Não se trata de um episódio isolado, nem de um excesso de zelo do Estado. Trata-se de violência política de gênero em sua forma mais explícita
A democracia brasileira convive com uma contradição alarmante: mulheres eleitas pelo voto popular precisam de proteção armada para exercer o mandato. A deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) é um dos casos mais emblemáticos dessa realidade. Mulher, negra, defensora dos direitos humanos e de pautas progressistas, Talíria vive sob escolta permanente devido a ameaças recorrentes de morte relacionadas diretamente à sua atuação política.
Não se trata de um episódio isolado, nem de um excesso de zelo do Estado. Trata-se de violência política de gênero em sua forma mais explícita: aquela que tenta silenciar, intimidar e expulsar mulheres da vida pública.
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Desde que assumiu cargos eletivos, Talíria tem sido alvo de:
• ameaças reiteradas de morte;
• perseguições e monitoramento;
• ataques racistas e misóginos nas redes sociais;
• campanhas de deslegitimação política;
• restrições severas à sua rotina pessoal e familiar.
A presença constante de seguranças, a necessidade de mudar trajetos, horários e hábitos cotidianos revelam o custo invisível que muitas mulheres pagam para permanecer na política. A violência não termina no discurso de ódio: ela invade a vida privada, afeta a saúde mental, a convivência familiar e o direito básico à segurança.
Quando a política se torna território hostil para mulheres
O caso de Talíria escancara um padrão estrutural. Mulheres que ocupam espaços de poder — especialmente mulheres negras, de esquerda e defensoras de direitos humanos — são tratadas como corpos “fora do lugar”. A mensagem implícita é clara: o poder não foi feito para elas. Essa lógica não é nova. A deputada é frequentemente associada à memória de Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018, também no Rio de Janeiro. A conexão não é retórica: ambas representam uma política que confronta desigualdades históricas e, por isso, enfrenta reações violentas.
A diferença é que, no caso de Talíria, a violência ainda não se consumou em assassinato — mas insiste diariamente em tentar afastá-la da política.
“O ataque a mulheres eleitas é um ataque à democracia” — afirmou Talíria em entrevista ao jornal Agência Pública, ao comentar as ameaças de morte que recebeu e a necessidade de proteção permanente. Para ela, a violência que mira mulheres no poder tem origem numa lógica patriarcal e colonial que considera o corpo da mulher “fora do lugar” na política. “O medo não me paralisa. Não tenho outro caminho senão enfrentar esse quadro de violência política fazendo mais política” — declarou em entrevista à revista Veja, reafirmando que, apesar das ameaças, não pretende se afastar do mandato.
Em um registro mais antigo, Petrone disse que a proteção de representantes eleitos “é papel do Estado” e criticou a demora ou a ausência de resposta por parte de autoridades competentes diante de pedidos de segurança. Em outra fala registrada em entrevistas e coberturas internacionais, ela disse que sua atuação, enquanto mulher negra e mãe, representa uma ameaça ao status quo — e que ela recorre à política justamente para enfrentar esse quadro, transformando medo em resistência.
Violência política como método de silenciamento

A violência política contra mulheres não busca apenas ferir indivíduos. Ela funciona como um mecanismo pedagógico de intimidação coletiva. Ao ameaçar uma parlamentar, o recado é direcionado a todas: entrar na política pode custar caro. É por isso que tantas mulheres desistem de disputar reeleição ou sequer cogitam ingressar na vida pública. O medo, a exaustão emocional e o impacto sobre filhos, companheiras e famílias inteiras tornam-se fatores decisivos para o abandono da política institucional.
O que diz a lei — e o que ainda falta cumprir
Desde 2021, o Brasil conta com a Lei nº 14.129/21, que estabelece o combate, a prevenção e a punição da violência política contra a mulher. A legislação reconhece que ameaçar, constranger, perseguir ou humilhar mulheres no exercício de seus direitos políticos é crime.
No entanto, casos como o de Talíria Petrone revelam o abismo entre a existência da lei e sua efetiva aplicação. A proteção ainda é reativa, individual e emergencial — quando deveria ser estrutural, preventiva e institucional.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

Fotos: Reprodução/Google
Para o Portal Mulher Amazônica, o fato de uma deputada federal precisar de escolta armada para exercer seu mandato não é normal, aceitável nem democrático. É um sinal grave de que o sistema político brasileiro ainda falha em garantir condições mínimas de segurança e igualdade para mulheres no poder. A violência política não é um desvio: ela é parte de um projeto de exclusão. Enquanto mulheres forem ameaçadas por legislar, denunciar injustiças ou defender direitos, a democracia seguirá incompleta.
Defender Talíria Petrone é defender todas as mulheres que insistem em ocupar a política.
Não se trata de um caso individual. Trata-se do direito das mulheres de governar sem medo.
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Fontes:
Observatório da Violência Política de Gênero e Raça
ONU Mulheres Brasil
Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc)
Câmara dos Deputados — perfil parlamentar de Talíria Petrone
Lei nº 14.129/2021 — Combate à Violência Política contra a Mulher
Código Eleitoral Brasileiro — Art. 243 e Art. 326-B
Relatórios de organizações de direitos humanos sobre violência política no Brasil
Agência Pública — entrevistas e reportagens sobre violência política contra mulheres
Revista Veja — entrevistas com Talíria Petrone sobre ameaças e segurança
Brasil de Fato — reportagens e entrevistas sobre violência política e atuação parlamentar
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