uma reunião fora da agenda oficial de Lula. Em mensagens a uma namorada, Vorcaro classificou o encontro com Lula, que contou com a presença de três ministros e do atual presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, como "ótimo" e "muito forte".
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O Palácio do Planalto confirmou a reunião, mas justificou a visita dizendo que Vorcaro foi levado ao local por Mantega. Segundo o governo, Vorcaro reclamou da concentração do mercado bancário no país e Lula apenas respondeu que o assunto deveria ser tratado de forma técnica pelo BC.A teia ainda se estende ao bolsonarismo. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, operador financeiro e alvo de prisão na operação, foi o maior doador pessoa física da campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2022, injetando R$ 3 milhões.
Aviões ligados a Vorcaro também foram usados por figuras da direita, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) durante as últimas eleições. O deputado e seu partido reiteram que, naquele momento, não existia qualquer suspeita pública envolvendo o nome de Vorcaro. Figuras como o ex-governador de São Paulo João Doria também aparecem enviando mensagens de preocupação a Vorcaro, pedindo conversas "reservadamente". À CNN Brasil, a assessoria de Doria confirmou o diálogo, mas justificou que a mensagem foi enviada em maio de 2025 e que se tratou "apenas de um gesto cordial".
Já a defesa de Vorcaro diz que prisão preventiva do banqueiro ocorreu sem "tivesse acesso prévio aos elementos que fundamentaram a medida" — e pediu que o STF apresente informações como as datas das mensagens mencionadas na investigação. "Daniel Vorcaro sempre esteve à disposição das autoridades e segue colaborando com as investigações", diz nota da defesa. O advogado Roberto Podval reclamou do envio das conversas à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS: "Toda a intimidade do Vorcaro e de muitos outros está sendo devassada", afirmou.O analista político Creomar de Souza, sócio-fundador da consultoria de análise de risco político Dharma, compartilha a percepção sobre a crise e pressão sobre Brasília. "Há uma tensão que é inegável", diz.

Fotos: Reprodução/Google
"O caso Master é como balançar um pé de jaca. A impressão é que cai goiaba, uva, laranja, banana", afirma, explicando que a rede de diálogos de Vorcaro se mostra suprapartidária e supraideológica. "Talvez esse seja um dilema de difícil compreensão nesse ambiente de polarização da sociedade brasileira, que ainda é refém dessa ideia de que corrupção tem lado, de que é uma relação dos maus com os bons", continua. Para Aragão, o que torna o caso Master singular é a sua adaptação a uma nova realidade institucional do Brasil. Ele reflete que, diferentemente do Mensalão ou do início da Lava Jato, épocas em que o Executivo centralizava poder, o Brasil de hoje possui um poder fragmentado.
Desde 2014, pontua o analista, o Congresso Nacional ganhou musculatura, especialmente com as emendas impositivas, e o Judiciário assumiu um protagonismo inédito. "Hoje, se você quer fazer um esquema no Brasil, cooptar só o Executivo já não é mais necessário", explica Aragão. O poder diluído faz com que os esquemas financeiros também precisem ser pulverizados entre diversos atores e instituições. É exatamente isso que as mensagens revelam, diz o analista.
Fonte: com informações Correio Braziliense
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