A luta das mulheres no Irã não começou agora ? mas nunca foi tão visível, tão coletiva e tão brutalmente reprimida.
O Irã vive um dos períodos mais graves de sua história recente. Protestos populares, repressão violenta do Estado e denúncias sistemáticas de violações de direitos humanos colocaram o país no centro das atenções internacionais.
No coração dessa crise estão as mulheres iranianas, que transformaram o próprio corpo, a voz e a presença pública em instrumentos de resistência contra um regime que, há mais de quatro décadas, controla suas vidas por meio da força, do medo e da punição. A luta das mulheres no Irã não começou agora — mas nunca foi tão visível, tão coletiva e tão brutalmente reprimida.
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O regime iraniano: poder concentrado e repressão estrutural
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Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã é governado por uma República Islâmica teocrática, onde a autoridade máxima não é eleita pelo povo. O poder real está nas mãos do Líder Supremo, atualmente o aiatolá Ali Khamenei, no cargo desde 1989. Ele controla as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária, o Judiciário e os principais órgãos de fiscalização política.
Embora existam eleições presidenciais e parlamentares, o sistema é fortemente limitado por conselhos religiosos que vetam candidaturas e anulam qualquer ameaça ao regime. A liberdade de imprensa, de expressão e de organização política é severamente restringida — e as mulheres são alvo central dessa estrutura de controle.
Por que as mulheres estão na linha de frente

Mulheres curdas sírias protestam contra a morte da curda iraniana
Mahsa Amini, detida pela polícia da moralidade de Teerã
As leis iranianas impõem restrições profundas à vida feminina, desde o uso obrigatório do hijab até limitações no acesso a direitos civis, familiares, políticos e trabalhistas. A chamada polícia da moralidade atua como braço repressivo do Estado, fiscalizando o comportamento feminino em espaços públicos.
Foi justamente essa engrenagem de controle que levou à morte de Mahsa Amini, em setembro de 2022 — um episódio que se tornou símbolo global da violência de Estado no Irã.
A morte de Mahsa Amini: o estopim da revolta

Mahsa Amini tinha 22 anos quando foi presa em Teerã pela polícia da moralidade, acusada de usar o véu de forma “inadequada”. Horas depois, ela deu entrada em um hospital em coma e morreu poucos dias depois. Testemunhas e familiares afirmaram que Mahsa foi espancada sob custódia, algo negado oficialmente pelo governo.
Sua morte provocou uma onda de protestos sem precedentes, liderada por mulheres que passaram a retirar o véu em público, cortar o cabelo e enfrentar forças de segurança. O slogan “Mulher, Vida, Liberdade” ecoou dentro e fora do Irã, tornando-se um grito internacional contra o autoritarismo.
A resposta do regime foi imediata e violenta.

Minoo Majidi morreu após ser baleada pelas forças de segurança do Irã
Repressão, mortes e números do terror de Estado
Organizações de direitos humanos relatam que, desde o início das grandes mobilizações:
• Centenas a milhares de civis foram mortos, incluindo mulheres, adolescentes e crianças;
• Dezenas de milhares foram presos, muitos sem julgamento;
• Há denúncias documentadas de tortura, violência sexual, execuções sumárias e desaparecimentos forçados;
• O Irã figura entre os países com maior número de execuções do mundo, inclusive de manifestantes.

A ONU, por meio de sua Missão Internacional de Apuração de Fatos, concluiu que o regime iraniano cometeu graves violações de direitos humanos que podem configurar crimes contra a humanidade, com uso sistemático da violência para silenciar dissidentes — especialmente mulheres.
A história de Roya e a morte que virou denúncia

Entre as vozes que atravessaram fronteiras está Roya Piraei, ativista iraniana que ganhou projeção internacional após denunciar a morte de sua mãe durante a repressão aos protestos. Segundo relatos apresentados a organismos internacionais, sua mãe foi atingida durante ações violentas do Estado contra civis.
A morte não foi um episódio isolado — mas parte de um padrão de violência que atinge famílias inteiras. Roya transformou o luto em denúncia, levando a história de sua mãe a fóruns internacionais, parlamentos e organizações de direitos humanos.
“Se eu não sair e protestar, quem vai?”

Essas foram as últimas palavras de Minoo Majidi à família antes de morrer. Minoo tinha 62 anos quando foi baleada por forças de segurança nas ruas de Kermanshah, no oeste do Irã. De acordo com o relato de sua filha, ela foi atingida por 167 projéteis e morreu a caminho do hospital. Após a morte de Minoo, Roya Piraei publicou no Instagram uma foto ao lado do túmulo da mãe. Com a cabeça raspada, ela segurava o próprio cabelo em um gesto de luto e desafio. A imagem se espalhou rapidamente e se tornou viral, transformando-se em um símbolo da resistência das mulheres iranianas.
“Eu sabia que não podia me manifestar. Isso é tudo que eu podia fazer para mostrar como esse sistema é cruel”, disse Roya.
A mãe de Roya está entre as centenas de iranianos em todo o país que foram mortos enquanto protestavam contra a morte de Mahsa Amini, que ocorreu sob custódia da polícia da moralidade, em Teerã. Essas histórias revelam que a repressão não se limita às ruas: ela atravessa lares, destrói vínculos e tenta silenciar gerações inteiras.
A posição dos Estados Unidos e a fala de Donald Trump
Diante da escalada da violência, os EUA passaram a adotar um discurso público mais duro contra o regime iraniano. O presidente Donald Trump declarou que o Irã estava “em grande apuro” e afirmou que Washington acompanha os protestos “muito de perto”.
Em declarações públicas, Trump disse que o mundo não poderia ignorar o assassinato de civis e alertou que, caso o regime intensificasse execuções e repressão em massa, “todas as opções estariam sobre a mesa”. Ele também afirmou apoio moral aos manifestantes e defendeu sanções mais severas contra autoridades iranianas envolvidas na repressão. As declarações foram duramente criticadas por Teerã, que acusou os EUA de interferência externa, aumentando a tensão geopolítica na região.
Reações internacionais e pressão global
Além dos Estados Unidos:
• A ONU pediu responsabilização internacional e investigações independentes;
• Países europeus, como França, Alemanha e Reino Unido, condenaram a violência e discutem novas sanções;
• Organizações feministas, sindicatos e coletivos de direitos humanos em todo o mundo intensificaram campanhas de solidariedade às mulheres iranianas. Mesmo assim, o regime segue utilizando força letal como instrumento político.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
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Fotos: Reprodução/Google
O Portal Mulher Amazônica manifesta profunda solidariedade às mulheres iranianas que enfrentam um regime que nega direitos básicos, silencia vozes e transforma o Estado em instrumento de medo. A morte de Mahsa Amini e de tantas outras mulheres — incluindo mães, filhas e jovens — não são tragédias isoladas: são consequência direta de um sistema que criminaliza a existência feminina. Defender os direitos das mulheres no Irã é defender os direitos das mulheres em todo o mundo. A luta por liberdade, dignidade e autonomia não conhece fronteiras. Quando mulheres são perseguidas por existir, toda a humanidade é ameaçada. O Portal reafirma seu compromisso com a defesa dos direitos humanos, da democracia e da vida — e seguirá dando visibilidade às vozes que regimes autoritários tentam calar.
Fontes:
Organização das Nações Unidas (ONU) – Missão de Apuração de Fatos sobre o Irã
Amnesty International
Human Rights Watch
Iran Human Rights / HRANA
BBC, Al Jazeera, CNN Brasil, Associated Press
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