Foi com o apoio da família que ela encontrou a própria missão, transformando a dor em potência, e a estética em ferramenta de afirmação e resistência.
Uma reflexão profunda sobre as desigualdades históricas enfrentadas pela população negra encontra, em Manaus, um rosto, um nome e uma trajetória que inspira: Marly Paixão, trancista, psicóloga e uma das principais referências na valorização da identidade negra na Amazônia.
Nascida na periferia de São Paulo, Marly chegou a Manaus aos 14 anos e fincou raízes na capital amazonense. Casou-se, teve duas filhas biológicas — Keverly e Jeinnyliss Paixão — e acolheu mais 18 filhos do coração. Foi com o apoio da família que ela encontrou a própria missão, transformando a dor em potência, e a estética em ferramenta de afirmação e resistência.
Tudo começou em 1985, quando, às vésperas do próprio casamento, Marly sofreu um corte químico ao tentar alisar o cabelo. Decidiu, então, não mais negar sua ancestralidade. Trancou-se no banheiro por três dias com novelos de lã e recordações da prima trancista. Sozinha, aprendeu a trançar. Assim nasceu o primeiro salão de tranças afro do Amazonas — hoje liderado por suas filhas — e uma trajetória de empoderamento que entrelaça identidade, arte e acolhimento.
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“No dia em que me reconheci, tudo mudou. Eu me vi nas tranças, me vi inteira. Era como se dissesse a mim mesma: ‘Essa sou eu’. Foi ali que nasceu meu propósito”, lembra Marly.
Suas tranças passaram a chamar atenção nas ruas de Manaus, tornando-se ao mesmo tempo escudo e cartão de visita. Mulheres negras curiosas e admiradas pela arte passaram a procurá-la — e ela as atendia gratuitamente. A virada veio quando o marido a incentivou a transformar essa prática em fonte de renda. No salão, além de trançar, Marly ouvia as dores: mulheres que escondiam os cabelos dos maridos, chefes que exigiam a retirada das tranças, famílias que não aceitavam seus traços e raízes.
Essa escuta empática a levou a um novo passo: já adulta, decidiu estudar psicologia para compreender melhor as dores que atravessam a população negra. Hoje, com sua formação, lidera projetos sociais como a Associação Brasileira Acolhe-Dor e oferece atendimento psicológico, principalmente para pessoas negras e outras minorias, enfrentando não só o racismo, mas também o tabu em torno do cuidado emocional.

“A mulher preta ainda carrega a crença de que precisa suportar tudo sozinha. Muitas não procuram ajuda, acham que estão fazendo drama. Isso é reflexo do racismo estrutural, que nega inclusive o direito ao sofrimento e ao cuidado”, denuncia Marly. Dados recentes reforçam sua fala. Uma pesquisa apoiada pelo Ministério da Igualdade Racial, divulgada em junho de 2024, mostra que 84 a cada 100 pessoas pretas no Brasil já sofreram discriminação racial. A análise revelou ainda que 51,2% relatam ser tratados com menos gentileza; entre os pardos, 44,9%; entre os brancos, 13,9%.
Para Marly, ainda é difícil falar sobre racismo abertamente. “Dizem que não existe, mas na nossa pele isso grita. A dor vem até em momentos inesperados. Fui dar uma palestra e um estudante disse ‘que susto’ quando me viu. Aquilo me fez voltar à infância, aos traumas de ser vista como ameaça apenas por existir”, recorda.
Ela acredita que o caminho para o enfrentamento passa pela união e pelo compartilhamento de vivências: “É preciso procurar quem vive o mesmo, quem entende. Já atendi pacientes que abandonaram a terapia porque ouviram de psicólogos brancos que estavam exagerando. Isso é violência”, afirma.

Fotos: Reprodução/Google
O Portal Mulher Amazônica e o Ela Podcast reconhecem a importância de histórias como a de Marly Paixão e reafirmam seu compromisso com o combate à discriminação racial. Dar visibilidade a lideranças negras, mulheres da floresta, das periferias e da diáspora africana na Amazônia é parte essencial da nossa missão.
O racismo ainda é uma ferida aberta no Brasil, mas é com informação, acolhimento e resistência que vamos, juntas, cicatrizando essas marcas e construindo um futuro mais justo e igualitário para todas.
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