Forçada a servir em uma ?estação de conforto? aos 17 anos, sofreu abusos constantes até conseguir escapar três meses depois.
Em 14 de agosto de 1991, Kim Hak-sun, uma sobrevivente coreana nascida em 1924, tornou-se a primeira mulher a romper o silêncio sobre o sistema militar de prostituição forçada implementado pelo exército japonês entre as décadas de 1930 e 1940. Sua declaração pública marcou o início de um movimento global pelo reconhecimento das atrocidades que ela e milhares de outras mulheres sofreram.
Após décadas de silêncio vivenciando vergonha, estigmas e trauma, Kim decidiu falar aos 67 anos, motivada pelo avanço dos direitos das mulheres em seu país. Forçada a servir em uma “estação de conforto” aos 17 anos, sofreu abusos constantes até conseguir escapar três meses depois.
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O impacto da fala de Kim Hak-sun
Sua coragem inspirou centenas de outras sobreviventes de diversos países ocupados — não apenas na Coreia, mas também na China, Filipinas, Indonésia, Taiwan, entre outros, a compartilharem seus relatos e exigirem justiça. Desde então, 14 de agosto passou a ser lembrado internacionalmente como o “Memorial Day for Comfort Women Victims”, oficializado pela República da Coreia em 2017.
Aspectos legais e diplomáticos

Em dezembro de 1991, Kim Hak-sun e outras sobreviventes abriram uma ação coletiva contra o governo japonês, exigindo desculpas oficiais, compensações, investigação, revisão de livros escolares e criação de memoriais. Em 2015, Coreia do Sul e Japão assinaram um acordo que incluiu uma desculpa formal e um fundo de compensação de 1 bilhão de ienes (cerca de US$ 8,3 milhões). No entanto, a abordagem foi amplamente criticada: muitos sobreviventes consideraram a reparação insuficiente e sem base legal.
Até hoje, não houve um pedido de desculpas oficial que reconheça a responsabilidade jurídica do Japão. Em maio de 2025, porém, tribunais sul-coreanos voltaram a reconhecer a responsabilidade do governo japonês em decisões importantes — um passo significativo na luta por justiça.
Organismos internacionais, como os Comitês da ONU contra a Tortura e pela Eliminação da Discriminação contra a Mulher, também criticaram o acordo de 2015 por não ser centrado nas vítimas.
Símbolos de lembrança e resistência

A Estátua da Paz (Sonyeosang) tornou-se o maior símbolo dessa luta. O memorial, inspirado na figura de uma jovem sentada, representa a espera, a dor e a resistência. A primeira estátua foi instalada em 2011 diante da embaixada do Japão, marcando o milésimo protesto semanal das chamadas “Manifestações de Quarta-feira”, organizadas pelo Conselho Coreano das Mulheres para Mobilização Sexual.
Desde então, dezenas de réplicas foram erguidas ao redor do mundo, de Seul a San Francisco, de Berlim à Austrália, assegurando que a história não seja apagada. Na Coreia, também foi criada a Casa da Partilha (House of Sharing), um lar e museu que acolhe sobreviventes e preserva sua memória por meio de exposições, arte e ações de justiça histórica.
Por que essa data é tão importante?

Fotos: Reprodução/Google
1. Rompeu o silêncio coletivo: a declaração de Kim Hak-sun estimulou um movimento global e deu visibilidade internacional ao sofrimento das mulheres de conforto.
2. Converteu uma ferida histórica em agenda de direitos humanos: o caso deixou de ser apenas um problema diplomático e passou a ser tratado como questão de crimes de guerra, reparação e dignidade.
3. Constrói memória viva: estátuas, protestos semanais, museus e ações judiciais mantêm ativa a lembrança para educar novas gerações.
4. Exige justiça efetiva e contínua: o reconhecimento legal e histórico, ainda incompleto, segue como meta das sobreviventes, da Coreia do Sul e da comunidade internacional.
A coragem de Kim Hak-sun, ao romper o silêncio em 1991, transformou não apenas sua história pessoal, mas também a memória coletiva de milhares de mulheres vítimas de violência sexual sistemática durante a guerra. O 14 de agosto tornou-se, assim, um marco essencial na luta por dignidade, memória e justiça.
Essa data lembra ao mundo que o silêncio imposto pela violência não pode prevalecer sobre a verdade, e que a reparação histórica não se limita a acordos diplomáticos: ela exige reconhecimento jurídico, pedagógico e cultural, para que crimes de guerra como esses jamais sejam repetidos.
Enquanto as estátuas, as manifestações semanais e os espaços de memória mantêm viva a resistência, o legado de Kim Hak-sun reafirma que a voz de uma mulher pode ecoar como um chamado universal por direitos humanos e justiça.
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