Nascido em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, região de profunda diversidade cultural e linguística, Lana dedicou sua vida à valorização das tradições de seu povo
No último fim de semana, a Amazônia perdeu uma de suas vozes mais importantes na preservação e transmissão do conhecimento indígena. Aos 77 anos, Luiz Gomes Lana (Tolamãn Kenhíri) partiu, deixando um legado inestimável para seu povo, os Desana, e para todos que reconhecem a importância da memória ancestral. Escritor, artista plástico e liderança indígena, Lana revolucionou a forma como o conhecimento dos povos originários é registrado e compartilhado.
Nascido em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, região de profunda diversidade cultural e linguística, Lana dedicou sua vida à valorização das tradições de seu povo. Compreendendo o poder da oralidade e da escrita, trabalhou incansavelmente para assegurar que as histórias, os mitos, as rezas e os saberes dos Desana não fossem perdidos diante da colonização e da imposição de uma cultura dominante.
Em parceria com seu pai, o também respeitado Umusï Pãrõkumu (Firmiano Arantes Lana), Lana foi coautor de “Antes o Mundo Não Existia”, obra fundamental para o registro da cosmologia dos povos do Rio Negro. O livro, publicado originalmente em 1980, tornou-se um marco na documentação dos saberes indígenas a partir da perspectiva dos próprios narradores originários. Suas páginas resgatam o relato da criação do mundo segundo os povos Tukano, Desana e outros habitantes da região, desafiando a noção de que o conhecimento indígena só teria validade se registrado pelo olhar do não indígena.
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Além da literatura, Lana se destacou na arte e na educação. Sua dedicação à Maloca Museu, projeto de revitalização e reconstrução da cultura Desana, mostrou seu compromisso em manter viva a identidade de seu povo. A maloca não era apenas um espaço físico, mas um símbolo da resistência e da continuidade da sabedoria ancestral.
Seu trabalho foi reconhecido em diversas iniciativas, como a coleção “Narradores Indígenas do Rio Negro”, da qual participou ativamente. No lançamento do primeiro volume, em 1995, Lana enfatizou a importância da memória na tradição indígena: “Para nós, que somos os irmãos maiores do homem branco, Yebá-gõãmi deu o poder da memória (…). Nosso saber não está nos livros! Mas ao branco, que foi o último a sair da Canoa-de-Transformação, ele deu o poder da escrita. (…). É por isso que o homem branco chegou na nossa terra com a escrita, com os livros.”

Fotos: Reprodução
Essa visão, compartilhada com a antropóloga Dominique Buchillet, revela sua profunda compreensão sobre os diferentes modos de transmissão do conhecimento e sua incansável busca por construir pontes entre essas formas de saber.
Lideranças indígenas e pesquisadores reconhecem a revolução promovida por Lana. Domingos Barreto, do povo Tukano, afirma: “Ele realmente revolucionou a forma como o conhecimento indígena é registrado e compartilhado.” Sua contribuição ressignificou a presença indígena na produção de conhecimento, garantindo que as histórias e a sabedoria de seu povo fossem contadas por quem as vive, e não apenas por intermediários externos.
Luiz Gomes Lana parte, mas deixa um legado eterno. Seu trabalho segue vivo nas palavras escritas, nos desenhos que contam histórias sem precisar de legendas, nas memórias que plantou nas novas gerações. A luta pela valorização dos saberes indígenas, pela resistência cultural e pelo direito de contar a própria história encontra nele um de seus mais inspiradores exemplos. Que sua jornada agora siga pelos caminhos ancestrais, onde os espíritos antigos o aguardam com o mesmo respeito que conquistou em vida.
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