Durante décadas, esse fenômeno foi tratado como um problema privado, mas passa a ser reconhecido, ainda que tardiamente, como uma questão central de política pública.
Elas cuidam da casa, dos filhos, de pais idosos, de pessoas doentes, organizam a alimentação familiar e, muitas vezes, ainda sustentam financeiramente seus lares. No Brasil, o cuidado tem gênero — e cobra um preço alto. A sobrecarga silenciosa vivida por milhões de mulheres tem produzido um cenário alarmante de exaustão emocional, adoecimento mental e burnout feminino. Durante décadas, esse fenômeno foi tratado como um problema privado, mas passa a ser reconhecido, ainda que tardiamente, como uma questão central de política pública.
Historicamente invisibilizado, o trabalho de cuidado foi naturalizado e atribuído às mulheres como obrigação moral. O resultado desse modelo é um adoecimento coletivo, marcado por quadros crescentes de ansiedade, depressão, estresse crônico e afastamentos do trabalho. Trata-se de um problema estrutural que impacta não apenas a vida das mulheres, mas a própria sustentabilidade social e econômica do país.
Estudos apontam que a sobrecarga de cuidado reduz a participação feminina no mercado de trabalho, limita trajetórias profissionais e amplia desigualdades de renda. Ao mesmo tempo, sustenta silenciosamente o funcionamento do Estado, da economia e dos serviços públicos, que dependem desse trabalho não remunerado para existir.
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Cuidado e política pública: o que o Brasil já faz

No plano federal, o Brasil deu um passo importante ao instituir, em 2024, a Política Nacional de Cuidados, por meio da Lei nº 15.069, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pela Presidência da República. A política reconhece o cuidado como direito social e responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, comunidades e sociedade, enfrentando desigualdades históricas de gênero, raça, classe e território.
O marco legal prevê ações voltadas à redistribuição das responsabilidades de cuidado, à valorização do trabalho historicamente invisível e à ampliação de serviços públicos capazes de aliviar a carga imposta às mulheres — como equipamentos sociais, políticas de assistência, saúde, proteção social e iniciativas voltadas ao autocuidado e à saúde mental.
Em 2025, esse debate foi aprofundado com o lançamento do Fórum de Mulheres na Saúde, iniciativa conjunta dos ministérios da Saúde e das Mulheres. O espaço articula políticas públicas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), abordando temas como saúde mental, atenção ao climatério, saúde reprodutiva e enfrentamento das desigualdades de gênero no acesso aos serviços.
Mulheres na política defendendo cuidado e saúde

O cuidado passou a ocupar lugar central nos debates políticos nacionais. Na 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, representantes do governo federal defenderam a implementação efetiva da Política Nacional de Cuidados, destacando que a sobrecarga feminina é um dos principais fatores de adoecimento mental no país. O consenso é de que a redução dessa carga depende de políticas estruturantes — e não de soluções individuais ou familiares.
No Amazonas, o tema também começa a ganhar espaço institucional. Na Assembleia Legislativa do Estado, parlamentares têm apresentado projetos voltados à proteção dos direitos das mulheres e à melhoria de suas condições de vida. A deputada estadual Alessandra Campelo, por exemplo, propôs diretrizes para prevenir e enfrentar a violência institucional contra mulheres, reconhecendo que barreiras administrativas, negligência estatal e dificuldades de acesso a serviços públicos impactam diretamente a saúde mental feminina.
Outras iniciativas em debate incluem o Selo “Cidade Mulher”, que busca incentivar municípios a adotarem políticas permanentes de promoção do bem-estar, autonomia econômica, proteção social e acesso a direitos. A proposta parte do reconhecimento de que cuidar também é uma decisão política e uma responsabilidade da gestão pública.
Violência política de gênero e saúde mental

A discussão sobre cuidado e saúde mental também alcança as próprias mulheres que atuam na política. Na Câmara dos Deputados, a Secretaria da Mulher tem promovido atividades voltadas à saúde mental de mulheres na política, relacionando o adoecimento psíquico à violência política de gênero e raça, ao assédio e à hostilidade institucional que afastam mulheres dos espaços de poder.
O ambiente político, marcado por disputas desiguais e práticas discriminatórias, também adoece — e reforça a necessidade de políticas que protejam não apenas quem cuida, mas também quem luta para transformar o sistema.
Por que isso importa para quem cuida
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Dados da PNAD Contínua do IBGE mostram que as mulheres dedicam, em média, 21,7 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado — quase o dobro do tempo dedicado pelos homens, que somam cerca de 11 horas semanais. Essa desigualdade tem impacto direto na inserção das mulheres no mercado de trabalho, na renda, no acesso a direitos e na saúde mental. O adoecimento das mulheres cuidadoras não é resultado de fragilidade individual, mas de um modelo social que depende do trabalho invisível feminino para funcionar. Reconhecer o cuidado como política pública é reconhecer que esse trabalho sustenta a vida, a economia e o próprio Estado.
Avanços e limites

Apesar dos avanços institucionais, especialistas e movimentos sociais alertam que o reconhecimento legal do direito ao cuidado precisa sair do papel. É necessário garantir orçamento, estrutura e implementação efetiva das políticas no SUS, na assistência social, nos serviços de cuidado de longa duração e na proteção às mulheres cuidadoras. Movimentos como “Por uma Política Nacional de Cuidados e Bem Viver” defendem que essa agenda seja orientada por uma perspectiva feminista, antirracista e interseccional, com participação ativa das mulheres na formulação, execução e monitoramento das políticas públicas.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
Fotos: Reprodução/Google
O Portal Mulher Amazônica reafirma que a saúde mental das mulheres cuidadoras devem ser tratada como prioridade política e responsabilidade do Estado. Não há desenvolvimento social possível enquanto milhões de mulheres adoecem sustentando, sozinhas, o trabalho que mantém famílias, comunidades e serviços funcionando. Políticas de cuidado não são concessões nem privilégios: são direitos sociais fundamentais, que garantem autonomia, dignidade, justiça social e equidade de gênero. Invisibilizar o cuidado é perpetuar desigualdades; reconhecê-lo é um passo essencial para a construção de uma sociedade mais justa.
Nosso compromisso é dar visibilidade às mulheres que cuidam, denunciar a sobrecarga histórica imposta a elas e fortalecer o debate público sobre corresponsabilização social. Ninguém pode cuidar de tudo sozinha — e nenhuma mulher deveria adoecer por sustentar a vida cotidiana.
Fontes:
Lei nº 15.069/2024 — Política Nacional de Cuidados
PNAD Contínua — IBGE
Fórum de Mulheres na Saúde — Governo Federal
Assembleia Legislativa do Amazonas
Secretaria da Mulher — Câmara dos Deputados
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