30 de Abril de 2026

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Mulher na Política - 06/12/2025

Mulheres na política: a força que transforma o poder, a infância e o planeta

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Foto: Reprodução/Google/Montagem Portal Mulher Amazonica

Embora representem mais da metade da população e do eleitorado, as mulheres continuam sub-representadas no Congresso e nas prefeituras.

Por Carla Martins e Maria Santana Souza - O avanço das mulheres na política é um dos movimentos sociais mais transformadores do século XXI. Mais do que ocupar cargos públicos, as mulheres estão redefinindo o significado de poder, imprimindo empatia, justiça social e sustentabilidade às decisões que moldam o futuro.

 

Segundo o relatório Women in Politics 2025, da ONU Mulheres e da União Interparlamentar (IPU), as mulheres ocupam apenas 27,2% dos assentos parlamentares no mundo e 22,9% dos cargos ministeriais. No Brasil, a desigualdade é ainda maior. Embora representem mais da metade da população e do eleitorado, as mulheres continuam sub-representadas no Congresso e nas prefeituras.

 

Mas quando chegam ao poder, elas mudam tudo. Mudam as prioridades, o olhar e até o ritmo da política. A presença feminina está associada a políticas mais eficazes em educação, proteção social, meio ambiente e combate à pobreza — temas que refletem uma sensibilidade política que a sociedade ainda aprende a valorizar.

 

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A política do cuidado: o que muda com as mulheres no poder

 

 


Durante décadas, o poder foi definido por lógicas masculinas — comando, competição, força. As mulheres, ao ingressarem na política, trouxeram novas linguagens: o cuidado, a escuta e a cooperação. Essa “sensibilidade feminina” não é fragilidade; é visão ampla, conectada com o cotidiano das pessoas. A vice-secretária-geral da ONU, Amina J. Mohammed, resumiu essa força ao dizer:

 

“Quando uma mulher entra num espaço de decisão, ela deve ocupá-lo e expandi-lo. E deve trazer outras mulheres consigo.” Essa ideia de multiplicar vozes é essencial. Mulheres em cargos públicos tendem a promover políticas mais inclusivas e participativas. Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (2025) mostrou que cidades governadas por mulheres apresentam melhores índices de educação e sustentabilidade ambiental. No Brasil, gestoras municipais implementam com mais frequência programas de alfabetização, creches e ações de saneamento básico.

 

A presença feminina amplia também o olhar sobre a infância. O UNICEF (2024) alerta que meninas e crianças são as mais afetadas pelas crises climáticas e pela pobreza, mas as menos representadas nas decisões que definem suas vidas. Quando mulheres participam da formulação de políticas públicas, esses temas deixam de ser secundários e tornam-se prioridade.

 

Clima, gênero e poder: por que as mulheres são essenciais

 

 


A crise climática tem gênero. Segundo a ONU, cerca de 80% das pessoas deslocadas por desastres ambientais são mulheres e meninas. A vulnerabilidade é maior porque elas têm menos acesso a recursos, terra e proteção social. Mas, paradoxalmente, são também as principais agentes de mudança.

 

Mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas e líderes comunitárias no Brasil e no mundo têm sido protagonistas em iniciativas de preservação ambiental e combate ao desmatamento. A socióloga Helen Pankhurst, em entrevista à Euronews (2025), afirmou:

 

 

 

“A mudança climática é sexista. E é profundamente frustrante que as mulheres mais afetadas sejam as menos ouvidas nas mesas de decisão.”


Quando mulheres lideram políticas ambientais, os resultados são mais duradouros. Prefeituras e ministérios chefiados por mulheres priorizam ações de mitigação climática, saneamento e segurança alimentar. A agenda ambiental torna-se, assim, uma pauta de justiça social e de gênero.

 

Amazônia, mulheres ribeirinhas e povos originários

 

 


Nenhum território brasileiro simboliza melhor a interseção entre gênero, clima e política do que a Amazônia. A floresta, que é o coração climático do planeta, é também o lar de milhões de mulheres ribeirinhas, indígenas e extrativistas que vivem cotidianamente os efeitos da crise ambiental.
Essas mulheres são guardiãs do território e da biodiversidade. São elas que coletam a água, cultivam o alimento, cuidam das crianças e resistem às pressões de garimpo, desmatamento e queimadas. No entanto, continuam invisibilizadas nas grandes decisões sobre a Amazônia.

 

De acordo com a ONU Mulheres Brasil (2024), as mulheres amazônicas enfrentam uma dupla vulnerabilidade: a exclusão econômica e a exposição direta às mudanças climáticas, que alteram os ciclos dos rios, comprometem a pesca e afetam a segurança alimentar das comunidades. Ainda assim, elas têm se organizado em redes e associações que unem sustentabilidade, gênero e autonomia econômica.

 

 

 

Um exemplo é o trabalho das Mulheres Guerreiras da Floresta, coletivo que atua no Acre e no Amazonas, promovendo capacitação política e agroecologia sustentável. Essas mulheres mostram que o enfrentamento da crise climática passa pelo reconhecimento dos saberes tradicionais e pela valorização do protagonismo feminino nos territórios. Além disso, as mulheres dos povos originários têm ocupado espaços políticos com discursos que unem o cuidado da Terra e a defesa dos direitos humanos. Para elas, o meio ambiente não é apenas uma pauta ecológica, mas uma questão de existência. Como afirmou uma líder indígena do povo Munduruku, em evento apoiado pela ONU Mulheres:

 

 

 

“Defender a floresta é defender nossas vidas, nossos filhos e o futuro do mundo. A política que não ouve as mulheres da floresta está surda para o planeta.” Ao incluir essas vozes na política, o Brasil não apenas fortalece a democracia, mas também se alinha aos compromissos internacionais de justiça climática e de proteção dos povos tradicionais.

 

A infância no centro das decisões

 

 


Nenhum futuro é sustentável se negligenciarmos as crianças. E nenhuma política será eficaz se continuar a tratá-las como consequência, e não como causa das decisões. É aqui que a liderança feminina faz diferença. O UNICEF tem destacado que políticas públicas lideradas por mulheres tendem a integrar infância e igualdade de gênero, garantindo melhor acesso à educação, nutrição e saúde. A experiência brasileira mostra que programas de assistência social e primeira infância têm mais continuidade e impacto quando liderados por gestoras mulheres.

 

 

 

Nas regiões amazônicas, essa relação é ainda mais evidente. As mulheres ribeirinhas, que lidam diretamente com os efeitos das cheias e secas dos rios, têm sido agentes de educação ambiental nas escolas e nas comunidades, ensinando crianças sobre sustentabilidade e respeito à natureza. Essa atuação cotidiana, embora muitas vezes invisível, é política em sua essência — uma política de cuidado, de resistência e de esperança.

 

Brasil e o desafio da representatividade

 

 


Apesar dos avanços, a política brasileira ainda é marcada pela exclusão de gênero e raça. Em 2025, as mulheres são apenas 18% do Congresso Nacional. A desigualdade se agrava quando se considera que a maioria dessas mulheres é branca e de classes médias. A representatividade das mulheres negras, indígenas e periféricas continua mínima. Essa ausência não é acidental: é fruto de barreiras históricas — financiamento desigual de campanhas, assédio político, falta de apoio partidário e uma cultura que associa liderança à masculinidade. Mesmo assim, o avanço das mulheres brasileiras é notável. Nos últimos anos, lideranças femininas têm emergido em pautas urbanas, ambientais e comunitárias, mostrando que há diversas formas de exercer poder.

 

Projetos apoiados pela ONU Mulheres no Brasil têm incentivado candidaturas femininas e criado redes de apoio contra a violência política de gênero. Essas ações não apenas fortalecem a democracia, mas revelam que a igualdade de gênero é uma condição civilizatória, e não um luxo democrático.

 

Por que precisamos de mais mulheres na política

 

 

 
A exclusão das mulheres dos espaços de poder é, na prática, uma limitação da democracia. Quando apenas metade da sociedade decide por todos, o resultado é um sistema parcial e ineficiente. A presença feminina, ao contrário, fortalece as instituições, amplia a transparência e aproxima o Estado das pessoas. Estudos mostram que países com maior número de mulheres no parlamento apresentam menores índices de corrupção e maior confiança social. Isso ocorre porque a diversidade de gênero amplia o diálogo e cria novos mecanismos de controle e ética pública.

 

A ex-diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, resumiu: “Quando as mulheres estão à mesa de decisão, as sociedades prosperam. Quando elas não estão, todos perdem.” O Brasil, portanto, tem um enorme potencial de transformação ao investir na participação política feminina. Essa não é uma luta apenas das mulheres, mas de toda a sociedade — uma aposta na qualidade democrática, na sustentabilidade do país e na proteção da Amazônia.

 

Conclusão

 

 

 
As mulheres mudam a política porque mudam o olhar sobre o mundo. Ao ingressarem nos espaços de poder, elas desafiam modelos hierárquicos e introduzem uma ética do cuidado e da responsabilidade coletiva. A luta histórica das sufragistas, das lideranças comunitárias, das mulheres ribeirinhas e das defensoras dos povos originários continua viva em cada mulher que hoje ocupa uma cadeira, propõe uma lei, planta uma árvore ou defende uma criança. A democracia só será plena quando refletir a diversidade da sociedade que pretende representar. Mais mulheres na política significam mais vozes, mais justiça, mais floresta em pé e mais futuro.

 

 Fotos: Reprodução/Google
 
 
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fontes:
ONU Mulheres Brasil. Mulheres na Política e na Vida Pública: Avanços, Desafios e Representatividade no Brasil. Brasília: ONU Mulheres, 2024.
UNICEF. Relatório sobre Gênero, Infância e Mudanças Climáticas 2024. Nova York: Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 2024.
Amazon Conservation Team. “Mulheres indígenas marcham por territórios e pela vida.” Amazon Conservation Team, agosto de 2025.
Relatos de mulheres indígenas no Brasil: “Não temos medo”: mulheres indígenas brasileiras enfrentam a violência de gênero. UN News/UNFPA Brasil, Janeiro 2023.
Mobilização de mulheres indígenas no Brasil em defesa do território e do meio-ambiente: “Mulheres indígenas marcham por territórios e pela vida.” Agosto 2025
 

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