Antes de vestir a fralda para ver o ídolo, vista a coragem de pensar. O Brasil precisa mais de gente desperta do que de gente famosa
Centenas de jovens e adultos acamparam por dias em frente ao Copacabana Palace. A cena seria inspiradora, não fosse o motivo: não era para um concurso público, nem para garantir matrícula em uma universidade. Era para ver Lady Gaga. Houve quem usasse fralda geriátrica para não perder o lugar na fila. O que essa imagem revela? O Brasil está diante de uma pergunta incômoda: isso é devoção ou desespero existencial?
O culto à celebridade não é novo. Mas tornou-se, nas últimas décadas, um sintoma grave de uma sociedade onde a imagem sobrepôs-se à verdade, e o aplauso vale mais do que a consciência. Vivemos numa era em que a notoriedade foi confundida com relevância, como alertava Guy Debord já em A Sociedade do Espetáculo (1967). Hoje, celebridades ditam comportamentos, influenciam decisões políticas, modelam padrões estéticos — mesmo quando atuam fora de suas áreas.
A cultura do espetáculo, como analisou o sociólogo Zygmunt Bauman, é líquida: tudo passa rápido, inclusive os valores. A realidade dura, como a falta de acesso à educação, a precariedade do SUS, a invisibilidade das pessoas em situação de rua, é anestesiada pelo próximo show, pela próxima trend, pelo próximo escândalo midiático.
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E isso não é apenas alienação. É sintoma de um vazio.
Quando multidões se mobilizam mais por um show do que por um projeto social, mais por um autógrafo do que por um diploma, mais por uma selfie com um ídolo do que por uma vaga numa universidade, algo está estruturalmente deslocado. A emoção coletiva está sendo canalizada para o efêmero. Como diz Viktor Frankl, autor de Em Busca de Sentido, o ser humano não sobrevive sem propósito. E quando ele não encontra propósito, substitui-o por idolatria.

A Psicologia Social, inclusive, já identificou o “culto à celebridade” como um substituto moderno da experiência religiosa, mas sem transcendência nem transformação. Uma busca de pertencimento que raramente encontra retorno. Afinal, Lady Gaga jamais saberá o nome das pessoas que dormiram no chão do Rio por dias. Isso, por si, não seria um problema — se não fosse o contraste brutal com o desinteresse generalizado por conhecimento, ciência, cidadania e espiritualidade.

Segundo o IBGE, mais de 6% da população brasileira é analfabeta, e o número de analfabetos funcionais é muito maior. O INEP aponta altos índices de evasão no ensino superior, agravados por desigualdade social e falta de políticas públicas sustentáveis. Mas quantas pessoas acampam na frente de uma universidade para garantir uma vaga? Quantas se sacrificam por uma aula de filosofia, por uma conferência sobre ética ou por um projeto de transformação social?
A arte é fundamental. A música tem poder de cura, denúncia e elevação. Mas não pode substituir o pensamento crítico. A idolatria da imagem, do palco, do efêmero está gerando uma geração exausta, confusa, que busca alívio onde deveria buscar sentido. Não se trata de criticar Lady Gaga — ela é apenas o espelho. Trata-se de questionar o que estamos priorizando como sociedade.

Fotos: Reprodução/Google
Se um dia precisarmos — e já precisamos — reconstruir este país, não serão os fãs de celebridades que nos tirarão do buraco. Serão os que resistem ao vazio. Os que leem. Os que estudam. Os que não aparecem no Instagram, mas fazem diferença na sala de aula, nas bibliotecas, nos movimentos sociais, nos conselhos comunitários, nos fóruns invisíveis da democracia.
Antes de vestir a fralda para ver o ídolo, vista a coragem de pensar. O Brasil precisa mais de gente desperta do que de gente famosa. O verdadeiro espetáculo será quando a consciência voltar a ser protagonista.
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