03 de Maio de 2026

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Cultura e Eventos - 22/08/2025

Livro mostra uma Ribeirão Preto redescoberta pela música

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Foto: Reprodução/Internet

Obra assinada pelos professores Rubens Russomanno Ricciardi e Lucas Eduardo da Silva Galon revela documentos inéditos do século 19 e reconstrói a memória artística e urbana da cidade

A cidade de Ribeirão Preto que se conhece hoje nasceu sobre alicerces demolidos. Igrejas, coretos e teatros desapareceram em nome do progresso, mas sobrevivem as solfas (papéis de música), crônicas e memórias. É esse cenário de perdas e reconstruções simbólicas que ganha vida no livro História da Música em Ribeirão Preto (Volume I) – Por uma Poética de Reconstrução:

 

Dos Conflitos entre Posseiros ao Mestre de Capela da Matriz. O primeiro volume da obra será lançado nesta quarta-feira, dia 20, às 18 horas, na Biblioteca Sinhá Junqueira (Rua Duque de Caxias, 547, em Ribeirão Preto), durante a Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, em evento aberto ao público e com distribuição gratuita.

 

Assinado pelos professores Rubens Russomanno Ricciardi e Lucas Eduardo da Silva Galon – ambos docentes do Departamento de Música da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP -, pelo historiador e paleógrafo Odair Aparecido de Paula e pelo pesquisador Paulo Eduardo de Barros Veiga, o livro tem 152 páginas e traz uma narrativa que une pesquisa documental, filosofia e crítica contrária às ideologias da cultura. A capa, assinada por Gerson Watanuki, reproduz um antigo mapa da cidade, com seus rios e sua matriz já desaparecida, incluindo o antigo cruzeiro que havia na Praça XV.

 

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Capítulos que contam a história de uma cidade

 

 

O livro está estruturado em cinco capítulos. O primeiro, uma introdução crítica, propõe uma “poética de reconstrução” e convida o leitor a imaginar o que foi perdido, como a antiga Igreja Matriz de São Sebastião, coração simbólico da cidade, que foi demolida. Segundo os autores, “não se trata apenas de nostalgia, mas de um exercício de memória ativa, capaz de compreender o impacto das ausências no tecido urbano”. No segundo capítulo, surge a Ribeirão do século 19: uma cidade em transformação que passa da cultura do gado e do porco, ou seja, da subsistência, para a cultura do café e a chegada dos trilhos da Mogiana. Nesse ambiente, a música se espalha em orquestras e bandas presentes em cerimônias religiosas e civis.

 

Homem de óculos e com camisa escura


O terceiro capítulo mergulha nas questões da Igreja Católica na formação musical local. É nesse ponto que surge a figura de Francisco Caetano dos Anjos Gaia, conhecido por Chico Gaia, o primeiro mestre de capela da Matriz, nomeado em 1881. “Foi ele o primeiro músico oficial da cidade e estava totalmente esquecido. Nós somos os primeiros a resgatar a sua história”, afirma o professor Rubens Russomano Ricciardi. O quarto capítulo abre uma ferida: revela como a Câmara Municipal da época instituía práticas racistas, com leis que proibiam a participação de negros e escravizados em festas e danças, como os batuques e os cateretês, sufocando expressões populares.

 

“Esses documentos mostram como havia uma política deliberada de exclusão, uma tentativa de sufocar a dança e a música praticadas pelos pobres”, explica o professor. Por fim, o quinto capítulo aprofunda o conflito entre Chico Gaia e um inspetor de ensino, que queria proibir o mestre de capela a trabalhar com instrumentos musicais em sala de aula, episódio que expõe as tensões da moral cultural contra as artes.

 

Uma trajetória além da música

 

Professor e maestro da Filarmônica da USP Ribeirão

Preto, Rubens Russomanno Ricciardi 

 

Mais do que um inventário musical, o livro é um retrato ampliado da Ribeirão do século 19, com seus cronistas, suas disputas e sua arquitetura perdida. São mencionados nomes como Plínio Travassos dos Santos, Osmani Emboaba da Costa, José Antônio Corrêa Lages e Valéria Garcia, cujos registros ajudaram a compor esse mosaico histórico. “Nós tivemos sorte, porque hoje os mecanismos de busca estão mais abrangentes e encontramos documentos inéditos do século 19 nos arquivos da Assembleia Legislativa de São Paulo, da Catedral de São Sebastião, na cidade, no Nacional do Rio de Janeiro, no Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, entre outros”, conta Ricciardi.

 

O ensaio histórico também critica o descaso com o patrimônio arquitetônico, lembrando as transformações urbanas com a demolição de espaços físicos imprescindíveis para as artes. “É um livro sobre música, mas também sobre a fundação da cidade, sobre memória e sobre patrimônio”, afirma o professor. “Falamos de uma Ribeirão que foi sendo apagada e propomos essa reconstrução, quem sabe também física, com uma poética de reconstrução possível no século 21.

 
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Livro mostra uma Ribeirão Preto redescoberta

pela música (Fotos: Reprodução/Internet)

 

Importa também o mundo do trabalho em música como componente da história da cidade.” Para Ricciardi, o trabalho é também um contraponto às políticas da cultura que relegaram as artes a uma condição precária: “É um livro tanto crítico quanto atento aos detalhes histórico-artísticos. Queremos mostrar que a música de Ribeirão Preto jamais foi uma arte de elite, mas parte fundamental da vida comunitária”. O segundo volume da obra, já em preparação, será dedicado aos séculos 20 e 21, trazendo a trajetória de músicos, orquestras e instituições que marcaram a cidade ao longo do tempo.

 

Fonte: com informações Jornal da USP

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