Apesar de avanços pontuais, a presença feminina em cargos de liderança ainda é limitada por barreiras culturais, estruturais e institucionais
Em pleno século XXI, a imagem de uma mulher no comando de grandes empresas, instituições públicas ou organizações políticas ainda é exceção – e não regra. Embora representem mais da metade da população brasileira e tenham níveis educacionais cada vez mais altos, as mulheres continuam sub-representadas em posições de poder e decisão. O problema não está na falta de competência, mas nas estruturas que historicamente limitam suas oportunidades.
De acordo com dados do IBGE e da pesquisa "Panorama Mulher 2024", realizada pelo Instituto Ethos, apenas 18% dos cargos executivos no Brasil são ocupados por mulheres. Quando o recorte é feito entre CEOs de grandes empresas, esse número despenca para menos de 10%. Se considerarmos mulheres negras, o índice se torna praticamente simbólico.
A ideia de que cargos de liderança são acessíveis a todos que se esforçam é, na prática, uma falácia para boa parte das mulheres. Estudos mostram que elas enfrentam uma série de obstáculos invisíveis, como a falta de reconhecimento, a sobrecarga com tarefas domésticas, o assédio moral e sexual no ambiente corporativo e a ausência de redes de apoio.
Veja também


"Não é questão de mérito, é questão de acesso. Muitas vezes a mulher é preterida por suposições de que será menos disponível por causa da maternidade ou por não se encaixar no 'perfil de liderança', que ainda é majoritariamente masculino", explica a socióloga Denise Carvalho, pesquisadora em gênero e mercado de trabalho.
No setor público, o cenário não é muito diferente. Apesar de terem conquistado o direito ao voto há quase 100 anos, as mulheres ocupam menos de 20% das cadeiras no Congresso Nacional. Governos estaduais e prefeituras seguem sendo majoritariamente comandados por homens.
Essa disparidade tem efeitos concretos. "Quando as mulheres não estão nas mesas de decisão, políticas públicas deixam de considerar suas necessidades. Lideranças diversas produzem soluções mais justas, mas isso só acontece quando há representatividade", destaca Denise.

Fotos: Reprodução/Google
Nos últimos anos, diversas empresas têm promovido programas de diversidade. No entanto, especialistas alertam que muitas dessas iniciativas são superficiais, voltadas mais para a imagem institucional do que para mudanças reais de estrutura e cultura.
É necessário ir além do discurso. Implementar metas de promoção, garantir igualdade salarial, investir em formação e acolhimento, e responsabilizar ambientes tóxicos são medidas urgentes. “A equidade de gênero precisa ser vista como um fator de inovação e desenvolvimento, não apenas como uma pauta social”, afirma Carolina Moura, consultora de gestão inclusiva.
A ausência de mulheres em cargos de liderança não é fruto do acaso. É resultado de séculos de exclusão, reforçados por estruturas ainda resistentes à mudança. Enquanto o talento feminino continuar sendo subestimado ou ignorado, o Brasil seguirá desperdiçando seu potencial – e comprometendo a construção de uma sociedade mais justa, plural e moderna.
Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.