A questão agora é se o mundo será capaz de enfrentá-la sem deixar, mais uma vez, que as desigualdades definam quem pode ficar e quem será forçado a partir.
A crise climática tem produzido um fenômeno silencioso, mas crescente: o deslocamento forçado de populações inteiras. Secas prolongadas, enchentes, ciclones e queimadas estão obrigando milhões de pessoas a abandonar suas casas todos os anos. Nesse cenário, um dado chama atenção e revela uma desigualdade estrutural profunda: cerca de 80% das pessoas deslocadas por desastres climáticos no mundo são mulheres, segundo a ONU Mulheres.
Esse número não apenas dimensiona a crise. Ele expõe como gênero, pobreza e território se entrelaçam, determinando quem sofre mais, quem tem menos acesso à proteção e quem enfrenta maiores dificuldades para recomeçar.
Os territórios mais afetados pela crise climática
Embora os impactos das mudanças climáticas sejam globais, eles atingem com mais intensidade regiões historicamente vulnerabilizadas.
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África Subsaariana: Países como Somália, Etiópia e Sudão enfrentam secas severas e recorrentes. A escassez de água e alimentos força deslocamentos internos massivos. Mulheres, responsáveis pela coleta de água e cuidado familiar, percorrem distâncias cada vez maiores, muitas vezes expostas à violência.
Sul e Sudeste Asiático: Bangladesh, Índia e Filipinas estão entre os países mais afetados por ciclones, enchentes e elevação do nível do mar. Em Bangladesh, milhões já foram deslocados por inundações. Barreiras culturais e desigualdade de acesso à informação aumentam o risco de morte e deslocamento feminino durante desastres.

América Latina e Caribe : Regiões da Amazônia, América Central e Caribe enfrentam secas extremas, furacões e desmatamento. No Brasil, especialmente na Amazônia, secas históricas recentes isolaram comunidades inteiras, afetando diretamente mulheres ribeirinhas e indígenas.
Pequenos Estados Insulares: Países como Haiti e nações do Pacífico sofrem com eventos extremos e a elevação do nível do mar, que ameaça a própria existência de territórios. Mulheres enfrentam dificuldades adicionais de acesso a abrigo, saúde e segurança.
Por que as mulheres são mais afetadas
O impacto desigual não é biológico, mas social. Ele resulta de estruturas históricas que limitam o acesso das mulheres a recursos, direitos e oportunidades. Entre os principais fatores estão:
• Responsabilidade pelo cuidado: mulheres são, em grande parte, responsáveis por crianças, idosos e doentes, o que dificulta deslocamentos rápidos
• Menor acesso a recursos econômicos: menos renda, menos acesso à terra e crédito
• Desigualdade na tomada de decisões: pouca participação em políticas de gestão de riscos e resposta a desastres
• Risco ampliado de violência: deslocamentos aumentam a vulnerabilidade a abusos, exploração e violência de gênero
Relatórios da UNDRR indicam que crises humanitárias agravadas por eventos climáticos frequentemente intensificam desigualdades já existentes, tornando mulheres e meninas ainda mais vulneráveis.
Entre perdas e resistência: o protagonismo feminino

Apesar das adversidades, mulheres em diferentes partes do mundo têm liderado respostas locais à crise climática. Longe de serem apenas vítimas, elas são agentes centrais de transformação. Na Amazônia, mulheres indígenas, ribeirinhas e agricultoras organizam redes de produção sustentável, preservam sementes tradicionais e atuam na defesa dos territórios contra o desmatamento. No Sul da Ásia, grupos femininos lideram sistemas comunitários de alerta para enchentes e ciclones, reduzindo riscos e salvando vidas.
Na África, cooperativas de mulheres desenvolvem técnicas de agricultura resiliente à seca, garantindo segurança alimentar mesmo em condições extremas. Lideranças políticas também têm ampliado essa agenda. No Brasil, figuras como Sônia Guajajara e Joenia Wapichana reforçam a importância de integrar justiça climática, direitos territoriais e igualdade de gênero.
O que significa enfrentar a crise com justiça climática

A ideia de justiça climática parte de um princípio simples: quem menos contribuiu para a crise é quem mais sofre seus efeitos. E, dentro desse grupo, as mulheres estão entre as mais impactadas. Enfrentar esse cenário exige mais do que ações ambientais. Requer políticas públicas que integrem gênero, clima e desenvolvimento. Entre as principais medidas defendidas por organismos internacionais estão:
• Inclusão de mulheres na formulação de políticas climáticas
• Acesso a financiamento para iniciativas lideradas por mulheres
• Proteção contra violência em contextos de deslocamento
• Investimento em educação, saúde e infraestrutura resiliente
• Valorização de conhecimentos tradicionais e comunitários
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

Fotos: Reprodução/Google
O dado de que mulheres representam a maioria das pessoas deslocadas por desastres climáticos não é apenas um indicador estatístico. Ele é um alerta sobre como a crise climática reproduz e aprofunda desigualdades estruturais. Ao mesmo tempo, revela onde estão muitas das soluções.
Ignorar o papel das mulheres no enfrentamento da crise é comprometer qualquer resposta global. Reconhecê-las como protagonistas, por outro lado, abre caminho para estratégias mais eficazes, justas e sustentáveis. A crise climática já está em curso. A questão agora é se o mundo será capaz de enfrentá-la sem deixar, mais uma vez, que as desigualdades definam quem pode ficar e quem será forçado a partir.
Fontes:
ONU Mulheres. Gender, Climate Change and Displacement Reports
UNDRR. Global Assessment Report on Disaster Risk Reduction
IPCC. Sixth Assessment Report (AR6), 2021–2023
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