O dado revela uma intensificação dos conflitos territoriais. Em comparação com 2024, quando oito mortes foram registradas na região, o número dobrou em apenas um ano.
A violência no campo brasileiro voltou a crescer em 2025, com impacto direto sobre a Amazônia Legal. Mais da metade dos assassinatos registrados no país ocorreu na região, consolidando um cenário de tensão permanente em territórios marcados por disputas fundiárias, exploração ilegal de recursos naturais e ausência do Estado.
De acordo com o relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, da Comissão Pastoral da Terra, 16 dos 26 assassinatos registrados no país aconteceram na Amazônia Legal, o equivalente a 61% do total. Os casos concentram-se especialmente nos estados de Pará e Rondônia, com sete ocorrências cada, além do Amazonas, com dois registros. O dado revela uma intensificação dos conflitos territoriais. Em comparação com 2024, quando oito mortes foram registradas na região, o número dobrou em apenas um ano.
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Mulheres no centro da crise

Embora a violência atinja comunidades inteiras, seus efeitos recaem de forma desproporcional sobre as mulheres. Na Amazônia Legal, mulheres indígenas, ribeirinhas, quilombolas, agricultoras familiares e extrativistas vivem sob múltiplas camadas de vulnerabilidade. Além do risco direto de violência física, elas enfrentam:
• Deslocamento forçado após ataques a comunidades
• Insegurança alimentar, com perda de roçados e áreas de coleta
• Rompimento de redes de apoio comunitário
• Sobrecarga de cuidado com crianças, idosos e feridos
• Violência psicológica e intimidação constante
Em muitos territórios, são também as mulheres que assumem a linha de frente na defesa ambiental, denunciando crimes como desmatamento ilegal, grilagem e mineração clandestina. Essa atuação amplia sua exposição a ameaças.
Território, poder e disputa

A escalada da violência está diretamente ligada à pressão econômica sobre a Amazônia. A expansão da fronteira agropecuária, a mineração ilegal, a exploração madeireira e a especulação fundiária têm intensificado disputas por terra e recursos. Esse cenário não é novo, mas ganha novos contornos com o avanço de redes organizadas que atuam de forma violenta para consolidar controle territorial.
Casos emblemáticos, como o assassinato da missionária Dorothy Stang em 2005, continuam sendo referências de um padrão histórico de violência contra defensores da floresta. Duas décadas depois, o contexto permanece crítico, especialmente para mulheres que ocupam posições de liderança.
Violência de gênero e silenciamento

A violência no campo também carrega uma dimensão de gênero frequentemente invisibilizada. Mulheres lideranças são alvo de estratégias específicas de silenciamento, como:
• Ameaças direcionadas às suas famílias
• Exposição pública e difamação
• Violência sexual como instrumento de intimidação
• Deslegitimação de sua atuação política
Segundo a Human Rights Watch, defensoras ambientais enfrentam riscos mais elevados justamente por desafiarem estruturas de poder historicamente masculinas.
Falhas estruturais e ausência do Estado
Especialistas apontam que a escalada dos conflitos está diretamente relacionada à fragilidade da presença estatal em áreas remotas da Amazônia. Entre os principais problemas estão:
• Falta de regularização fundiária
• Fiscalização ambiental insuficiente
• Baixa proteção a defensores de direitos humanos
• Lentidão no sistema de justiça
• Impunidade recorrente
Programas de proteção existentes, como o Programa de Defensores de Direitos Humanos, ainda são considerados limitados diante da dimensão do problema.
Impactos que atravessam gerações

A violência no campo não termina com o ataque. Seus efeitos se prolongam por anos e atingem toda a estrutura social das comunidades. Crianças crescem em ambientes de medo, mulheres assumem responsabilidades ampliadas após perdas familiares e comunidades inteiras enfrentam processos de desintegração cultural e econômica. Na Amazônia, onde a relação com o território é também identidade, espiritualidade e sobrevivência, perder a terra significa perder muito mais do que um espaço físico.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

Fotos: Reprodução/Google
Diante desse cenário, o Portal Mulher Amazônica afirma que a violência no campo é também uma violação sistemática de direitos das mulheres e precisa ser tratada como prioridade nacional. O portal defende:
Reconhecimento da violência territorial como violência de gênero A realidade das mulheres da floresta precisa ser incorporada às políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher. Proteção efetiva às defensoras ambientais É urgente fortalecer mecanismos de proteção com abordagem específica de gênero e territorialidade. Regularização fundiária e garantia de territórios tradicionais A segurança da terra é condição essencial para reduzir conflitos e proteger vidas. Fortalecimento da presença do Estado na Amazônia Fiscalização ambiental, segurança pública e acesso à justiça devem ser ampliados. Autonomia econômica para mulheres do campo e da floresta Investimentos em políticas de geração de renda e apoio à produção sustentável são fundamentais.
Um cenário que exige resposta imediata
O avanço da violência na Amazônia Legal não é um fenômeno isolado, mas o reflexo de um modelo de desenvolvimento que pressiona territórios e populações vulneráveis. Sem ação coordenada e políticas públicas eficazes, a tendência é de agravamento. E, nesse contexto, as mulheres seguem na linha de frente, resistindo, denunciando e defendendo a floresta, muitas vezes à custa da própria segurança.
Fontes:
Comissão Pastoral da Terra – Relatório Conflitos no Campo Brasil 2025
Human Rights Watch – Relatórios sobre defensores ambientais
Anistia Internacional – Estudos sobre violência contra defensoras de direitos humanos
Instituto Socioambiental – Dados sobre conflitos territoriais e povos da Amazônia
Conselho Indigenista Missionário – Relatórios sobre violência contra povos indígenas
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